Quase cinco anos após assassinato de agente da PF, ruralista do Paraná segue impune

Atualização com errata: a vítima Alexandre Drummond Barbosa era agente da Polícia Federal, e não delegado como publicamos anteriormente
 
Á esquerda, o pai da vítima, Geraldo Barbosa. Á direita, o réu Alessandro Meneghel
 
Jornal GGN – Em 2012, um crime na cidade de Cascavel, no Paraná, gerou grande comoção e alertou para os resquícios do coronelismo no país e o poder de influência de ruralistas sobre o sistema político e judiciário, alimentado pela impunidade dessas figuras. Após quase cinco anos, o réu ainda não foi julgado. 
 
O agente da Polícia Federal, Alexandre Drummond Barbosa, foi a vítima que morreu a tiros no dia 14 de abril de 2012. Após um simples desentendimento em uma boate de Cascavel, foi executado por Alessandro Meneghel. Não foi apenas o relato de testemunhas que narraram a barbárie de uma espingarda calibre 12 com mais de 40 tiros. Vídeos e perícias confirmam o cruel assassinato.
 
Mas Meneghel, ex-presidente da Sociedade Rural do Oeste, é pessoa influente na região do Paraná. Naquele ano, em 2012, havia lançado a sua pré-candidatura a deputado estadual no Paraná pelo DEM, contando inclusive com o apoio e elogios de Beto Richa (PSDB), atual governador do Estado e então também candidato ao posto:
 
Alessandro Meneghel (acima) com José Serra e Beto Richa   https://www.youtube.com/watch?v=BBVFEfv5P6M] 
 
Diante de sua influência, a própria Polícia Federal se viu obrigada a publicar o vídeo de câmeras nas ruas da boate, que registram o crime, nas redes sociais, sob o temor de que nas mãos da Polícia Civil o arquivo desaparecesse.
 
https://www.youtube.com/watch?v=Szmac9PkaAg width:500 height:281]
 
A família de Meneghel não se deteve com as provas e indícios de conhecimento público. Inicialmente, chegou a contratar o perito Ricardo Molina, para desmentir a versão da vítima. Mas o pai de Alexandre, Geraldo Barbosa, é ex-professor do Departamento de Física da Universidade Federal de Minas Gerais e especialista em ótica. 
 
Não se cansou e não se deixou abater para verificar, quantas vezes fossem necessárias, o filho ser morto a tiros para reconstituir as imagens e provas o assassinato por Alessandro Meneghel, resultando em um detalhado e milimetricamente embasado relatório sobre as posições da vítima e do réu, do carro do ruralista, dos ângulos de disparos do dia da morte.
 
“O primeiro tiro ocorreu no intervalo entres os quadro 156 e o 166, o que corresponde a 10 quadros e ao tempo de 10 X (0,03seg/quadro)=0,3segundos (aproximadamente o tempo de um piscar de olhos). Como existe um tempo para reação coletiva, no Estudo de Imagens estima-se que o primeiro tiro tenha ocorrido no quadro 158. Ou seja 2 X (0,03seg/quadro)=0,06seg=aprox. 0,1seg após o agente ter sido visto de costas nos quadros 155/156. CONCLUSÃO: Tanto o intervalo de tempo de 0,3seg ou o mais provável de 0,1 seg é muito curto para ser possível ao agente ter visto o réu, ter virado, sacado sua arma em baixo da camisa, mirado e atirado conforme declarado pelo réu no seu Interrogatório”, é trecho das notas produzidas.
 
Outras provas foram coletadas, além do estudo e dos vídeos, como depoimentos de testemunhas e presentes na boate em que ocorreu o crime, e pessoas que corajosamente admitiram terem sido intimidadas após prestar informações.
 
A versão de Meneghel é outra: assumiu que houve uma discussão, fora da boate, chamando o então agente da PF de “vagabundo, filho da puta e que iria bater [em Alexandre]”. Mas que na saída, o agente é que teria se aproximado, sacando uma pistola e começando a atirar no réu, quebrando o vidro de sua camioneta. Segundo o influente ruralista, como suposta reação, sacou uma pistola, fez dois disparos e deu ré com o automóvel.
 
“No Estudo de Imagens [anexo abaixo], fica explicito que todas essas declarações são mentirosas, estórias inventadas e, não fossem os fatos gravados pela câmera, a família os transformaria em verdades. Versões diferentes apareceram posteriormente, sem qualquer convencimento ou que resistam aos fatos registrados pela câmera, a cada fração de segundos”, escreveu o pai Geraldo Barbosa.
 
O histórico do ex-pré-candidato a deputado estadual já mostra outras passagens pela Justiça. Em 2009, já esteve detido na cidade de Toledo, acusado de porte ilegal de armas. Dois anos antes, era indiciado pelo Ministério Público por formação de quadrilha ou bando armado por ações contra invasões em propriedades rurais do interior do Paraná [leia aqui]. Teria organizado milícias para acabar com acampamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
 
Mas a sequência de irregularidades não paralisa na própria defesa e atos da família no caso da morte de Alexandre Barbosa. Geraldo denunciou que as armas portadas por Meneghel eram ilegais, que o advogado ilegalmente fez declarações públicas com versões que não conseguiu comprovar no processo, alertou para o desaparecimento de provas e “influências ocultas”, e a relação da família do ruralista com autoridades locais.
 
 
“A família Meneghel mantém influência em várias instancias do poder local em Cascavel e pode-se até quantificar ações que levam a esta influência, como churrascos oferecidos às polícias Civil e Militar, cavalos dados à Polícia Militar e muitos outros eventos de caráter político”, disse Geraldo.
 
Já preso, o então criminoso logrou a transferência de uma prisão mais dura (Penitenciária Estadual de Cascavel – PEC) para outra quase aberta (Penitenciária Industrial de Cascavel – PIC), solicitada pelo próprio diretor da penitenciária, após um motim que teria sido estimulado, segundo o Ministério Público, pelo próprio ruralista.
 
Tempos depois, em 2015, conseguiu ainda a mudança do regime para domiciliar por um Habeas Corpus, alegando que a mãe do réu estava em estado crítico de saúde, necessitando da presença do filho para os cuidados. Com isso, alcançou a liberdade controlada, com tornozeleira, para a casa da família [leia aqui. No mesmo período, a mãe de Meneghel, supostamente doente, foi vista em um casamento, consumindo bebidas alcoólicas, fatos registrados em fotografias. 
 
Mais recentemente, em dezembro do ano passado, o pai da vítima relata que um juiz substituto, Benjamin Acácio de Moura e Costa, chegou a ampliar a liberdade do réu, concedendo a permanência na fazenda da família oficialmente durante um conflito de pareceres entre juízes da segunda instância e promotores do caso.
 
A defesa de Meneghel também tentou cancelar sessões de julgamento, em diversas ocasiões, para atrasar o processo e condenação do réu. Uma das estratégias adotadas pelo advogado Cláudio Dalledone Junior foi a de provocar os promotores para obter reações que cancelassem o júri.
 
Em uma das tentativas, em março de 2016, Dalledone Junior dirigiu-se à promotora auxiliar Ana Vanessa Fernandes Bezerra, afirmando que “ela era jovem e ele adoraria ter a oportunidade de brincar com ela”. Na audiência, o juiz teve que interceder diversas vezes diante da agitação dos jurados. A promotora abriu um processo de desacato contra o advogado, que ainda está em tramitação. Por outro lado, a defesa conquistou a perda técnica do júri.
 
Fonte: Vídeo produzido pelo portal CGN

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Outra medida tomada pelo advogado foi o anúncio da “necessidade de uma cirurgia em caráter urgente para ele, devido a uma hérnia”, marcada justamente no dia da sessão de audiência com os promotores originais. 

 
“Numa nova estratégia para mais um atraso do Júri, Júnior solicitou um novo desaforamento para cidade diferente de Curitiba. O pedido foi indeferido, somente recentemente, levando a quase um ano de espera até o próximo Júri”, relatou ainda o pai da vítima [leia aqui.
 
A sequência de medidas tomadas pela família e defesa de Meneghel junto a juízes, autoridades, obstaculizando o andamento da investigação e dos julgamentos e prorrogando as sessões, resultou em quase cinco anos de impunidade e supostas benesses fornecidas a Alessandro, após o assassinato cruel e de grande comoção.  Mais uma audiência está marcada para o dia 21 de fevereiro. Segundo Geraldo Barbosa, nada indica impedimentos para o novo Júri. 
 
 
Acompanhe aqui as reportagens feitas em 2012:
 

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20 comentários

  1. Esse é o retrato da justiça brasileira. . .

    Esse é o retrato da justiça brasileira, não só no estado do Paraná, mas em todo o Brasil. Como diz a frase proferida pelo historiador argentino Eduardo Galeano: “A justiça é como as serpentes, só morde os descalços”. Fr.ase essa, que se aplica sobremaneira à justiça brasileira.

  2. Venho de uma cidade do

    Venho de uma cidade do interior de Minas onde se diz que o sujeito só deixa de matar se souber que vai morrer.

  3. Acho que falta o elemento principal: convicção

    Provas sem convicções nada valem. Por outro lado, convcções, ainda que não tenham provas, vale tudo.

    Crime de rico a lei encobre

    O estado esmaga o oprimido

    Não há direito para o pobre

    Ao rico tudo é permitido.

     

    A polícia federal é covarde. Se fosse um pobrezinho que tivesse matado o agente, já estaria morto há muito tempo. Como o assassino é um rico, a PF bota o rabinho entre as pernas. Eles são são fortes com os fracos.

  4. Havia entendido que o cara

    Havia entendido que o cara nem tinha sido julgado. Pelo visto, foi. Foi penalizado e o que vem acontecendo é justamente o que se dá no País como um todo, quando se tem recursos financeiros à balde: o ação do time dos advogados contratado justamente para postergar o cumprimento da pena, para interpor infinitos recursos, para se prender às filigranas de qualquer documento produzido no decorrer da ação para “melar” o processo… 

  5. A PF só é valente para perseguir Lula, o PT e os petistas?

    Prezados,

    Não estou misturando as bolas. Esse gravíssimo assassinato de um agente da PF deve ser mantido no noticiário. Fica evidente que a influência do ruralista assassino junto a autoridades policiais e judiciárias do Paraná contribui para que ele fique impune.

    Quem está tomando frente no caso é o pai da vítima, ex-professor de Física e especialista em Óptica. A pergunta que não quer calar é a seguinte: 

    – Por que a PF, que se mostra tão valente em perseguir e cometer crimes contra o ex-presidente Lula e outros líderes petistas ou ex-ministros que serviram aos governos de Lula e Dilma, não se empenha nesse caso, para que o assassino do agente Alexandre Drummond Barbosa, o ruralista rico e influente Alessandro Meneghel, seja punido com rigor, na forma da Lei?

    É sintomático que esse grave episódio, o assassinato de um policial federal, ocorrido no mesmo estado que sedia a ORCRIM da Fraude a Jato, não tenha o apelo midiático da operação que arruinou o Brasil. Mais grave é que a própria PF não se empenhe na solução do caso, para que o assassino seja julgado, condenado e preso, como prevê a Lei. Se o agente da PF tivesse sido assasinado pr um sem-terra, qual teria sido a reação da PF?

    • Correção

      A PF não está no caso por se tratar de crime comum de competência da justiça estadual. Ou seja, a polícia judiciária que investiga esse tipo de crime  é a polícia civil, no caso a do Estado do Paraná. 

      Por favor, não ofenda a família, os amigos e os policiais federais fazem julgamento equivocado em caso de bárbaro assassinato. 

      Se não deseja pedir que se faça justiça, então pelo menos retire esse comentário infeliz para o bem da razão e da ética.

       

       

  6. Não é que eu seja a favor de

    Não é que eu seja a favor de assassinatos , mas diante do que vemos a PF principalmente do Paraná , que se partidarizou juntamente com os MPs do Brasil , devo dizer que castigo para essa trupe é pouco , chama o Aécio amiguinho dos delegados Aécistas para resolver o caso , ou peção ajuda para o excroque do Moro quem sabe né , essa gente só persegue Puta , Preto ,Pobre e Petista o resto é gente fina m,esmo que matem um da PF. A justiça não é para todos segundo o judiciário brasileiro.

    • Uma coisa…

      Ó Henrique, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Não estamos diante de uma ação policial praticada por um PF e sim diante de um assassinato cometido por alguém que usa do poder para praticar crimes. Esse assassino tem uma extensa folha corrida e só não estava preso porque, como você diz, no Brasil só se prende pretos, pobres e putas. É um bandido da pior espécie e tem de ser justiçado.

       

  7. Esse rapaz aí entre Dilma

    Esse rapaz aí entre Dilma Rousseff e Gleisi Hoffmann chama-se Eduardo Gaievski ex-prefeito de Realeza (PT) e ex-assessor de Gleisi na Casa Civil  e já condenado condenado a 101 anos de prisão em 6 de 14 processos por estupro de menores.

    Assim como essa foto não faz de Dilma e Gleisi amigas e defensoras de estupradores de menores a foto de Jose Richa e José Serra ao lado do assassino de Cascavel nâo os faz amigos e simpatizantes de assassinos como quer fazer crer a reportagem e ilustrações do post.
    http://g1.globo.com/pr/oeste-sudoeste/noticia/2015/08/justica-condena-pela-6-vez-eduardo-gaievski-por-abuso-sexual-de-menor.html

    O blog as vezes faz exatamente o que critica nos outros.

    • petista vai preso

      ta preso porque é petista, porque o parente do beto richa cometeu o mesmo crime e esta solto, aliciar menores para sexo utilizando seu poder financeiro e politico!!

       

      a diferença é que este é petralha, então condena e joga na midia!!!!!

  8. Gente rica que comete assassinatos é levada à prisão??

    1 – Está no G1:

    Em janeiro de 2004, três auditores do Ministério do Trabalho e um motorista foram mortos em uma emboscada. Eles investigavam trabalho escravo na região onde Mânica tem uma fazenda, no Noroeste de Minas Gerais. O alvo da execução seria, segundo testemunhas, Nelson José da Silva, um dos fiscais mortos. Ele era conhecido por ser rigoroso e ter conduta ilibada.

    Norberto Mânica, o “suposto” mandante, continua solto. O advogado dele é o famoso Kakay. 

    2 – O mandante do assassinato da irmã Dorothy, no Pará, volta e meia tem nova audiência, novo julgamento, mas  está solto. O crime ocupou as mídias durante anos.

    3 – Podem pesquisar e verão que rico dificilmente vai preso por assassinato. Ou por qualquer outra razão.

    Concluindo: prisão no Brasil  é coisa para preto, pobre, puta, petista e alguns dos perseguidos pela Lava-Jato de Moro.

     

  9. Os policiais da PF do Paraná
    Os policiais da PF do Paraná foram em peso no julgamento.
    Achavam que isso faria pressão pela condenação. Trataram o caso de violência extrema, como uma causa quase institucional.

    Esperançosos, acreditavam que o país está mudando, afinal, realizam prisões de políticos, grandes empresários, etc, se vêem como pequenas engrenahens de um processo que “está mudando o país” através da lava jato… etc etc bla bla bla….

    Tsc tsc tsc, ledo engano.

    Meneghel é ruralista, usineiro, multimilionário, um coronel no deserto legal e ético que é a justiça no Brasil, e principalmente no Paraná.

    O mesmo deserto que gestou a operação fraudulenta, criminosa e seletiva, que confunde a cabeça dos policiais, e lhes traz esperança, pobres ingênuos….policiais.

    O Brasil mudou sim, pra pior!
    Os empresários e políticos presos, o foram pq se relacionaram com o partido proscrito, o partido dos pobres, e só por isso.
    A corrupção dos ricos e seus representantes, nunca será sequer investigada.

    Esses policiais esperançosos, ingênuos, oriundos das classes c, d e e, são os capitães do mato, os “Uncle Tom” do século XXI.

    Vão passar muita vergonha ainda

  10. + comentários

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