Cidade Mais Negra do Brasil. “Ó Quão Dessemelhante…”!

Minha cidade, orgulhosamente a maior cidade negra do mundo fora do continente africano, paradoxalmente transformou-se na maior vergonha do Brasil como a cidade mais racista do país.

Sinto morto o velho “orgulho de ser baiano”. Pois sendo “galego” (apesar de nenhuma ascendência da Galícia) não sei ser nem me sentir outra coisa senão baiano brasileiro. Não posso olhar meu mar sem enxergar Angola na outra margem e dentro de mim. Da minha ascendência européia pouco cuido e menos sinto. O que sinto é o que sou e o que sou vem da mistura de minha gente, com o perdão da imodéstia, mistura única no mundo.

Ou encaramos a verdade de frente, ou vamos continuar alimentando a hipocrisia que alimenta a chaga aberta no coração da Bahia que o Brasil não conhece e a própria Bahia finge que não vê. Numa Bahia cada vez mais dividida onde até o Recôncavo, berço de tudo o que somos, foi exilado de Salvador.

A maioria das grandes avenidas de Salvador – as que não se chamam Magalhães – têm nomes de grandes engenheiros, médicos, juristas todos negros ou mulatos baianos das décadas de 10 a 70.

Hoje não é possível contar nos dedos de uma única mão o número de negros tão destacados ou reverenciados assim, em áreas fora da música e, mesmo na música, os protagonistas sempre são reduzidos a coadjuvantes.

Numa conversa inesquecível enquanto passeava com o amado Profº Cid Teixeira, aos 90 anos à época, maior historiador da Bahia, ele me abriu os olhos: “filho, a mecânica mercantilizada sem controle do carnaval empurrou o negro para o tambor e ele foi e, hoje, só lhe resta o tambor, nem mesmo o carnaval lhe permite protagonismo algum…”. Sábias palavras de quem conhece a fundo a história do ontem, do hoje, do amanhã e do sempre da minha terra.

Será que ninguém se espanta no país inteiro com o fato de que na própria música ligada ao carnaval, anímicamente nascida e nutrida pelo nosso ventre negro, todas as musas (e musos) – sem nenhum demérito ao talento das nossas grandes artistas “morenas e galegas” – todas as musas são brancas, todas as musas da cidade 70% negra?

O sagrado Candomblé da Bahia, a fé mais bonita que conheço, e o elemento essencial de resistência, afirmação, independência e consistência cultural não só da raça negra mas de toda a raça baiana, brasileira, que é nossa humanidade, o Candomblé da Bahia vem sendo estuprado e maculado todos os dias.

A Bahia já foi diferente e destruída no seu mais belo por alguns, dentre outros, fatores essenciais:

I) A desqualificação da escola pública que criou contingentes escolares bem definidos entre escolas “européias” e “africanas”;

II) A mercantilização perversa do carnaval que já iniciou sua transformação em mercado (um mercado importante mas totalmente equivocado na modelagem das suas bases econômicas e normatização por parte do Poder Público) como  apartheid com as velhas fichas  de cadastro com foto dos grandes blocos que priorizavam as fotos “mais claras” e precisou ser derrubada a tapa pela lei e o esforço do vereador Javier Alfaya, mas cujos “princípios” recrudescem na “paulistização” maníaca dos grandes blocos (por favor, os paulistas estão usados aqui didaticamente representando os turistas do carnaval, mas não têm culpa nenhuma nessa  história!), sem falar na marginalização e “expulsão” dos blocos afro do circuito do dinheiro e da vergonha no confisco do espaço público segregado por cordas, mais uma vez paradoxalmente, carregadas pelos próprios explorados apartados;

III) Pelo preconceito religioso que já existia mas ganhou um impulso hecatômbico, virulento, odioso e brutal, no início principalmente, da maré evangélica;

IV) Pela imbecilidade generalizada que se recusa a rediscutir o carnaval e os outros temas, sendo o carnaval o mais factível de ser resolvido sem maiores prejuízos e satisfatoriamente no curto prazo potencializando, como sinalizador, outras evoluções pela gigantesca força simbólica e prática que o Carnaval tem por estas plagas para além do próprio Carnaval e do período momesco;

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V) Pela seletividade (esse já um mal nacional) conveniente no cumprimento das leis, leis como a Afonso Arinos. E a urgência da necessidade de passar e fazer cumprir as formas legais mais rígidas possíveis tanto contra ação e não menos contra o discurso “fóbico” de qualquer fobia seja homofobia, racismo, de gênero ou outra qualquer.

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Triste Bahia

Triste Bahia! Ó quão dessemelhante / Estás e estou do nosso antigo estado! /// Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado, / Rica te vi eu já, tu a mi abundante. /// A ti trocou-te a máquina mercante, / Que em tua larga barra tem entrado, / A mim foi-me trocando, e tem trocado, / Tanto negócio e tanto negociante. /// Deste em dar tanto açúcar excelente / Pelas drogas inúteis, que abelhuda / Simples aceitas do sagaz Brichote. / Oh se quisera Deus que de repente / Um dia amanheceras tão sisuda / Que fora de algodão o teu capote!Gregório de Mattos e Guerra (Bahia, Século XVII)

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É nossa obrigação imperativa reverter esse quadro. Para que, como na voz vigorosa de Magá (minha  rainha Margareth Menezes), possamos  trocar o desabafo pela celebração da raça, raça humana, raça brasileira.

E para além de tão somente celebrarmos “a alegria da cidade”.

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ALEGRIA DA CIDADE ♫ Lazzo Matumbi

A minha pele de ébano é… A minha alma nua ♪♪ Espalhando a luz do sol Espelhando a luz da lua ♪♪♪♪ Tem a plumagem da noite E a liberdade da rua ♪♪ Minha pele é linguagem E a leitura é toda sua ♪♪ Será que você não viu Não entendeu o meu toque ♪♪ No coração da América eu sou o jazz, sou o rock ♪♪♪♪ Eu sou parte de você, mesmo que você me negue ♪♪ Na beleza do afoxé, ou no balanço no reggae ♪♪ Eu sou o sol da Jamaica Sou a cor da Bahia ♪♪ Soul, sou você e você não sabia ♪♪♪♪ Liberdade Curuzu, Harlem, Palmares, Soweto ♪♪ Nosso céu é todo blue e o mundo é um grande gueto ♪♪♪♪ Apesar de tanto não Tanta dor que nos invade, ♪♪ somos nós a alegria da cidade ♪♪♪♪ Apesar de tanto não ♫ Tanta marginalidade, ♪♪ S o m o s   N ó s   a   A l e g r i a   d a   C i d a d e

Mas enquanto as algemas não se fizerem brilhar, nosso brilho como povo continuará esmaecendo.

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Hoje é quinta-feira e, portanto, dia de ser a favor das cotas raciais. Na sexta estarei contra. No fim-de-semana tentarei espairecer um pouco e não pensar nisso. Na segunda lutarei a favor. Na terça discursarei contra e assim por diante.

Foi meu grande amigo Jorge X quem me colocou nessa situação pendular única na minha vida em que não consigo consolidar uma opinião sobre um tema e que nem Martin Luther King Jr em pessoa conseguiria apaziguar meu pobre espírito em convulsões.

Ele assina, desde que o conheci até hoje, Jorge X. Em homenagem ao brilhante e guerreiro Malcolm. Dá para imaginar como ele é pouco veemente na defesa de suas idéias.

O conheci quando ele começou a trabalhar na nossa empresa, semianalfabeto, como mensageiro. Aprendi muito mais com ele, e continuo aprendendo, do que com a imensa maioria dos doutores que conheço. Hoje, inclusive, menos de oitos anos depois, ele é um deles. Ou, melhor, minto, não é um deles, é apenas Doutor.

Apesar de não poder ter a honra de me incluir entre eles, sempre tive uma profunda propensão por admirar a rebeldia e as grandes gentes que se dispõem a enfrentar nosso pequeno mundo. Desde que rebeldia não seja sinônimo de burrice. E normalmente não é.

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Normalmente é tão somente sinônimo de radicalismo etimológico.

Digo etimológico porque da raiz da palavra, neste caso, exatamente, especificamente de “raiz”.

Gente que não se conforma mais em ver tanta gente tão somente preocupada em podar árvores, capinar jardins, aplainar cascas.

Gente que sabe e insiste que é preciso cuidar das raízes.

Que é preciso cavar e cavucar fundo a terra para entender, conhecer, ver com os próprios olhos o que está acontecendo e curar ramificações afluentes e coifas, adubar onde preciso, revolver o anima humus e de lá do buraco escuro do fundo do mundo iluminar o fluxo de energias que vai fazer a beleza dos cimos visíveis da vida aparente florescer de verdade, em verdade dar frutos, verdadeiramente florir no melhor possível da energia vital plena de cada coisa, de cada todo, de todos e de cada um.

E Jorge X era um radical bruto. Jorge X, hoje, é um radical lapidado.

Valendo lembrar que todo diamante verdadeiro em nada deixa de ser diamante, em nada se dilapida quando se lapida.

Ao contrário, se torna brilhante. E mais vívido. Capaz de refletir mais. E refletir outras e mais luzes. Luminoso. E belo. Consistente. E valioso. Duradouro. E cortante.

Certa feita, logo no início da discussão sobre cotas, Jorge X me disse algo que eu nunca mais vou esquecer e que tento reproduzir aproximadamente a seguir:

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Gui. Por mais que você seja um baiano negão galego assumido, você não sente na pele a coisa mais feia que existe que é ser chibatado pelo canto de um olho. Não é mais dolorido mas é pior que a agressão frontal porque mantém o problema sorrateiro, disfarçado, sem solução. Talvez a coisa que eu mais queira das cotas, mais ainda do que as próprias cotas, é ver as pessoas terem que mostrar seu olhar. Você é contra as cotas e diz frontalmente e aguerridamente o por que. A gente vai seguir se estapeando vida afora. Mas vai ser briga de gente grande, à moda antiga, daquelas em que quando um cai no chão, em vez do chute que inaugura o linchamento, o outro grita: ‘levanta pra apanhar mais, pra apanhar feito ôme!’ Mas, finalmente, eu vou poder conhecer os porta-vozes da desfaçatez, que vão ter que defender publicamente sua hipocrisia ou, na pior das hipóteses, que não é tão pior assim, sairão derrotados e terão que nos dar as cotas… e não mais as costas…”

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A idéia central que as pessoas precisam começar a entender é que ninguém está pedindo favor nem pedindo para ser aceito.

Isso é, deve ser, a norma natural.

O resto é que anormalidade, aberração, a não aceitação do outro seja como for, homossexual, heterossexual, assexuado, negro, branco, roxo com bolinhas verdes, pessoas com uma perna menor que a outra, mais fina que outra, um cromossomo diferente (me recuso a usar a palavra deficiente por que isso todos somos de algum jeito), com mau hálito, verruga, tique nervoso etc.

Não é favor.

Favor fazemos todos em tolerar com nossa santa paciência esses discursos.

Acho que o texto de Sarte (mais forte ainda quando narrado por Abujamra) diz muito:

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“O que vocês esperavam que acontecesse quando tiraram a mordaça que tapava essas bocas negras? Esperavam que elas lhes lançassem louvores? E essas cabeças que seus avós e seus pais haviam dobrado à força até o chão? O que esperavam? Que se reerguessem com adoração nos olhos? Ei-los em pé. Homens que nos olham. Ei-los em pé. Faço votos para que vocês sintam como eu a comoção de ser visto. Hoje, esses homens pretos nos miram e nosso olhar reentra em nossos olhos. Tochas negras iluminam o mundo e nossas cabeças brancas não passam de pequenas luminárias balançadas pelo vento.” – JEAN-PAUL SARTRE (1905-1980)

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E para mim basta isso.

Uma humanidade inteira de pé.

E menos que isso não serve.

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Historicamente o povo misturado brasileiro foi convencido para si mesmo de ser sub-raça, inferior, segunda classe. Um padrão de raciocínio diabólico que contamina a todos. Cito aqui, enquanto espancamos Monteiro Lobato, um exemplo do poder dessa subautomistificação nas palavras de um brasileiro Gigante e um Gigante do abolicionismo, da diplomacia e da política, que ainda assim não livrou-se incólume da contaminação e chegou a desejar “aprimorar por vias ‘caucasianas’” sua própria raça superior e, sem saber, mostrou desdém por outra raça ainda. Ele não é em nada menor por isso. Mas que sirva de exemplo do poder da praga que ainda hoje nos viola:
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“…atraída pela franqueza de nossas instituições e pela liberdade de nosso regime, a imigração européia traga, sem cessar, para os trópicos uma corrente de sangue caucásico vivaz, enérgico e sadio, que possamos absorver sem perigo, em vez dessa onda chinesa, com que a grande propriedade aspira a viciar e corromper ainda mais a nossa raça” – JOAQUIM NABUCO (O Abolicionismo. 5. ed., Petrópolis, Vozes, 1988, p. 170).

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Durante mais de meio século de subserviência a este raciocínio, foi em parte o futebol e o carnaval que ajudaram a segurar um mínimo de autoestima nacional até que esta pudesse ser nutrida e, finalmente emergir (SOMENTE AGORA, E OLHE LÁ) e pudesse emergir para um patamar de autoestima mais elaborado e consistente que ainda estamos começando a experimentar.

E precisamos aproveitar vigorosa e urgentemente, antes que o espírito arrefeça e o diversionismo permita que se esqueça, o maior legado do Exmo. Sr. Presidente da República Luis Inácio Lula da Silva que, mais ainda que os tangíveis inumeráveis sucessos do seu governo, nos ofertou suas intangíveis vitórias crescentes e sucessivas contra toda sorte de preconceitos. Uma oportunidade e plataforma inéditas para impulsionar o grande salto da sociedade brasileira, para que nos respeitemos como Brasil, para que nos aceitemos e nos façamos todos iguais brasileiros.

Um conjunto de vitórias intangíveis sem precedentes em nossa história do passado. Vitórias que nos cabe tangibilizar, mantendo-nos atentos, alertas e mobilizados, fazendo acontecer o futuro da nossa história, digno da grandeza humana da mistura de gentes na gente única que somos.

Mas enquanto as algemas não se fizerem brilhar, nosso brilho como povo continuará esmaecendo.

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Axé
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Nég mawon pap jamn krase
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umuntu ngumuntu ngabantu
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We Are The World. We Have The Mouses.
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¡Hasta La Vitoria Siempre!
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Viva o Brasil! Viva Nós!
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“Eu, da Raça dos Descobridores, não aceito menos do que seja descobrir um Novo Mundo”
[Álvaro ‘Fernando Pessoa’ de Campos]

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