Feminicídio: caso Beatriz Milano completa um ano e aguarda por Júri Popular

'Eu sou branco, sou médico, a polícia nunca vai me prender', disse Fernando Veríssimo, namorado e réu no inquérito sobre a morte da jovem que estava grávida de cinco meses

Foto: Beatriz Milano/Arquivo pessoal

Jornal GGN – Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, entre 2017 e 2018, foram registrados 2.357 feminicídios no país, o que significa uma vítima morta por ser mulher a cada oito horas. Beatriz Nuala Soares Milano se tornou parte dessa triste estatística, aos 27 anos, no dia 23 de novembro de 2018.

O laudo divulgado pela Polícia Civil, 15 dias após sua morte, concluiu que Beatriz morreu de traumatismo craniano, a partir de pancadas que sofreu. A única pessoa que esteve com ela no momento de sua morte era o namorado e médico Fernando Veríssimo Carvalho.

Beatriz estava grávida de 5 meses e a noite do seu falecimento completava exatamente 11 meses da data em que conheceu Fernando. Os dois moravam no litoral paulista – ela em Praia Grande e ele em São Vicente. O relacionamento chegou a ser interrompido por causa do comportamento de Fernando.

“Eles terminaram antes de ela saber da bebê, justamente porque ela considerava ele um cara ciumento, possessivo”, conta a artista visual Bárbara Milano, irmã de Beatriz.

“Eu sei que eles tiveram uma discussão muito séria nesse término e aí, depois, ela soube da criança e ficou nessa dúvida: ‘Conto ou não conto da gravidez?'”, relembra Bárbara. Até que Beatriz, junto com a família, considerou que Fernando deveria saber da gravidez.

“Ela decide contar em um restaurante, num lugar público, exatamente por temer a reação dele”, pontua a madrinha de Beatriz, Cilene Marcondes. “Ao saber da novidade, ele não agiu agressivamente. Mas depois teve alguns comportamentos ruins, questionando como poderia saber se o filho era dele”, relembra.

Em agosto de 2018, Beatriz se mudou para Rondonópolis, no Mato Grosso, para assumir o cargo de gerente de qualidade, como promoção na empresa onde trabalhava.

Cilene conta que a afilhada foi para outro estado separada de Fernando, mas o médico buscou reatar o relacionamento. Em setembro, ele chegou a visitá-la para acompanhar o pré-natal.

“A partir dali começaram a se reaproximar. Ele pediu perdão e disse que a vida dele era a Bia e a bebê”, conta a madrinha. Em novembro, cerca de uma semana antes da morte de Beatriz, Fernando se mudou para a casa que ela havia alugado. “Ele dizia que dava alguns plantões enquanto ‘cuidava’ da alimentação da Bia.

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Apesar de a perícia ter constatado que Beatriz morreu na noite do dia 23 de novembro, Fernando acionou o SAMU (Serviço de Atendimento Médico de Urgência) apenas na manhã de 24 de novembro para socorrer a namorada grávida.

Ele conta que demorou horas para perceber que Beatriz não estava com vida, isso porque tinha passado a noite e a madrugada bebendo na sala, enquanto a namorada dormia no quarto.

Na noite do crime, Fernando levou Beatriz para um jantar, onde a pediu em casamento. Ao chegarem em casa, em uma primeira versão à polícia, o médico disse que os dois discutiram. Ele empurrou Beatriz que acabou batendo a cabeça. Depois da briga, ela foi dormir, enquanto ele ficou bebendo até adormecer no sofá. Num segundo depoimento, Fernando negou essa versão, dizendo que foi ideia dos primeiros advogados e que não teve empurrão. Ao longo do processo, ele mudou de defensores.

O primeiro laudo do IML (Instituto Médico Legal) não identificou o golpe na cabeça de Beatriz. Foi um exame mais detalhado da perícia que concluiu que a morte não foi natural.

Antes do resultado pericial, Fernando disse para a família achar que Bia havia sofrido um aneurisma.

“Após a morte de Bia, ele agiu com frieza e indiferença”, conta Bárbara, que foi a primeira pessoa da família a ser comunicada por Fernando sobre a morte da irmã. “Alguns dias depois da morte da Bia, ele, inclusive, ligou para a empresa onde ela trabalhava para saber se tinha direito sobre o seguro de vida dela”, relembra.

“Se a pessoa que eu amo morre ao meu lado, no quarto, grávida do meu filho e, eu, sendo médico, não tivesse feito nada, estaria tendo uma crise de culpa. ‘Como passei a noite bebendo? Ela poderia ter me chamado, precisado de mim!’ Mas não vimos nenhum traço dessa preocupação nele”, completa Cilene.

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“Apesar de a gente não sentir uma completa confiança no sujeito, não imaginávamos que a coisa pudesse extravasar para esse tipo de violência”, reflete Bárbara, sem esconder um sentimento de culpa, que ela nem a família deveriam carregar pela tragédia.

“O que era um pouco mais acessível para nós era a ideia de que ele [Fernando] era uma pessoa bastante articulada verbalmente, que poderia criar essas pequenas violências psicológicas”, pondera.

‘Sou branco e médico, a polícia nunca vai me prender’

Fernando está preso desde o dia 19 de dezembro do ano passado, devido a um mandado de prisão preventiva contra ele expedida da vara especializada de violência doméstica. O caso está sendo acompanhado pelo Ministério Público Estadual de Mato Grosso (MPE-MT) e Fernando aguarda pela constituição do Júri Popular que fará o julgamento do caso.

Apesar de ter se passado um ano desde o crime, a família Soares Milano não reclama do tempo de espera na Justiça.

“Quanto ao prazo, embora um ano, em termos de Justiça brasileira estamos satisfeitos como as coisas estão ocorrendo, porque não têm queimado etapas, existe o direito à ampla defesa, ao contraditório, nada está sendo arbitrário”, diz o pai de Beatriz, o advogado Celso Rogério Milano.

“Nós esperamos que pelo menos a justiça dos homens seja feita não só para que ele [Fernando] seja condenado, mas para que tenha uma pena amplamente veiculada e que sirva de exemplo, de paradigma. Porque, olhando as notícias, nos principais jornais, sites e veículos informativos, a gente vê até hoje a mesma espécie de brutalidade e violência acontecendo todos os dias”, completa.

“As pessoas, quando falam em violência contra a mulher, sempre imaginam mulheres espancadas, mas não é bem assim”, destaca Bárbara. “Um dia você leva um apertão no braço que deixa uma marquinha, mas nem tão grande, outro dia você leva um puxão de cabelo, e não sabe muito como lidar, porque nenhuma dessas coisas são suficientes para você sair dizendo que o cara é um agressor”, pontua.

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Perguntamos para a família como gostaria que Beatriz ficasse registrada. “A Bia era uma mulher muito forte, que fez faculdade de veterinária com cotas, tinha uma consciência social incrível, extremamente amorosa, extremamente apegada à família, completamente vinculada à mãe dela. Era cheia de planos, feliz, segura e independente”, afirma a madrinha.

“Aos 27 anos [a Bia] estava em ótima ascensão profissional. Apesar de tão jovem, exercia suas responsabilidades profissionais e chefiava pessoas de forma ética e humana. Amava o que fazia e sempre falava que o alimento era a base para uma boa qualidade de vida”, conta a irmã.

“Diante do imenso vazio pela sua ausência e de sua bebê, nos perguntamos: – quais são os valores morais e éticos que enquanto sociedade cultivamos para a vida?”, conclui.

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, também aponta que, entre 2017 e 2018, o país registrou alta de 4% nos casos de feminicídio, enquanto, no mesmo período, houve queda de 10% no número de homicídios.

Outro levantamento feito pelo Ministério da Saúde, e divulgado neste ano, revela que, a cada quatro minutos, pelo menos um caso de agressão é cometida por homens contra mulheres.

O feminicídio é um termo cunhado para denominar o assassinato de mulheres cometidos em razão de gênero. No Brasil, a Lei de Feminicídio, que trata diretamente de mulheres assassinadas, foi criada em 2015. Desde então, o país vem registrando o aumento de casos, chegando a 62,7% a alta em relação a 2015.

Em uma entrevista concedida ao UOL, em dezembro de 2018, Bárbara relembrou uma frase dita por Fernando que a chocou. Estavam ela, a irmã e o namorado: “Passou uma viatura e ele disse: ‘Eu sou branco, sou médico, a polícia nunca vai me prender'”.

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2 comentários

  1. A Bipolaridade é o traço mais visível da mediocridade de caráter das Elites que foram criadas nestas 9 décadas. A canalhice é outra, também muito evidente. Quer dizer que Páginas Policias interessam e são divulgadas, quando se pode usar o cadáver como Palanque Político? Médico, branco mas o imprescindível : RICO. Dinheiro compra muito, no Estado onde leis e caráter tem preço. E vai mais um empurrando seu Julgamento rumo à prescrição baseado em ‘Transitado e Julgado’. É ultrajante e bisonho quando o CRIME nos atinge, não é mesmo? 90 anos de Estado Ditatorial Absolutista Caudilhista Assassino Esquerdopata Fascista e sua Indústria da Bandidolatria. Não adianta exigir punições para alguns e condenar as Leis, quando atingem a outros. Mas explica brilhantemente como são os interesses, atos e opiniões neste pobre país rico. Mas de muito fácil explicação.

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