História do Golpe: Para entender o xadrez da política, por Luis Nassif

Publicado em 11/12/2012

Vamos entender o xadrez político atual.

Há um jogo em que o objetivo maior é capturar o rei – a Presidência da República. O ponto central da estratégia consiste em destruir a principal peça do xadrez adversário: o mito Lula.

Na fase inicial – quando explodiu o “mensalão” – havia um arco restrito e confuso, formado pela velha mídia e pelo PSDB e uma estratégia difusa, que consistia em “sangrar” o adversário e aguardar os resultados nas eleições presidenciais seguintes.

A tática falhou em 2006 e 2010, apesar da ficha falsa de Dilma, do consultor respeitado que havia acabado de sair da cadeia, dos 200 mil dólares em um envelope gigante entrando no Palácio do Planalto, das FARCs invadindo o Brasil  e todo aquele arsenal utilizado nas duas eleições.

A partir da saída de Lula da presidência, tentou-se uma segunda tática: a de construir um mito anti-Lula. À falta de candidatos, apostou-se em Dilma Rousseff, com seu perfil de classe média intelectualizada, preocupações de gestora, discrição etc. Imaginava-se que caísse no canto de sereia em que se jogaram tantas criaturas contra o criador.

Não colou. Dilma é dotada de uma lealdade pessoal acima de qualquer tentação.

O “republicanismo”

Mas as campanhas sistemáticas de denúncias acabaram sendo bem sucedidas por linhas tortas. Primeiro, ao moldar uma opinião pública midiática ferozmente anti-Lula.

Depois, por ter incutido no governo um senso de republicanismo que o fez abrir mão até de instrumentos legítimos de autodefesa. Descuidou-se na nomeação de Ministros do STF (Supremo Tribunal Federal), abriu-se mão da indicação do Procurador Geral da República (PGR) e descentralizaram-se as ações da Polícia Federal.

Qualquer ação contra o governo passou a ser interpretada como sinal de republicanismo; qualquer ação contra a oposição, sinal de aparelhamento do Estado.

Caindo nesse canto de sereia, o governo permitiu o desenvolvimento de três novos protagonistas no jogo de “captura o rei”.

STF

Gradativamente, formou-se uma bancada pró-crise institucional, composta por Gilmar Mendes, Joaquim Barbosa, e  Luiz Fux, à qual aderiram Celso de Mello e Marco Aurélio de Mello. Há um Ministro que milita do lado do PT, José Antonio Toffolli. E três legalistas: Lewandowski, Carmen Lucia e Rosa Weber.

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O capítulo mais importante, nesse trabalho pró-crise, é o da criação de um confronto com o Congresso, que não terá resultados imediatos mas ajudará a alimentar a escandalização e o processo reiterado de deslegitimação da política.

Para o lugar de César Peluso, apostou-se em um ministro legalista, Teori Zavascki. Na sabatina no Senado, Teori defendeu que a prerrogativa de cassar parlamentares era do Parlamento. Ontem, eximiu-se de votar. Não se tratava de matéria ligada ao “mensalão”, mas de um tema constitucional. Mesmo assim, não quis entrar na fogueira.

Procuradoria Geral da República (PGR)

Há claramente um movimento de alimentar a mídia com vazamentos de inquéritos. O último foi esse do Marcos Valério ao Ministério Público Federal.

Sem direito à delação premiada, não haveria nenhum interesse de vazamento da parte de Valério e seu advogado. Todos os sinais apontam para a PGR. Nem a PGR nem Ministros do STF haviam aceitado o depoimento, por não verem valor nele. No entanto, permitiu-se o vazamento para posterior escandalização pela mídia.

Gurgel é o mais político dos Procuradores Gerais da história recente do país. A maneira como conquistou o apoio de Demóstenes Torres à sua indicação, as manobras no Senado, para evitar a indicação de um crítico ao Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), revelam um político habilidosíssimo, conhecedor dos meandros do poder em Brasília. E que tem uma noção do exercício do poder muito mais elaborada que a do Ministro da Justiça e da própria Presidente da República. Um craque!

Polícia Federal em São Paulo

Movimento semelhante. Vazam-se os e-mails particulares da secretária Rosemary Noronha. Mas mantém-se a sete chaves o relatório da Operação Castelo de Areia.

O jogo político

De 2005 para cá, muita água rolou. Inicialmente havia uma aliança mídia-PSDB. Agora, como se observa, um arco  mais amplo, com Ministros do STF, PGR e setores da PF. E muito bem articulado agora porque, pela primeira vez, a mídia acertou na veia. A vantagem de quem tem muito poder, aliás, é essa: pode se dar ao luxo de errar muitas vezes, até acertar o caminho.

Daqui para frente, o jogo está dado: um processo interminável de auto-alimentação de denúncias. Vaza-se um inquérito aqui, monta-se o show midiático, que leva a desdobramentos, a novos vazamentos, em uma cadeia interminável.

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Essa estratégia poderia ter uma saída constitucional: mais uma vez “sangrar” e esperar as próximas eleições.

Dificilmente será bem sucedida no campo eleitoral. Mas, com ela, tenta-se abortar dois movimentos positivos do governo para 2014:

  1. É questão de tempo para as medidas econômicas adotadas nos últimos meses surtirem efeito. Hoje em dia, há certo mal-estar localizado por parte de grupos que tiveram suas margens afetadas pelas últimas medidas. Até 2014 haverá tempo de sobra para a economia se recuperar e esse mal-estar se diluir. Jogar contra a economia é uma faca de dois gumes: pode-se atrasar a recuperação mas pratica-se a política do “quanto pior melhor” que marcou pesadamente o PT do início dos anos 90. Em 2014, com um mínimo de recuperação da economia,  o governo Dilma estará montado em uma soma de realizações: os resultados do Brasil Sorridente, resultados palpáveis do PAC, os efeitos da nova política econômica, os avanços nas formas de gestão. Terá o que mostrar para os mais pobres e para os mais ricos.
  2. No campo político, a ampliação do arco de alianças do governo Dilma.

Há pouca fé na viabilidade da candidatura Aécio, principalmente se a economia reagir aos estímulos da política econômica. Além disso, a base da pirâmide já se mostrou pouco influenciada pelas campanhas midiáticas.

À medida que essa estratégia de desgaste se mostrar pouco eficaz no campo eleitoral, se sairá desses movimentos de aquecimento para o da luta aberta.

Próximos passos

Aí se entra em um campo delicado, o do confronto.

Ao mesmo tempo em que se fragilizou no campo jurídico, o “republicanismo” de Lula e Dilma minimizou o principal discurso legitimador de golpes: a tese do “contragolpe”. Na Argentina, massas de classe média estão mobilizadas contra Cristina Kirchner devido à imagem de “autoritária” que se pegou nela.

No Brasil, apesar de todos os esforços da mídia, a tese não pegou. Principalmente devido ao fato de que, quando o STF achou que tinha capturado o PT, já havia um novo em campo – de Dilma Rousseff, Fernando Haddad, Padilha – sem o viés aparelhista do PT original. E Dilma tem se revelado uma legalista até a raiz dos cabelos e o limite da prudência.

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Aparentemente, não irá abrir mão do “republicanismo”, mas, de agora em diante, devidamente mitigado. E ela tem um conjunto de instrumentos à mão.

Por exemplo, dificilmente será indicado para a PGR alguém ligado ao grupo de Roberto Gurgel.

Espera-se que, nas próximas substituições do STF, busquem-se juristas com compromissos firmados e história de vida em defesa da democracia – e com notório saber, peloamordeDeus. De qualquer modo, o núcleo duro do STF ainda tem muitos anos de mandato pela frente.

Muito provavelmente, baixada a poeira, se providenciará um Ministro da Justiça mais dinâmico, com mais ascendência sobre a PF.

Do outro lado do tabuleiro, se aproveitará os efeitos do pibinho para iniciar o processo de desconstrução de Dilma.

Mas o próximo capítulo será o do confronto, que  ocorrerá quando toda essa teia que está sendo tecida chegar em Lula. E Lula facilitou o trabalho com esse inacreditável episódio Rosemary Noronha.

Esse momento exigirá bons estrategistas do lado do governo: como reagir, sem alimentar a tese do contragolpe. E exigirá também um material escasso no jogo político-midiático atual: moderadores, mediadores, na mídia, no Judiciário, no Congresso e no Executivo, que impeçam que se jogue mais gasolina na fogueira.

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7 comentários

  1. Jogo de cartas marcadas
    Lula
    Jogo de cartas marcadas

    Lula e seu partido estão sendo caçados como se fosse um ditador sanguinário, será que ele exterminou milhões de Judeus no holocausto…parece….me lembro da época da caçada dos EUA a Sadam e o seu Partido, o Baath: todos os dias o JN e demais meios de comunicação, em uníssono, exibia cartas de baralho em que Sadam eram o Rei a ser expelido…e depois vinha as demais peças: uma a uma, tais cartas foram sendo eliminadas: o mesmo modus operandi é exibido todos os dias pelo mesmo JN, a Rainha – Dilma – acabou de virar alvo no jogo….

    E ainda somos obrigados a ouvir análises furadas como as de Luana Piovani sobre seu desejo de se mudar para Portugal, governado pelo PT

    Deixei este recadinho para ela

    https://www.youtube.com/watch?time_continue=295&v=odHr5XuBsZo

    Com exceção de poucos artistas, como por exemplo Pedro Cardoso, que sabe como funciona a engrenagem social, na maioria dos artistas, em Luana Piovani por exemplo, o déficit cognitivo e a falta de conhecimento são flagrantes..,……não sabem o que é luta de classes, imperialismo, não sabem nem mesmo o bê a bá da nossa história e por isso fazem análises equivocadas como esta…. pois se soubessem como funciona a engrenagem social, o que há por trás das estruturas dominantes de um pais de DNA escravista e colonial como o Brasil, ela diria que daqui a 20 anos, a manter o regime que ai está e, claro que será mantido – pois essa gangue não deu golpe para soltar a rapadura tão cedo – o nosso pais estará o caos total daqui a 20 anos…havia sim um projeto que estava em andamento, o Brasil caminhando para ser um grande pais de classe media, como é Portugal, pais governado pelo….PT….tomara que os portugueses liguem o desconfiômetro: quanto mais brasileiros por lá, mais risco de o pais, de governo de esquerda, sofrer um golpe atiçado pelos patos e patas de Pindorama….

  2. Tinha esquecido que 1 dia Toffoli esteve do lado do PT

    Tomara que o marqueteiro do PT lembre das críticas da direita contra o Ayers Brito, Toffoli e cia por terem se associado ao PT antes do STF e mostre o Alexandre de Moraes, filiado ao PSDB e que ocupava cargo político até ser nomeado. E pergunte por que agiram pior? E criticaram menos?

    O PT tem exemplos reais provando que foi o partido + republicano pra propaganda partidária. E lembrar que mesmo sendo contra a prisão do Dirceu, nunca fez E NEM FARÁ nada ilegal como o Cunha (impeachment p/ vingar-se dos dep. do PT) e Moro (divulgar grampo da presidente em lugar do STF). Se reconhecer seus erros e corrigi-los ele pode eleger vários políticos.

  3. A arte de parecer invisível

    Ué, e as firmas privadas de comunicação em massa? Lendo esse xadrez fiquei até com um pouquinho de dó dessas empresas, coitadas. Foram vítimas da maldade da procuradoria, que a alimentou com vazamentos mentirosos e abusou da sua ingênua ânsia pelo furo de reportagem. Como se essas firmas não pautassem, além do horário dos jogos de futebol, a própria procuradoria, o magistrado federal da 1a. à última instâncias…

    Sei lá… fiquei sentindo falta da peça “firmas privadas às quais o estado concede o direito de ganhar dinheiro vendendo comunicação em massa”.

    (Lembrei aogora de um desses patos-da-fiesp dizendo numa entrevista que era bobagem esse negócio de achar que a mídia o manipulava. “Nem ler jornal eu leio”, argumentou. E quando o entrevistador perguntou de onde é que ele tirava a ideia de que o PT era, não um partido mas sim uma facção criminos, o “coxa” respondeu:

    – “E precisa ler jornal para saber isso?! Ora, isso todo mundo sabe.”

    Acho que aquelas firmas precisariam parar de abusar da demência que leva a pessoa a achar que sabe de tudo, a se recusar a admitir que tudo o que sabe vem de algum lugar externo a ela, a insistir em que seus saberes vêm “de dentro”. E as pessoas bem que podiam criticar um pouco a imprensa, né?)

  4. Só a revolução
    Não tem jeito.
    Quando todas as instituições do Estado estão apodrecidas só resta derruba-las, substituindo todos seus membros por gente limpa e decente.
    E por que todos?
    Porque o grau de promiscuidade e escárnio ao interesse público desses agentes chegou a tal nível que se tornou impossível separar o joio e o trigo mofado, do pouco trigo prestável.
    Joga tudo fora, limpa o silo e seleciona melhor.
    Por isso, o expurgo no serviço público deve vir acompanhado de medidas realmente saneadoras, como uma política de concurso público que realmente selecione pessoas compromissadas com o interesse público, conscientes da diversidade nacional e, acima de tudo, nacionalistas.

    • Não fale asneiras, o STF sempre foi canalha.

      Não fale asneiras, o STF sempre foi canalha. Quem quer que Lula e Dilma escolhesse para indicar ao STF iria se vender. O judiciário e o MP estão completamente podres e sempre foram assim neste país escravagista.

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