O Ser Supremo ficou nu, eis o corpo de sua majestade o bebê, por Fábio de Oliveira Ribeiro

'Januário Paludo não está acima da Lei, nem pode ser colocado abaixo dela. Ao inocentá-lo preventivamente, seus colegas agem como crianças'

Procurador da Lava Jato de Curitiba, Deltan Dellagnol. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Por Fábio de Oliveira Ribeiro

O escândalo envolvendo o procurador Januário Paludo, acusado de receber propina pelo doleiro Dario Messer, provocou uma reação interessante dos membros da Lava Jato. Eles saíram imediatamente em defesa do colega. Ninguém, nem mesmo o terrível Robespierre curitibano (refiro-me obviamente a Deltan Dellagnol) cogitou em pedir a prisão preventiva do colega para obrigá-lo a fazer uma delação premiada ou, no mínimo, para impedi-lo de dificultar as investigações que se tornaram indispensáveis.

A verdadeira lógica do Ser Supremo finalmente foi colocada em xeque https://jornalggn.com.br/artigos/de-operacao-policial-a-ser-supremo-nacional-uma-radiografia-da-lava-jato/. O método lavajateiro só se aplica aos outros, aos petistas. Somente eles devem ser considerados impuros. Os puros, ou seja, os membros do grupo do Robespierre curitibano, não podem ser ameaçados ou decapitados. Eles estão acima de qualquer suspeita e/ou não podem responder pelos seus atos.

Januário Paludo não está acima da Lei, nem pode ser colocado abaixo dela. Suspeito, ele deve ser investigado com o rigor necessário, observando-se todos os princípios do devido processo legal. Ao inocentá-lo preventivamente, seus colegas agem como crianças movidas pelo nojo, cujo elemento fundamental é:

“…a divisão do mundo em ‘puros’ e impuros’ – a construção de um ‘nós’ que não tem nenhum defeito e um ‘eles’ que são sórdidos, maus e contaminadores. Muitas opiniões ofensivas relativas à política internacional [e nacional também, devemos acrescentar] revelam traços dessa patologia, quando as pessoas demonstram estar prontamente inclinadas a pensar que um grupo de pessoas diferentes é ameaçador e suspeito, enquanto elas próprias se encontra do lado dos anjos. Percebemos hoje que essa tendência humana profundamente estranha é alimentada por meio de métodos consagrados de contar histórias para as crianças, que sugerem que o mundo ficará em ordem quando alguma bruxa ou monstro feio e repugnante for morto, ou pelo menos for cozinhado em seu próprio fogão.” (Sem fins lucrativos – Por que a democracia precisa de humanidades, Martha Nussbaum, editora Martins Fontes, São Paulo, 2015, p. 35)

A reação à acusação feita por Dario Messer é paradoxal e reveladora. Ela provou que os membros da Lava Jato são imunes ao corporativismo. O leitor provavelmente deve ter estranhado essa afirmação. Portanto, terei que ser didático.

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O espírito de corpo se caracteriza pela valorização da instituição a que a pessoa pertence. Sua defesa intransigente é que garante a autoridade e as prerrogativas desfrutadas pelos seus membros. Quando um ou mais procuradores se dispõe a sacrificar o MPF para garantir a impunidade de um colega suspeito a ação deles não é corporativista e sim infantil e narcisista.

É notável a distinção feita pelos defensores de Januário Paludo. Se Dario Messer tivesse dito que pagou propina a qualquer líder petista, a acusação seria imediatamente investigada e a credibilidade dele não seria questionada. Mas como a suspeita recaiu sobre um procurador, seus colegas reagem de maneira infantil transformando o suspeito imediatamente em alguém impuro. Isso coloca em dúvida não só o método lavajateiro como a maturidade dos membros da operação Lava Jato, pois os mitos de pureza:

“…são enganadores e perniciosos. Nenhuma sociedade [ou gangue de procuradores] é ‘pura’, e o ‘choque de civilização’ existe no interior de cada sociedade [e até mesmo dentro do MPF]. Toda sociedade traz em si pessoas que estão preparadas para conviver com os outros em termos de respeito mútuo e de reciprocidade e pessoas que buscam o conforto da dominação. Precisamos compreender como produzir mais cidadãos do primeiro tipo e menos do segundo.” (Sem fins lucrativos – Por que a democracia precisa de humanidades, Martha Nussbaum, editora Martins Fontes, São Paulo, 2015, p. 35)

O MPF deveria tratar todos os cidadãos de maneira igual. Mas os membros da operação Lava Jato agem como se eles tivessem o poder/dever de destruir apenas as pessoas que eles consideram nojentas (os políticos, em especial os políticos petistas). Isso explica porque as suspeitas que recaíram sobre Januário Paludo são incapazes de provocar nojo em seus colegas. Eles preferiram projetar o nojo na pessoa que fez a acusação. Eles farão tudo para destruir Dario Messer porque ele destruiu a beleza imaculada do sistema de projeção. A reação deles confirma as palavras da grande pedagoga norte-americana:

“O nojo projetivo é sempre um sentimento suspeito porque implica o nojo de si e seu deslocamento para outro grupo que, na verdade, nada mais é que um conjunto de seres humanos de carne e osso como aqueles que fazem a projeção, só que socialmente mais impotentes. Dessa forma, o desejo original da criança narcisista de transformar os pais em escravos se realiza – por meio da criação de uma hierarquia social. Essa dinâmica representa uma ameaça permanente à igualdade democrática.” (Sem fins lucrativos – Por que a democracia precisa de humanidades, Martha Nussbaum, editora Martins Fontes, São Paulo, 2015, p. 33)

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A igualdade democrática começou a ser destruída no exato momento em que a operação Lava Jato foi transformada num Ser Supremo. Agora, a reação narcisista e infantil dos procuradores lavajateiros à acusação feita por Dario Messer coloca em risco a própria essência do MPF. A defesa intransigente de Januário Paludo vai hierarquizar a sociedade brasileira fazendo uma distinção clara entre aqueles que podem se corromper e ficar impunes (e imunes à qualquer investigação) e aqueles que serão perseguidos em virtude de expor as entranhas de uma operação que pode ter ultrapassado todos os limites da legalidade, da razoabilidade e, eventualmente, da honestidade.

A empatia dos procuradores lavajateiros por Januário Paludo é comovente, mas também é um indício claro de que existe algo errado no MPF que merece mais atenção tanto da sociedade brasileira quanto dos membros daquela instituição. Uma distinção absoluta e ilegal entre os membros da Lava Jato (considerados inimputáveis por eles mesmos) e os demais cidadãos (sujeitos à imputação, mesmo que de maneira fraudulenta como ocorreu com Lula) confirma outro aspecto notável mencionado Martha Nussbaum:

“Quando determinado subgrupo social é identificado como vergonhoso e nojento, seus membros parecem inferiores aos membros dominantes, aém de muito diferentes deles: primitivos, fedorentos, contaminados e contaminantes. Torna-se fácil, portanto, excluí-los da compaixão, e fica difícil enxergar o mundo de seu ponto de vista. Pessoas brancas que sentem muita piedade de outras pessoas brancas são capazes de tratar pessoas negras como animais ou objetos, recusando-se a enxergar o mundo da perspectiva delas. Os homens muitas vezes tratam as mulheres desse modo, enquanto sentem compaixão por outros homens. Resumindo, cultivar a compaixão não é, por si só, suficiente para superar as forças da escravização e da subordinação, uma vez que a própria compaixão pode se tornar uma aliada do nojo e da vergonha, fortalecendo a solidariedade entre as elites e distanciando-as ainda mais dos subordinados.” (Sem fins lucrativos – Por que a democracia precisa de humanidades, Martha Nussbaum, editora Martins Fontes, São Paulo, 2015, p. 39)

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As vítimas da Lava Jato são muitas, políticos acusados, condenados e presos de maneira injusta; operários que perderam seus empregos em virtude da destruição das empresas; cidadãos em situação social de fragilidade que perderam seus direitos em virtude de Sérgio Moro e Deltan Dellagnol terem interferido no processo democrático para ajudar a derrubar Dilma Rousseff e a eleger Jair Bolsonaro. Esse Ser Supremo precisa ser destruído, caso contrário o próprio MPF afundará num mar de lama e corrupção se tornando incapaz de cumprir suas relevantes funções institucionais.

Ninguém deve ficar fora do alcance da Lei. Nenhum cidadão ou servidor público deve se colocar além dos seus limites. Se existe algo que a Lava Jato conseguiu provar foi que:

“… as pessoas se comportam mal quando os seres humanos sobre os quais elas exercem poder foram destituídos de humanidade e de sua individualidade. Numa ampla gama de situações, as pessoas apresentam um comportamento muito pior quando o ‘outro’ é apresentado como um animal…” (Sem fins lucrativos – Por que a democracia precisa de humanidades, Martha Nussbaum, editora Martins Fontes, São Paulo, 2015, p. 44)

Januário Paludo certamente não é um animal. Mas ele não pode ser tratado como se fosse uma divindade imaculada incorruptível. Ao purificar preventivamente seu comportamento, ao tentar impedir qualquer investigação acerca da grave acusação feita por Dario Messer, os membros da Lava Jato demonstram um narcisismo infantil incompatível com os cargos que exercem.

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