Por que criminalizar luta social é apoiar ditadura

“Interseção ideológica entre o pensamento de Dallagnol e o dos artífices do regime militar é preocupante”, afirma jurista 

 
Jornal GGN – No artigo a seguir, a mestre em processo penal pela PUC-SP, Giane Álvares faz uma análise da propagação dos discursos que minimizam os efeitos negativos da ditadura civil-militar no Brasil, avançando sobre ponderações realizadas pelo membro do Ministério Público Federal e coordenador da Operação Lava Jato, Deltan Dallagnol, de que “a ditadura foi ruim porque incutiu em alguns a ‘inconsequente’ convicção da defesa de direitos”. Assim, Giane critica a visão limitada do procurador quanto ao verdadeiro lado perverso daqueles anos como a violência, tortura, a prisão ilegal e a censura.  
 
Justificando
 
Criminalização dos movimentos sociais revive a ditadura
 
Por Giane Ambrósio Álvares
 
É espantosa a disseminação na sociedade de discursos perversos que procuram minimizar ou ignorar as atrocidades praticadas durante a ditadura civil-militar. Nunca é demais repetir: foi por obra do autoritarismo e da selvageria de agentes do Estado brasileiro contra opositores políticos que no período entre 1964-1985 se registrou na história do país um saldo de aproximadamente 50 mil pessoas presas, 20 mil torturados e algo em torno de 400 mortos e desaparecidos.
 
O Brasil não lida bem com sua memória histórica e a tragédia representada por esses números não tem sido, ainda nos dias de hoje, motivo de preocupação para muitos agentes do Estado.
 
“Em razão da ditadura no Brasil, uma parte dos criminalistas rejeita qualquer sombra de redução dos direitos de defesa”, teria afirmado o procurador Deltan Dallagnol, numa palestra proferida recentemente na Casa do Saber, em São Paulo.
 
A frase teria sido dita no contexto em que o membro do Ministério Público Federal e coordenador da Operação Lava Jato apresentava para a plateia suas preocupações com a impunidade do Estado brasileiro e com a existência de uma excessiva proteção legal aos réus em procedimentos criminais.
 
A frase revela miséria intelectual e desprezo pela história do país e pelo direito. Para Dallagnol, a ditadura foi ruim porque incutiu em alguns a “inconsequente” convicção da defesa de direitos. Assim, algumas das chagas provocadas pelo golpe militar de 1964, como a tortura, o banimento, a violência, a prisão ilegal e a censura, em nada o sensibilizam. Ignora que parte da base legal que fundamentou o golpe de 1964 ainda está em vigor, apesar da incompatibilidade com Constituição da República de 1988.
 
A queixa de Deltan Dallagnol é, em síntese, a própria justificativa dada pelos verdugos para operar o golpe contra o governo legítimo de João Goulart. Foi justamente o medo provocado pelo avanço dos direitos de cidadania almejado por uma plataforma progressista de governo que fez com que o Brasil vivesse o terror de uma ditadura.
 
Neste ponto, a interseção ideológica entre o pensamento de Dallagnol e o dos artífices do regime militar é sintomática e preocupante.
 
***
 
Conforme dados divulgados pelo Ministério da Justiça no início do ano, a população carcerária no Brasil atinge atualmente a exorbitante cifra de 600 mil presos. Esse número coloca o país no quarto lugar no ranking mundial de encarceramento e deveria ser suficiente para desconstruir o argumento falacioso de império da impunidade e sobre a necessidade de relativizar ainda mais os direitos fundamentais dos acusados. O sistema penal tem sido muito eficiente contra seu público preferencial, constituído de jovens negros e pobres.
 
No entanto, ainda que se possa observar que atualmente a seletividade aponta sua mira para uma parcela da classe política, historicamente ela também é direcionada aos integrantes dos movimentos sociais.
 
De acordo com dados da Comissão Pastoral da Terra, observa-se que no contexto das lutas rurais protagonizadas por trabalhadores, lideranças de movimentos sociais e sindicais e defensores de direitos humanos, entre os anos de 1995 e 2014, foram catalogados 3.964 casos de pessoas presas em todo o país.
 
Especialmente no que diz respeito ao Movimento Sem Terra, suas tradicionais formas de protesto sempre desencadearam reações repressivas do Estado, com o desenvolvimento da atividade punitiva que exacerba os limites legais impostos por regimes democráticos.
 
De modo geral, imediatamente após a realização das ocupações de terra os órgãos da justiça e da polícia são acionados, instaurando-se investigações e processos criminais, via de regra com expedição de decretos de prisão provisória carentes de fundamentação. A legislação penal é vasculhada em busca de tipos penais que possam ser interpretados de modo extensivo, formulando-se acusações do cometimento especialmente de crimes de esbulho possessório, furto, dano, associação criminosa, crimes constantes da Lei de Segurança Nacional, dentre outros, ocasiões em que a demonstração da presença de indícios de autoria e materialidade delitiva não é objeto de preocupação das autoridades.
 
No passado recente, porém, algumas decisões proferidas pelos tribunais do país expressaram entendimento sobre a legitimidade da luta pela reforma agrária e sobre o fato de integrantes de movimento social não poderem ser confundidos com integrantes de quadrilha.
 
Nesse sentido, são emblemáticas as seguintes decisões do Superior Tribunal de Justiça:
 
– HC. Constitucional. Habeas Corpus. Liminar. Fiança. Reforma Agrária. […]. Movimento Popular visando implantar a reforma agrária, não caracteriza crime contra o patrimônio. Configura direito coletivo, expressão da cidadania, visando implantar programa constante na Constituição da República. A pressão popular é própria do Estado Democrático de Direito.[1]
 
– Constitucional. Processual. Penal. Prisão em Flagrante. Líderes do MST. Liberdade provisória. A prisão processual, medida que implica sacrifício à liberdade individual, deve ser concebida com cautela em face do princípio constitucional da presunção de inocência, somente cabível quando presente razões objetivas, indicativas de atos concretos, susceptíveis de causar prejuízo à ordem pública, à instrução criminal e à aplicação da lei penal (CPP, artigo 315; CF, artigo 93, IX) – A manutenção de líderes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST sob custódia processual, sob a acusação de formação de quadrilha, desobediência e esbulho possessório afronta o preceito inscrito no artigo 5º, LXVI, da Constituição – Habeas Corpus concedido.[2]
 
Embora os movimentos sociais, notadamente os do campo, tenham obtido êxitos nos tribunais superiores ao questionar a criminalização da luta social, isso não foi suficiente para evitar que muitos juízes e promotores continuassem a tratar a questão social como caso de polícia.
 
Recentemente, o Ministério Público do Estado de Goiás denunciou quatro trabalhadores rurais sem terra como integrantes de organização criminosa e contra eles foi expedido decreto de prisão preventiva. Patrick Mariano e Beatriz Vargas denunciaram a ilegalidade e equívoco de tal interpretação.
 
O cenário dos protestos realizados no meio urbano não difere do quadro de repressão e criminalização verificado no meio rural. Avolumam-se casos de atuação violenta da polícia contra manifestantes, notícias de agentes estatais infiltrados nas mobilizações, prisões e instauração de processos criminais, cujo objetivo é o de amedrontar, desmobilizar e neutralizar a dissidência política e a apresentação de reivindicações pelo cumprimento das promessas constitucionais.
 
A questão central se foca na dualidade entre a tentativa de mudanças e a manutenção das gritantes injustiças sociais. Em meio a essa tensão, o direito penal serve como poderoso instrumento de contenção das demandas populares. A defesa ou a busca pelos direitos, no autoritarismo, é vista como questão de polícia, mas há quem não se sinta constrangido em defender esse pensamento em pleno regime democrático.
 
***
 
Passados 28 anos da promulgação da Constituição de 1988, diante de um quadro de esfacelamento de pilares de sustentação da democracia, as palavras do procurador soam perturbadoras. Representam a síntese de um movimento coordenado que visa impor ainda mais retrocessos ao sistema penal, com reflexos nas lutas protagonizadas por movimentos sociais.
 
A criminalização da política e o rosário de ilegalidades praticadas na Operação Lava Jato é, talvez, um dos maiores retrocessos no direito penal brasileiro desde a ditadura civil-militar e suas consequências durarão por muito tempo.
 
A prisão temporária de um ex-ministro da Fazenda, intelectual reconhecido, enquanto acompanhava sua companheira que padece de câncer em um hospital é algo que choca, aturde e nos fornece a exata dimensão do estado policial que vivemos.
 
Como bem disse a advogada Camila Gomes ao abordar a ilegalidade da divulgação dos áudios da presidente da república, “uma investigação policial e um processo judicial que não respeita os direitos de uma presidente da República, vai respeitar o de quem? Do povo do Cabula? Da Izidora, em Minas Gerais? Da Rocinha, do campo?”.
 
Na atualidade, com o aumento do estado penal e com uma forte tendência de relativização ou esvaziamento do conteúdo dos princípios constitucionais destinados a impor freios ao poder punitivo, não se pode nutrir muitas esperanças a respeito do posicionamento que os tribunais adotarão nos casos de criminalização em tramitação e nos novos casos que, pela trajetória do país, continuarão a surgir sempre que trabalhadores e trabalhadoras realizarem suas tradicionais formas de protesto.
 
Foi muito feliz o jornalista Juca Kfouri ao analisar o momento atual no Brasil e resgatar Brecht: ‘Ou a gente grita, ou virão nos buscar, porque não há ninguém que grite por nós’.
 
Giane Ambrósio Álvares é advogada, mestre em Processo Penal pela PUC/SP e membro da Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares. 
Escreve na Coluna ContraCorrentes, aos sábados, junto a Patrick Mariano, Rubens Casara, Marcelo Semer e Marcio Sotelo Felippe.
 
[1] Superior Tribunal de Justiça. HC nº5.574/SP. 6ª Turma. Rel. Min. Luiz Vicente Cernicchiaro, j. 08.04.1997.
 
[2] Superior Tribunal de Justiça. HC nº9.896/PR. 6ª Turma. Rel. Min. Vicente Leal, j.21-10-1999.

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14 comentários

  1. Xiita evangélico

    Giane Álvares vai direto ao ponto, que é o despreparo intelectual e humanista deste pessoal da lava jato, em especial o deste moço. Como é que pudemos chegar a este ponto? Será que foi porque não houve um mea culpa institucional sobre a ditadura? Como um pensamento tão reacionário, tão retrógrado, pôde florescer e causar o dano que este pessoal está causando? Em parte, talvez deva-se a algumas religiões que se dizem cristãs, embora de cristãs nada tenham, já que pregam  a riqueza como virtude moral?

  2. Dallagnol

    Hanna Arendt foi uma intelectual judia que não demonizou um nazista, no momento do seu julgamento,porque ele apenas cumpria ordens, era um oficial de nível inferior, e foi demonizada pelos próprios judeus. Olha o que ela diz :-“a  capacidade do ato de pensar não e o conhecimento, mas a habilidade de distinguir o bem do mal, de fazer juízos morais. Essa incapacidade de pensar permitiu que muitos homens comuns cometessem atos crueis numa escala monumental jamais vista, como no nazismo”                                                                                                                                                                                                   O momento em que vivemos vemos homens comuns e até mesmo juízes demonizarem o PT sem usarem um juízo moral do que estão fazendo e de que seus atos podem levar nosso país para uma situação que beira o nazismo.

  3. Parafraseando PHA Dallagnol é

    Parafraseando PHA Dallagnol é um idiota, sua analise historico sociologica de butiquim sobre as origens da corrupção no Brasil comprovam que passar em concurso públco não livra ninguem de ser um imbecil.

  4. A miséria intelectual e humana dos carrascos

    “A frase revela miséria intelectual e desprezo pela história do país e pelo direito.” Na  verdade, tenho uma pequeno complemento ao texto: as ponderações do procurador de Curitiba revelam também, no meu entendimento, a miséria intelectual e humana dos novos carrascos da democracia brasileira. Essa jovem e incipiente democracia, a duras penas inscrita na Constituição de 1988 e, agora, tomada de assalto pelo Tribunal de Exceção erguido pela Operação Lava Jato, com a conivência e cumplicidade da maioria do Judiciário brasileiro. Em tempo: o Brasil jamais discutiu em profundidade as mazelas provocadas por mais de 300 anos de existência da escravidão dos negros, uma instituição que deu forma e conteúdo ao pensamento conservador da sociedade brasileira; nessa mesma linha, em momento algum, aconteceu um debate profícuo a respeito da “desgraceira” que a ditadura civil-militar trouxe para o país. Dallagnol é um produto bem acabado da sociedade conservadora brasileira, além de, ou melhor, por isso mesmo, ter a “cabecinha feita” pelos EUA. É até possível que ele não saiba – uma vez que isso já foi “naturalizado” em algumas estratos econômicos superiores- , mas é um colonizado até a alma.  

  5. Procurador despreparado e

    Procurador despreparado e fundamentalista, estamos dando muito espaço para este sujeito.

    Dele não sai sequer uma linha de raciocinio que se possa aproveitar.

    Se realmente ele vivesse os ensinamentos de Jesus ele não teria esta postura grotesca e hipócrita.

    Acabando os 5 segundos de holofotes ele voltará para a sua insignificância.

    Genaro

     

  6. O maluco solitário e o Ministério Público

    O maluco solitário e o Ministério Público

    Por Maria Cristina Fernandes

    Derek Sivers é um músico californiano de 47 anos radicado em Cingapura. Fez fortuna com uma empresa de transação on-line de CDs que depois se tornaria uma das maiores vendedoras de música independente do mundo. Em 1º de abril de 2010, a plataforma digital de palestras TED colocou no ar um vídeo de três minutos intitulado “Como Iniciar um Movimento”. Nele, Sivers mostra um rapaz de dorso nu dançando freneticamente numa montanha. Uma pessoa se levanta e passa a imitá-lo. Logo todos os jovens que o assistiam se levantam e passam a fazer o mesmo. “É o seguidor que transforma o solitário em um líder. É preciso ter coragem e não ter medo de ser ridicularizado”, diz Sivers.

    O vídeo teve 5,6 milhões de visualizações. Uma delas partiu de Deltan Martinazzo Dallagnol, que resolveu incorporá-lo às palestras que promove em defesa das dez medidas anticorrupção. Em fevereiro deste ano, num encontro com lideranças reunidas pela Primeira Igreja Batista de Curitiba, o procurador do Ministério Público Federal exibiu o vídeo. Ao final, dirigiu-se à sua plateia com a recomendação: “Quando encontrar um maluco solitário com uma boa causa tenha a coragem de segui-lo”.

    O procurador de 36 anos foi, na semana passada, a estrela da denúncia contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O terno azul-escuro, os óculos de aros pretos, a dicção que não deixa escapar uma única sílaba e o uso preciso do subjuntivo não sugerem disfunção psíquica.

    A presença de todos os 12 procuradores que, sob sua coordenação, compõem a força-tarefa da Lava-Jato e a anuência do juiz da 13ª Vara Federal de Curitiba, Sérgio Moro, também não autorizam a interpretação de que esteja sozinho. Durante a apresentação da denúncia, no entanto, o procurador abusou dos recursos que lançou mão para criar o movimento das dez medidas anticorrupção.

    A apresentação de 1h04 foi pautada pela mesma oratória usada por Dallagnol nas mais de 150 palestras que já fez país afora desde o lançamento da campanha pela subscrição e aprovação das medidas que empoderam o Ministério Público no combate à corrupção. A retórica da persuasão do procurador parte da repetição de construções de fácil compreensão. A mais recorrente, na apresentação da denúncia foi a de que o país estava diante de uma “propinocracia, governo gerido pela propina” que, segundo o procurador, tem uma dimensão “gigantesca, maior do que muito grande”.

    Seu uso como arma de retórica fica evidente na comparação entre a fala e a denúncia impressa. A construção aparece 12 vezes na apresentação do procurador, mas não está registrada na acusação levada a Moro.

    A retórica de Dallagnol ainda lança mão de figuras de linguagem para nominar o ex-presidente que não foram incorporadas ao texto impresso. O procurador referiu-se a Lula dez vezes como comandante de esquema criminoso, sempre acompanhado dos adjetivos “máximo”, “real”, “supremo”. A ocorrência do termo “comandante” no documento, além de reduzida à metade, nunca é adjetivada.

    Dallagnol ainda chama Lula de “maestro” e “general”. Nenhuma das denominações aparece na denúncia formal. Nela, o ex-presidente surge com mais frequência como “chefe do Poder Executivo” ou “ocupante do cargo público mais elevado”.

    A descrição da organização criminosa no documento, que ocupa mais da metade de suas 149 páginas, é tão farta quanto na apresentação. A acusação não está no escopo das atribuições da força-tarefa, mas, sim, da Procuradoria-Geral da República, em Brasília. Sob a alçada de Curitiba estão o crime de corrupção e lavagem de dinheiro. Procuradores em Brasília avaliam que os 13 procuradores da força-tarefa poderiam ter cumprido melhor sua tarefa se tivessem se limitado aos crimes atinentes. A inclusão do crime organizado no documento e, principalmente, na fala do procurador, no entanto, compõe a narrativa do movimento do qual o procurador natural da Lava-Jato é o principal porta-voz: o projeto, em tramitação no Congresso, das dez medidas anticorrupção.

    O foco na organização criminosa é sustentado pelas construções da persuasiva retórica do procurador. Dallagnol sustentou em sua fala que o ex-presidente era comandante de uma organização destinada a prover “governabilidade corrompida, perpetuação criminosa no poder e enriquecimento ilícito”. Os três objetivos com os quais Lula teria assumido a Presidência da República foram repetidos nove vezes pelo procurador.

    As manifestações dos integrantes do Ministério Público não estão submetidas ao mesmo cerceamento imposto a juízes, cumprido com habilidade por Sérgio Moro, que se vale dos autos e dos offs, mas não concede entrevistas. Sem o mesmo freio, o procurador não apenas tem farta presença no noticiário como é ativo usuário das redes sociais.

    Nascido em Pato Branco, skatista e surfista na juventude, Dallagnol é filho de um promotor de Justiça. Entrou no Ministério Público aos 22 anos. No Twitter, apresenta-se como “seguidor de Jesus, marido e pai apaixonado, procurador da República por vocação (hoje coordenando o MPF na #LavaJato em Curitiba) e mestre em direito por Harvard”.

    Nos últimos dois meses, Luís Roberto Barroso (STF) e Laurita Vaz (STJ) são os únicos ministros de tribunais superiores citados nos tuítes do procurador. Barroso, pela defesa do MP quando a instituição foi atacada pelo colega de tribunal, Gilmar Mendes, e Laurita, pela frase: “A corrupção tira comida dos pratos das famílias e crianças dos bancos das escolas”. Em suas postagens no Facebook, inclui mais um ministro. Quando Luiz Fachin foi indicado para o Supremo, Dallagnol compartilhou um perfil simpático ao ex-professor da Universidade Federal do Paraná, onde graduou-se.

    A mulher do procurador, a farmacêutica Fernanda Dallagnol, usa sua página para compartilhar entrevistas, artigos do marido e vídeo da musa da Lava-Jato, a jornalista Joice Hasselman, além de curtir postagens do marido sobre cuidados com crianças. O casal tem dois filhos pequenos. Em entrevistas e palestras, Dallagnol não se furta a comentar sobre a privação de convivência maior com as crianças como preço a pagar pela missão na Lava-Jato.

    Os tão criticados slides em powerpoint da denúncia contra Lula são muito pouco criativos quando comparados às ilustrações das palestras do procurador. Naquela dirigida a lideranças da Igreja Batista em Curitiba, depois de mostrar foto em que aparece adolescente de cabelos encaracolados “vocacionado na busca da justiça”, Dallagnol exibe slide em que um par de sapatinhos de bebê aparece sobre a barriga de uma grávida. Dizia assim que a Lava-Jato havia chegado em sua vida junto com o primeiro filho.

    Com um raro domínio de cena, o procurador busca empatia com humor. Diz, por exemplo, que a Lava-Jato tem tantas fases quanto o “Candy Crush Saga”, sucesso do mercado de jogos eletrônicos. Em entrevista a Jô Soares chegou a relatar o dia em que pensou ter mandado mensagem de WhatsApp para seu médico, Paulo Roberto Costa Claro, descrevendo sintomas de uma infecção intestinal. Só se deu conta do engano ao receber resposta educada de seu investigado, o homônimo ex-diretor da Petrobras, que lamentava não ter formação em medicina para ajudá-lo. “Ainda bem que não mandei foto”, acrescentou, arrancando risos.

    Tem abordagens específicas para cada palestra, mas sempre lança mão de pelo menos três máximas – “Precisamos deixar de ser vítimas do passado para sermos senhores do nosso destino”, “a saída para o Brasil não é aeroporto”, “a corrupção não é um problema do partido A ou do partido B” – e arruma um jeito de encaixar uma citação de Martin Luther King. Tem uma coleção de frases do líder negro americano, sempre lembrado como pastor batista, que remetem à realização de sonhos por quem os persegue.

    Depois que a plateia, com humor e emoção, está em suas mãos, Dallagnol passa à fase mais substantiva de suas intervenções. O coordenador da Lava-Jato tem uma interpretação culturalista da história. Acha que foi a colonização portuguesa quem legou a corrupção à terra natal. “Quem veio de Portugal para o Brasil foram degredados, criminosos. Quem foi para os Estados Unidos foram pessoas religiosas, cristãs, que buscavam realizar seus sonhos, era um outro perfil de colono”.

    O espírito cristão dos colonizadores americanos não os impediu de dizimar a população nativa, colecionar genocídios em sua política externa e conviver com o pesadelo de uma Casa Branca ocupada por Donald Trump. Mas o ex-estudante de Harvard só trouxe admiração pelas instituições americanas. O mesmo fascínio alimenta em muitos de seus compatriotas a ilusão de que o Brasil seria uma grande Amsterdã se os holandeses não tivessem sido expulsos. Não cogitam o Brasil como uma versão ampliada da África do Sul.

    O coordenador da Lava-Jato, em sua pregação anticorrupção, trata de tranquilizar suas plateias de que a saída não passa por engajamento partidário, mas pela cidadania a ser exercida com a adesão às dez medidas. Cita investimentos em saúde e educação que poderiam ser feitos sem o dreno da corrupção e mostra slide de uma família emagrecida sentada à mesa vazia. A imagem se assemelha àquelas que o PT, sigla a que sempre se refere por extenso, exibiu na propaganda eleitoral em 2014.

    Num esforço de quem parece buscar a linguagem de seus interlocutores, Dallagnol ilustra a janela histórica de mudança que se abre no país. “Quando você vai a Miami ou ao Paraguai pensa: não gastaria isso que estou gastando, mas é uma questão de oportunidade. Pois hoje vivemos esta oportunidade. Podemos contar com você?”. Pede que levante as mãos quem o apoia. Nem precisou dançar freneticamente. Saca o celular e faz a foto do mar de mãos que surgem à sua frente.

    Maria Cristina Fernandes, jornalista do Valor, escreve neste espaço quinzenalmente

  7. Sei não,  mas esse Dallagnol

    Sei não,  mas esse Dallagnol passa a impressão de que só largou a chupeta aos 15 anos…

  8. Nojento, asqueroso,

    Nojento, asqueroso, prepotente e arrogante. Em razão da pouca idade o Brasil vai aturá-lo por muitos anos, quem sabe estamos assistindo ao nascer um novo Alziro Zarur?

  9. Um apelo as autores do texto

    Prezados,

    Peço aos autores do texto, juristas e advogados, assim como outros operadores do Direito e defensores do Estado Democrático, e outros que o tenham tenham lido, para visitar e saber, de fato, qual a situação dos quatro líderes do MST, mantidos presos em Goiás, numa prisão de segurança máxima. Aos jornalistas do GGN e outros profissionais independentes, fica a missão de levantar informações, investigar jornalìsticamente e entrevistas autoridades policiais, do MP e judiciárias, sobre a legalidade da decisão de encarcerar os líderes do movimento social.

    Hoje ficamos sabendo que alexandre de moares, o nazifascista que hoje é ministro da polícia polítca, em evento de campanha do candidato de seu partido (o PSDB) à prefeitura de Ribeirão Preto a este prometeu uma fase da operção Fraude a Jato, que será feita sob medida, para atingir Antonio Palocci e outros do PT. É provável que amanhã, pela manhã, a polícia política leve Palocci e outros líderes petistas presos. A ditadura, o fascismo e o Estado de Exceção já vigoram no Brasil.

    • Tanto vigoram que vc cravou

      Tanto vigoram que vc cravou essa previsão !!! Parabéns !!! Ou deveria dizer Pêsemes ??

       

  10. Harvard

        Nós temos que enteder que a “Harvard”, que o Profeta Deltan tem como base de sua doutrina messianica, não é a da atual Harvard Law School, ou mesmo de sua possivel doutrinação pelo governo norte-americano, mas a do século XVII, da saga puritana de Massachussets, dos julgamentos de Salem, de Cotton Mather.

         Ele é um profeta, sempre a procura de delatores, como Cotton Mather encontrando Betty Parris, Abigail Willians, mas sua glória será quando encarcerar a “sua” Tituba, que diferente da primeira do século XVII, é homem, barbudo, nordestino de origem e foi Presidente da Republica.

  11. Dallagnol??

    Preenche todas qualidades para ser o próximo pgr. Substituto a altura de antonio fernando, gurgel, janot . Até pode ser chamado de idiota.

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