Vaza Jato: Deltan idealizou monumento à Lava Jato; até Moro chamou proposta de ‘soberba’

Objetivo do coordenador da Lava Jato era criar uma "estratégia de marketing" que se tornaria "ponto turístico" e "pano de fundo de reportagens"

Deltan Dallagnol, procurador da Lava Jato. Foto: José Cruz/Agência Brasil

Jornal GGN – Em 2016, Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, avaliou em conversas trocadas em um grupo no Telegram, e depois em particular com o então juiz Sérgio Moro, que a operação merecia um marco visual, idealizando que o monumento se tornaria “ponto turístico” e “pano de fundo de reportagens”.

As informações são dos jornais Folha de S.Paulo e The Intercept Brasil que, em parceria, revelam novos trechos de mensagens da Vaza Jato, desta vez sobre a “estratégia de marketing” proposta pelo deslumbrado Dallagnol.

“Precisamos de estratégias de marketing. Marketing das reformas necessárias”, disse o procurador iniciando o tema junto aos colegas em maio daquele ano. A reportagem aponta que os procuradores demonstraram entusiasmo com a proposta.

“A minha primeira ideia é esta: Algo como dois pilares derrubados e um de pé, que deveriam sustentar uma base do país que está inclinada, derrubada. O pilar de pé simbolizando as instituições da justiça. Os dois derrubados simbolizando sistema político e sistema de justiça…”, continuou Deltan.

O projeto do monumento ia além de lembrar as benfeitorias da Lava Jato, incluía também chamar atenção para as mudanças defendidas pelos procuradores, como o projeto das Dez Medidas, naquele momento em tramitação no Congresso.

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Deltan submeteu a proposta do marco visual ao verdadeiro chefe da força-tarefa da Lava Jato: Sergio Moro. “Isso virará marco na cidade, ponto turístico, pano de fundo de reportagens e ajudará todos a lembrar que é preciso ir além… Posso contar com seu apoio?”, perguntou, tendo antes explicado que pensou na possibilidade de abrirem um concurso de escultura “que simbolize o fato de que a lava-jato é um avanço, mas precisamos avançar com reformas, como a reforma do sistema de justiça e do sistema político”.

Ao contrário do que esperava o jovem procurador, o então juiz não demonstrou empolgação com a ideia do subordinado: “Não é melhor esperar acabar?”, respondeu Moro.

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“Eu apostaria que tão somente a existência do concurso já será matéria de jornal, estimulará o debate sobre reformas, e frisaremos na proposta do concurso das esculturas a necessidade de reformas e que elas simbolizem as reformas necessárias… sabemos que precisamos ir além, como país, e só estou pensando nisso para fazer tudo o que estiver ao meu/nosso alcance”, continuou Deltan acrescentando que “a paula mesmo adorou e se empolgou”, se referindo à procuradora-chefe no Paraná, Paula Conti Thá.

Para deixar Moro até mais à vontade, Deltan explicou que o plano não seria publicizado como algo da equipe Lava Jato, mas da Procuradoria no Paraná com a Justiça Federal.

“Melhor deixar para depois. Em tempos de crise, o gasto seria questionado e poderia a iniciativa toda soar como soberba”, insistiu Moro arrematando que iniciativas de homenagens “devem vir de terceiros”.

Deltan prosseguiu frisando que os gastos não viriam de cofres públicos, mas “com patrocínio privado”.

Parece que, no final das contas, o procurador saiu vencido. O plano nunca saiu do papel. Ao contrário, porém, de outra proposta dele: a peça publicitária para defender as Dez Medidas em rede nacional.

Em 15 de julho, mensagens divulgadas pelo Intercept e pelo jornalista Reinaldo Azevedo mostraram que o chefe da força-tarefa pediu, em janeiro de 2016, para Moro verificar a possibilidade de apoio financeiro da 13ª Vara Federal à produção do comercial.

O procedimento é ilegal em vários sentidos. Primeiro porque uma Vara da Justiça não tem liberdade legal para investir em propagandas, segundo de fazer propagandas para entidades terceiras e, por último, o fato de um juiz conversar sobre o repasse de recursos para um procurador federal com essa finalidade.

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No diálogo apresentado, Moro deixou a possibilidade em aberto. Então não fica comprovado se a Vara cedeu recursos à peça publicitária. Entretanto, o vídeo foi produzido seguindo exatamente o roteiro compartilhado por Deltan com Moro e pode ser assistido aqui.

A resposta oficial do Ministério Público Federal no Paraná à reportagem mais recente desta quarta-feira (21) parece confirmar, mais uma vez, a veracidade dos fatos apresentados pelos jornais Folha e Intercept.

Disse o órgão em nota que “diversas vezes iniciativas são cogitadas por seus integrantes ou por terceiros, sendo que muitas não se concretizam após reflexão e ponderações, pelas mais variadas razões”, e ainda que “têm reiteradamente defendido que, para além da Lava Jato, haja reformas nas leis para reduzir a corrupção e a impunidade”.

Em seguida, o Ministério Público voltou à tentativa de deslegitimar o material entregue por uma fonte anônima ao Intercept afirmando que “não reconhece as mensagens que lhe têm sido atribuídas”. “O material é oriundo de crime cibernético e sujeito a distorções, manipulações e descontextualizações.”

*Clique aqui para ler a matéria da Folha de S.Paulo.

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6 comentários

  1. Delírios como este são bem comuns entre pastores dessas “igrejas de prosperidade”, importadas dos EUA. Sabe aquela história de “não sou eu que tem razão, a razão é que é dona de mim”? É o mesmo messianismo incutido nos coitados que crescem segundo os dogmas do Destino Manifesto: “Nós, ‘americanos’, não queremos nem deixamos de querer ter poder sobre o resto do mundo, mas é nossa missão salvar o mundo da barbárie.”, os que os cega para o fato de que os bárbaros estão sendo eles mesmos, sabotando a evolução dos outros na intenção de que a própria pareça maior. Mas que civilidade há em agredir para se impor, como era “moda” antigamente, como bárbaros e vândalos? Faz lembrar daquele outro procurador que trancou a própria esposa na igreja para salvá-la do pecado… Kaspar Hauser.

    Claro que há pastores e estadunidenses percebem que o poder que querem impor é para usufruto deles mesmos, sabem-se hipócritas e não acham ruim. Mas a maioria com certeza é zumbi. E ainda acusam muçulmanos de serem fanáticos religiosos, é mole?

    O fim desse moço, Deltan, se não procurar ajuda, vai ser daqueles loucos no meio das praças praguejando contra a Humanidade com a bíblia ensebada nas mãos…

  2. Tropicália
    (Caetano Veloso)

    Sobre a cabeça os aviões
    Sob os meus pés, os caminhões
    Aponta contra os chapadões, meu nariz

    Eu organizo o movimento
    Eu oriento o carnaval
    Eu inauguro O MONUMENTO
    No planalto central do país

    Viva a bossa, sa, sa
    Viva a palhoça, ça, ça, ça, ça

    O MONUMENTO é de papel crepom e prata
    Os olhos verdes da mulata
    A cabeleira esconde atrás da verde mata
    O luar do sertão
    O monumento não tem porta
    A entrada é uma rua antiga,
    Estreita e torta
    E no joelho uma criança sorridente,
    Feia e morta,
    Estende a mão

    Viva a mata, ta, ta
    Viva a mulata, ta, ta, ta, ta

    No pátio interno há uma piscina
    Com água azul de Amaralina
    Coqueiro, brisa e fala nordestina
    E faróis
    Na mão direita tem uma roseira
    Autenticando eterna primavera
    E no jardim os urubus passeiam
    A tarde inteira entre os girassóis

    Viva Maria, ia, ia
    Viva a Bahia, ia, ia, ia, ia

    No pulso esquerdo o bang-bang
    Em suas veias corre muito pouco sangue
    Mas seu coração
    Balança a um samba de tamborim
    Emite acordes dissonantes
    Pelos cinco mil alto-falantes
    Senhoras e senhores
    Ele pões os olhos grandes sobre mim

    Viva Iracema, ma, ma
    Viva Ipanema, ma, ma, ma, ma

    Domingo é o fino-da-bossa
    Segunda-feira está na fossa
    Terça-feira vai à roça
    Porém, o MONUMENTO
    É bem moderno
    Não disse nada do modelo
    Do meu terno
    Que tudo mais vá pro inferno, meu bem
    Que tudo mais vá pro inferno, meu bem

    Viva a banda, da, da
    Carmen Miranda, da, da, da, da

  3. Do que menos precisamos é de outro monumento para preservar a história da destruição do país…
    já basta o que temos como presidente, a monumental ignorância política de uma parte dos eleitores brasileiros

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