Nosso Xadrez ganhou uma complexidade à altura do caos que se instalou no país.
Há quatro personagens diretamente envolvidos com a Lava Jato e, seguramente, fazendo parte do dossiê Intercept: a Lava Jato, o Supremo Tribunal Federal (STF), Mídia e Milícias (entendido aí, o grupo diretamente ligado à eleição de Bolsonaro).
Todos eles tiveram papel central na era da ignomínia da democracia brasileira, uma mancha na história de cada um, com exceção obviamente das milícias, as vitoriosas.
Em outros tempos, a revisão histórica se daria após o fim do período de exceção, com justiça de transição, obras desnudando os personagens. E, em geral, cobrindo de vergonha apenas os descendentes dos principais personagens.
No entanto, na era da Internet e das redes sociais, o tempo político acelera-se enormemente. A trágica resultante do jogo – a ascensão de Jair Bolsonaro, ameaçando jogar o país na era das trevas – acelerou enormemente o revisionismo. Jornalistas, celebridades, alguns veículos que foram peça central na desmoralização da democracia, trabalham, hoje em dia, em um aggiornamento a jato, menos de dois anos após delatarem adversários, estimularem o ódio, defenderem as ações de exceção da Lava Jato.
Especialmente porque emergiu dessa zona um Brasil do baixo clero, com a opinião se fazendo ao largo da mídia, das análises técnicas e da Bastilha dos poderes constitucionais. Abriram a jaula, liberaram os bárbaros. A recuperação da influência dependerá, portanto, da retomada da legitimidade perdida.
Por outro lado, a recuperação dos princípios democráticos poderia trazer Lula de volta à arena política. Como se equilibrar nesse dilema, entre a cruz e a caldeirinha? Especialmente porque o dossiê do Intercept, se divulgado na integra, revelará:
- Pecados específicos da operação.
- Acertos com jornalistas e veículos.
- Conversas mencionando acertos nas instâncias superiores, podendo chegar até o STF.
É nessa arena que se dará os próximos embates entre os quatro Ms.
Vamos conferir como deverão se comportar, a partir da estratégia elaborada por Glenn Greenwald, da Intercept.
Protagonista 1 – Glenn Greenwald e o Intercept
Glenn se tornou um jornalista premiado internacionalmente não apenas por ser receptador de dossiês explosivos, mas, principalmente, por sua capacidade de viabilizar sua divulgação. No caso Snowden, houve a parceria com The Guardian e outros grandes veículos internacionais, conseguindo contornar até a enorme influência da CIA e do governo norte-americano.
Agora, monta uma tacada de mestre, com a parceria com a Folha de S. Paulo. Com a aliança, blinda-se contra eventuais tentativas de Sérgio Moro, de criminalizar a cobertura, ganha um alto-falante potente, junto a uma bolha extra-Internet.
Definiu claramente o alvo – Sérgio Moro e a Lava Jato -, enfrentou valentemente os grandões, inclusive a Globo, quando tentou criminalizar sua conduta, e os bolsominions que o ameaçaram
Há informações de que apenas 2% do dossiê Snowden foi divulgado, devido a alianças políticas de Greenwald. Não se condene. Fez o que era possível para viabilizar a divulgação de parte dos documentos, que se tornou um clássico do jornalismo contemporâneo. Mas pode explicar eventuais desdobramentos na divulgação do dossiê Intercept, como se analisará a seguir.
Protagonista 2 – mídia
A eleição de Bolsonaro consagrou definitivamente o novo ator das comunicações, as redes sociais, os “influenciadores”, com sua comunicação horizontal, os fake news e o trabalho absolutamente profissional de apoio a Bolsonaro. A única maneira da mídia mainstream recuperar o espaço é retomando os valores imemoriais do jornalismo.
Mas como apagar tantos anos de infâmia, o uso abusivo de fakenews até perder o controle sobre o produto?
Este ano, tem havido um esforço ingente para recuperação da legitimidade. Jornalistas que se lambuzaram até o pescoço atendendo à sede de ódio do período anterior, a legitimação das ilegalidades, a delação dos inimigos, de repente se tornam campeões do lado certo, na grande batalha civilização x selvageria. Sejam bem vindos.
Ao mesmo tempo, na classe média mais moderna, dos jovens de boa cabeça, há um movimento irresistível de adesão às críticas contra Moro, Dallagnoll e operação. Ora, se investir contra o poder constituído engrossou a campanha do impeachment, hoje em dia o poder constituído atende pelo nome de Sérgio Moro, e Lava Jato.
É um movimento que conquistou programas de humor, na própria Globo, corações e mentes da parte mais saudável dos jovens jornalistas – ainda que contidos pelas amarras da redação. E, especialmente, a classe média mais informada, blindada contra os fakenews das redes sociais.
Está em formação a tentativa de criar um pensamento progressista, tipo classe média intelectualizada, em substituição à esquerda tradicional.
Por outro lado, a divulgação de diálogos de procuradores com jornalistas poderá explicitar o óbvio, o fato de a mídia ter endossado todos os arbítrios da Lava Jato.
Nesse sentido, é interessante analisar o comportamento da Globo.
Começou pretendendo criar um Russiagate, para desmoralizar as denúncias. Recebeu reações à altura de Greenwald, valendo-se das redes sociais. Depois, se acalmou, a ponto de produzir uma matéria longa e isenta sobre o tema no último Fantástico, depois de anunciado a parceria Intercept-Folha.
O que a fez mudar de opinião? A constatação de que, indo contra o dossiê, comprometeria ainda mais sua imagem? A garantia de que apenas parte do dossiê seria revelado?
Lembrem-se das contas do HSBC. Quando o jornalista Fernando Rodrigues se viu com os dados na mão, incluindo contas de donos de empresas jornalísticas, amarelou e pediu ajuda à Globo. O jornal alocou bons repórteres, que levantaram alguns casos, para dar alguma satisfação ao distinto público, mas esconderam o restante do material. Até hoje é mantido nas sombras.
Greenwald informou estar fechando aliança com outros veículos. Ainda é cedo para avaliar a profundidade da cobertura do dossiê. Qualquer que seja o nível de concessão, já prestou um serviço inestimável à democracia brasileira.
Protagonista 3 – os milicianos
Jair Bolsonaro está se esbaldando com a agonia de Sérgio Moro. É só comparar sua desenvoltura, depois que se iniciou a descida de Moro aos infernos, com a postura anterior. O aclamado herói nacional, agora, come na sua mão, endossa todos seus esbirros e, a cada dia que passa, reduz seu próprio potencial eleitoral – embora ainda seja bastante popular.
Por outro lado, as tentativas da mídia de limpar as marcas do passado recente, o aumento da grita pela libertação de Lula, fortalecem Bolsonaro junto às suas milícias.
A cada dia que passa, seu governo mais se isola, mais nítidos ficam os sinais de descontrole sobre a economia e o isolamento do país no cenário global. Salva-se apenas pelo antilulismo.
Mas isso é tema para outro xadrez.
Protagonista 4 – os Ministros do Supremo
Hoje confirmou-se a regra suprema, que explicitei em artigo recente (aqui). Todo movimento do Supremo é ensaiado. A banda legalista vota, mas sempre com a garantia de que será minoritária na votação.
Mesmo assim, hoje em dia, o pouco que o dossiê Intercept revelou até agora escancara os desmandos da operação. Seguramente há material muito mais explosivo a caminho, explicitando de forma indelével o caráter político da operação.
Por outro lado, a maioria do Supremo continua firmemente alinhada à tese do sistema, de uma reconstituição da democracia, mas sem Lula. Qual o óbolo a ser pago? Provavelmente o pescoço de Sérgio Moro, depois de garantido que sua condenação não viabilizará politicamente Lula.
Protagonista 5 – Moro
Encerrou sua carreira de Ministro. No cargo, sua reputação será destruída dia a dia por três fenômenos:
- O vazamento continuado do dossiê Intercept.
- A blindagem ao no. 1 Flávio Bolsonaro e do lugar-tenente Queiroz. Ligado a isso, a impossibilidade de resolver o episódio da morte de Marielle.
- Sua total incapacidade de articular qualquer política pública consistente.
Ficando no cargo, gastará toda sua reserva de imagem e se arriscará a ser abandonado por seus seguidores, do MBL às alianças empresariais. Principalmente porque estará permanentemente subordinado a Jair Bolsonaro.
No momento, ainda goza de popularidade, ainda que descendente. Sua visita aos principais departamentos de segurança dos Estados Unidos mostra o desespero e a necessidade de buscar apoio dos padrinhos, uma pista qualquer que possa desmoralizar o dossiê Intercept.
Conclusão
O sistema – entendido como o conjunto de forças que influi nas decisões de poder – já rifou Sérgio Moro.
Confira-se o inexpressivo senador David Alcolumbre, alçado à presidência do Senado por uma articulação de anti-PMDB e partidos bolsonarianos, afirmando que, fosse político, Moro estaria sem cargo e preso. Usou Moro de escada para levantar sua reputação. Na Câmara, a cada dia que passa Rodrigo Maia atua mais e mais como freio às pirações de Bolsonaro. A própria Câmara, valendo-se das revelações do Intercept, ressuscitou a lei anti-abuso das autoridades, uma lei que, ao pé da letra, poderá comprometer até a parte saudável da atuação do Ministério Público Federal.
Ou seja, as duas casas legislativas recuperam seu protagonismo. Enquanto isto, as Forças Armadas dão um sinal forte de impedir a contaminação de sua imagem por Bolsonaro, recusando a promoção de um dos militares da ativa que foi servir o governo.
De algoz inclemente, Moro caminha para ser o bode expiatório do sistema. Será usado pela mídia para purgar seus pecados, de apoio à desestruturação do país. Pelo Congresso, como forma de recuperar seu protagonismo. Pelo Supremo, para mostrar-se defensor das leis e do direito, desde criancinha. Será mantido em formol por Bolsonaro, para mostrar-se solidário com os soldados caídos no campo de batalha.
Daí, começará uma segunda revisão desses tempos bicudos, demonstrando que Moro, Dallagnol, Janot e companheiros eram apenas instrumentos, pessoas sem dimensão intelectual e social, provincianos deslumbrados, brinquedos de um poder maior, daqueles que se usa e se joga fora.
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Nassif, acho que vale a pela uma leitura atenta à coluna do Merval de hoje, ( pelo que ele.representa como porta-voz do grupo Globo. Especialmente nos últimos parágrafos, em que ele parece vincular a 'estabilidade institucional', na visão dele representada por Toffoli e Raquel Dodge, mas na verdade garantida pelos generais próximos ao presidente. Chega a chamar a atenção paras as indicações do general Villa Boas para assessoria ao presidente do STF.
O acordão do fim da ditadura para a nova republica estabeleceu que qualquer representação popular e a agenda da Igualdade não tivessem vez, ou, fossem meros coadjuvantes. A primeira derrota para Lula foi engulida a seco, com firme crença de que ele logo cairia. Porem, depois da segunda, terceira, quarta, e a chance de o próprio Lula voltar a se candidatar e reiniciar o ciclo sem fim de derrotas, fez o pessoal literalmente partir pra ignorância. Aquele discurso que jamais deixou de existir, da ameaça comunista, e da revolta da plebe periferica (liderada pelos amantes de bandidos, "o pessoal dos DHs") foi acrescido da hipocrisia sobre a corrupçao e o reacionarismo nos costumes. Só ele permitiria concluir o desmonte dos anos 90 Ou seja, a boçalidade e a mentira vieram pra ficar, ainda por um bom tempo. É um TREMENDO erro de avaliação achar que globo, mercado, tucanos, DEM, as facçoes judiciarias, igrejas, etc, e a horda que eles açularam, de uma hora pra outra vão falar "well, acho que exageramos; vamos dialogar com os petralhas, o PSOL e os demais esquerdopatas".... Nem em novela.
Medo da Comissão Nacional da Verdade e de seus possíveis desdobramentos até, a possível, revisão da Lei da Anistia. Talvez, por isso, colocam o FHC no mesmo balaio da esquerda marxista cultural. Tudo, menos o PT. Mesmo que para isso seja necessário chancelar e engolir o Bolsonaro e famiglia, com casca e tudo. Justamente, está associação comprometedora poderá manchar de vez a imagem das FAR e abrir o caminho para uma revisão da Lei da Anistia, em futuro governo democrático.
Ver comentários (59)
Vamos colocar a situação econômica e as possíveis saídas para a crise econômico-social. Qual o projeto político do presidente eleito e quais forças econômicas representa? É uma saída? É possível continuar com este projeto pseudo-liberal, com nome e sobrenome, que já dura mais de 20 anos? Este projeto asfixiante reduziu a produtividade do país em relação à economia mundial, tornou ainda mais ricos meia dúzia de espertos, os de sempre, e decretou o país a pobreza. Um Haiti.
Mas o que tem se esboçado como alternativa? A volta ao nacionalismo, existe um projeto assim? Ou um projeto regional mais forte, um mercosul bombado? O modelo Chines? Qual a saída para gerar renda e bem estar?
Acho que o que se apresenta é apenas o desfecho de uma crise política, que vai permanecer se a crise social e econômica não for resolvida.
É estranho que a Marinha e a Aeronáutica fiquem de fora desse balaio de gatos que o pais se tornou! Alem de generais,existem brigadeiros e almirantes e,porque não se posicionam? Estão a margem de tudo embora sejam parte das FARs. O Brasil não é efetivamente " um pais sério " por conta dos interesses escusos dos que controlam o jogo de poder e dinheiro. Seremos daí para pior!
Eu acho que Faltou o M dos militares, que embora hoje estejam em simbiose com a milicia, podemos verificar uma divisão clara no estamento e essa divisão tem produzido atritos que podem derrubar o clã. Vou colar o post que fiz no meu facebook. Mas acho que o M de militares merece um Xadrez particular, falando sobre essa divisão, sobre a proximidade com a milicia e como isso afeta o governo e o interior das forças armadas, além dos impactos no governo.
Segue o post,com alterações, são pitacos, mas penso que corretos:
House of paranauê.
Pitacos
Sobre o intercept,
A esquerda não tem domínio sobre tecnologia pra ter acesso a esses dados.
Ou foi inteligência interna ou externa.
Possibilidades:
Sendo interna, Heleno é homem do bom-som-na-rio e chefe da Abin, a tacada seria pra tirar Moro do páreo em 2022.
Ou foi do exército. E ai abrem-se 2 possibilidades tb.
Sendo externa, teria contribuição de alguém de dentro, EUA, Rússia e China tem tecnologia pra isso. Mas não faria sentido a coisa ser divulgada pelo intercept.
Pq se fosse os Eua, eles usariam os veículos mais tradicionais da imprensa. A Russia e a China até tem interesse nisso, porque nosso presidente bota os Brics em cheque.
Acho curiosa a proximidade de Mourão com a China; o interesse seria 2022 ou antes....
Temos que pensar que Moro estava no FBI - DEA enquanto o caso do aerococa explodia na imprensa.
Moro andava desmoronando, acabou ficando na mão do presidente. Seria esse um "chega pra lá" visando 2022?
O caso do aerococa
O esquema na FAB já tinha sido apurado nos anos 90, salvo engano. Dados aqui (https://www.google.com/…/ha-20-anos-pf-revelou-quadrilha-qu…)
O cara que passou com 39 kg no avião presidencial está acostumado a fazer isso, tem seus contatos que facilitam a passagem e dificilmente agiu sozinho.
Moro, Heleno e Bolsonaro responsabilizaram apenas ele e disseram que ele precisa ser responsabilizado. Apenas.
Voz distante disso é a do Mourão, general que recentemente entrou pra reserva. Eles falou que é impossível o sargento ter agido sozinho. Tom que a imprensa rapidamente viralizou. Ele Tem contatos na ativa e lembrando novamente, o exercito tem setor de inteligência.
Tem um racha entre militares da ativa e da reserva, tá visível.
O vexame do G20
Jamil Chade relatou o obscurantismo que tomou conta da diplomacia brasileira e as reações dos representares e lideres mundiais a isso.
Não apenas eles, mas Jefferson Nascimento, em seu twitter também relatou seu embaraço.
Soma-se ao contexto interno, a vergonha que o Brasil está passando em suas relações internacionais na reunião do G20. Vamos lembrar também, que o exército tentou tutelar as relações internacionais durante um tempo, vale ressaltar a ação do Morão no caso da Venezuela.
Tem um nome que fica saltando o tempo inteiro nesta história, Mourão.
A briga pela direita nunca é bonita
Tudo tudo errado no Brasil,aqui a mídia tradicional e o judiciário maldoso estão tratando como normal o anormal,relativiza quando é de interessa deles como na época da escravidão "tudo bem umas chicotadas nestes negrinhos,quem mandou infringir as NOSSAS LEIS !"
com moro fora,
novas eleições!!!!
aeroína - palavra do momento
Nada de novo no precipício Brasil, e nem nas análises.
Só espero que Nassif, em sua correta propensão a ser justo com quem é submetido a linchamentos de reputação, não confunda o grande acórdão (porque todas as fases importantes do Golpe têm sempre a chancela do STF, factualmente) nacional com o sacrifício de alguém, ainda que culpado, como justiçamento e portanto, injusto em alguma medida.
Este crápula, qualquer que seja seu fim, receberá sempre menos do que deveria pelo que fez e ainda faz contra este país.
Para avaliar sua responsabilidade, sem correr o risco e acho que esse é o argumento do articulista mas que se resolve indevidamente dando ao rábula algum ar de inocência, e atribuir proporcionalmente as "culpas" de todos os golpistas, basta tirá-lo do cenário político brasileiro desde 2014 e ver o que aconteceria: nada.
A pressão dos golpistas institucionais e sociais - mídia, judiciário, mercado financeiro, elites e classes médias - contra os segmentos populares organizados em partidos e movimentos sociais sempre houve, antes e durante os governos do PT, e exatamente por sua incompetência em derrotá-los politicamente, talvez porque o povo conhecesse os golpistas ou eles não tivessem a ousadia necessária para romper todos os limites ou não tivessem ainda encontrado a narrativa que mesmerizasse a quase todos, quando o rábula e sua gangue apareceram, tiveram todas as portas abertas para agir como os vingadores do futuro.
Portanto, sem o rábula e sua gangue, o Golpe, a meu ver, não teria sido bem sucedido.
O que não significa que sua desmoralização e punição, sempre menores do que lhe são devidas se comparadas com os efeitos nefastos e talvez irrecuperáveis de sua atuação diabólica, seja o álibi para que todos os outros golpistas sejam perdoados e liberados para se rearranjar com outra estratégia - porque esta tem sido a história do país, nenhuma novidade aqui também, o que impõe rupturas que cabe às esquerdas bancarem para sairmos desse loop infernal.
Fernando Moro não pode ser Fernando Collor - e até acho injusta a comparação, pois o Collor recentemente revelou, ou se encenou é um tremendo ator, pruridos morais e senso de justiça de que o rábula nunca será capaz.
Não sei se cabe aos divulgadores das denúncias fazer esse papel, afinal, são jornalistas e devem se ater a sua função.
Mas certamente cabe a todos os outros jornalistas e cidadãos responsáveis manter a disputa narrativa e ideológica que é o cerne da luta histórica: do que as elites são capazes para manter o povo incapaz de exercer seu poder de maneira livre e consciente? E qual o papel de cada um de nós nessa história?
O rábula só seria um bode expiatório se tivesse alguma ingenuidade e tivesse de fato sido usado pelas elites, nacional e internacionais. Não é o caso. Ele será no máximo um mau jogador, que achou que estava com a bola toda e descobriu que seus parceiros eram mais pérfidos do que sua ambição, tão desmedida que se tornou suicida, poderia imaginar.
E ele não faz o que faz - sim, continua fiel serviçal dos chefes do Golpe - por ambição apenas de ser ministreco do STF, os planos POLÍTICOS dele e de sua gangue, que não sei se os vazamentos chegarão a mostrar, eram de se tornar a força social - não apenas política - mais importante dos próximos anos, como guaidós empossados por dentro das instituições - ai, quem fala mal da Venezuela, o povo de lá dá um vareio de bola nos brasileiros em termos de consciência e resistência -, e como disse um comentarista de quem não recordo o nome neste GGN, ou um fujimori, bem ao estilo USamericano de invadir e pilhar - ainda não vi a reportagem, mas parece que em Honduras o povo se levanta contra o Golpe que lá iniciou, há 10 anos, a ofensiva USeira para recuperar sua posse e propriedade da América, seu Quintal-latrina.
Toda guerra só é vencida quando há a vitória da ética sobre a barbárie, da aceitação coletiva de limites e o estabelecimento de processos de reparação e de julgamento dos envolvidos. Isso não houve aqui, nunca. E nossa história é uma mal contada sequência de guerras. Não é de 1902 o livro Os Sertões, que narra a guerra, talvez primeira da república proclamada por militares em 1889, contra a resistência popular?
E por que não tratamos esses episódios da história do Brasil como guerras? Se não foram guerras, foram o quê?
O Golpe é uma guerra, surda, cínica, violenta, dissimulada, lenta e humilhante, mas não é um processo histórico "normal", dentro dos limites civilizados da democracia burguesa ilusionista e nunca iluminista, como muitos ainda tentam justificar (fui obrigada a ler douto psicanalista insinuar, ainda que não conheça seus argumentos considero um malabarismo retórico de quem pretende ser justo "estatisticamente" dividindo culpas e castigos, dizer que o antipetismo tem laivos de desejo de justiça...) o impeachment e toda a virulência antipopular simbolizada - e que para melhores efeitos midiáticos e psicológicos, concentrada na figura de Lula como se, ele sim, um bode expiatório do ódio de classe nessa porra de país, como se o problema fosse ele e não a guerra surda entre ricos e pobres sempre dissimulada debaixo dos panos nessas terras infelizes e desgostáveis - em Luiz Inácio LULA da Silva e em qualquer da esquerda ou mesmo direita, que ouse ser menos perverso com a desigualdade patológica que nos constitui como ENGA-NAÇÃO.
Se o Brasil é o país do futuro, explica-se a emergência climática e o apocalipse. Talvez insanidade seja mesmo acreditar que uma espécie que constrói racionalmente sua destruição mereça ser o centro da vida no planeta. Será que a verdadeira natureza humana é o caos perverso e não a criatividade amorosa? Será que os bárbaros têm razão e os utopistas lutam uma guerra perdida? Será que o eixo de gravidade da humanidade é o mal e não o amor e um senso atemporal de justiça?
Hoje acordei com vontade real de ir para outro planeta, mas até isso saiu da imaginação lúdica dos malucos belezas e foi parar nas mãos de bilionários fdp. O que restará àqueles que não se rendem à filotanásia (ontem chamei de filosofia, incorretamente) ocidental, o capitalismo mais que teoria econômica, lei de talião social? Se até a imaginação foi cooptada... E não se sabe mais a diferença entre o real e o fictício, a suspensão da descrença se torna desnecessária. E?
Paul Auster - Por que você precisa de histórias
https://www.youtube.com/watch?v=UJS3i4XoEds
Sampa/SP, 26/06/2019 - 13:45
"...A cada dia que passa, seu governo mais se isola, mais nítidos ficam os sinais de descontrole sobre a economia e o isolamento do país no cenário global. Salva-se apenas pelo antilulismo.
Mas isso é tema para outro xadrez."
O xadrez em questão deveria ser o pós-Lula. Como as forças do país se aglutinarão quando ficar claro que não há mais a possibilidade de volta de Lula ao poder.
Caro Nassif. Moro não é nem pode ser bode expiatório. Na cena mitológica, bode expiatório é um bode, isto é, inocente, sem nada a ver com os pecados dos humanos. E moro pode ser muita coisa, menos inocente. Portanto, não é bode expiatório.
O conceito correto é de "boi de piranha". Joga-se um boi para as piranhas, e enquanto elas comem a presa, a boiada atravessa o rio, salvando-se todos (menos o boi de piranha, claro).
Moro é boi de piranha, Nassif.
Diário do Brasil Fascista - junho de 2019
O Supremacismo Bronco: Algumas Considerações
E assim vamos seguindo na Terra Brasilis, sob as botas de Bolsonaro e sua trupe MM (milicianos e milicos). A degradação institucional, o autoritarismo, o colapso da economia, o aumento exponencial da miséria e violência, são tratadados por muitos com a mesma resignação que o apocalipse climático, a velhice e a morte. Recalca-se o saber de tudo isso. Toca-se a vida cotidiana como se nada de alarmante estivesse acontecendo.
Expostas as vísceras da Operação Lava Jato, seria de esperar que ao menos os setores mais informados da sociedade brasileira já não pudessem desconhecer ativamente o que todos, no fundo, já sabíamos – pelo acúmulo gritante de evidências: a farsa em que consistiu a pretensa cruzada moralizadora de moros e dalanhóis. Traduzindo, para os menos avisados: a corrupção bilionária de uma gangue incrustada no Judiciário que, provavelmente a soldo de um Império estrangeiro, arruinou o Brasil e viabilizou a eleição de um fascista, pretextando combate (seletivo) a corrupções muito menores que sua própria (e não comprovadas, para dizer o mínimo, no caso Lula).
Setores expressivos de elite e classe média, contudo, recebem as denúncias do Intercept com suspeita, desinteresse, apatia – quando não repúdio em bloco. Aqueles diálogos simplesmente não podiam ter sido divulgados! Aquelas falas obscenas têm que ser falsas! Mesmo autênticas e estritamente referidas a temas de âmbito público (e não exposição sensacionalista de estripulias privadas), sua revelação é tratada como um crime. Por que? Porque, para muitos, são verdades “criminosamente” inconvenientes.
Outros, incomodados pela própria consciência da cumplicidade – ativa ou passiva – na sustentação da farsa a jato e eleição de Bolsonaro, buscam desesperadamente um álibi, uma transferência de responsabilidade. Exigem “auto-crítica do PT”, ao invés de fazer a própria auto-crítica. Ora, imputar a um partido democrático de centro esquerda (que certamente nunca foi “santo”) a culpa pela própria demonização, pela prisão de sua maior liderança, pelo golpe de Estado que sofreu, equivale a culpar os judeus por Auschwitz - afinal, judeus também não são santos; alguns na época eram mesmo narigudos e avarentos; alguns até colaboravam com os nazistas! - ao invés de responsabilizar-se por ter apoiado Hitler (Bolsonaro)... ou ter votado nulo, porque o único adversário capaz de barrar a eleição de Hitler (Bolsonaro) era do PT (Haddad).
O antipetismo foi cevado pelas elites e sua grande mídia, ferozmente, anos a fio. Cresceu e multiplicou-se. Mas suas raízes vêm de longe. É herdeiro do escravismo, do coronelismo, do conservadorismo. Quer preservar uma ordem radicalmente excludente, na qual o conforto material e espiritual de alguns supõe a existência de outros em condição subalterna, sub-cidadã.
Não é preciso ser milionário para querer conservar uma hierarquia excludente; basta acreditar-se situado qualquer degrau acima de um estrato considerado inferior, e aferrar-se a tal “distinção”. O fenômeno do “pobre de direita” sustenta-se num supremacismo minimal, cruento como qualquer outro. Se sou pardo, posso preferir a manutenção da diferença e vantagem que tenho em relação ao negro ao direito de ser tratado como igual ao branco. Se moro na parte nobre da favela, posso proclamar a minha distinção essencial dos “vagabundos” que moram na parte mais pobre. Se sou escravo, posso preferir continuar tendo o direito a ter escravos também (escravos podiam ter escravos no Brasil antes de 1888) a lutar pela abolição – mesmo que eu (ainda!) não tenha adquirido os meus cativos, ou comprado minha alforria!
Jessé de Sousa fala do ódio que as elites nutrem contra os negros e pobres. Concordo com ele; mas acrescentaria certas nuances a seu argumento. As “elites” são, em primeiro lugar, um lugar imaginário, não necessariamente alicerçado em renda, cor da pele, capital material ou simbólico. De elite somos todos os que absorvemos esse ethos supremacista “bronco” (mais até do que “branco”), já que tosco e insabido: o direito supostamente “natural” de conservar semelhantes em posição subalterna. O direito a uma “distinção” congênita, irredutível - correlato à conservação de um estamento suficientemente numeroso de concidadãos que não tenhamos de tratar como sujeitos de humanidade plena, dignidade ou direitos iguais aos nossos; ou seja, que possamos tratar… como objetos.
Não que odiemos, sempre e necessariamente, esses sub-cidadãos (“peões”, “cabras”, “vagabundos”, “favelados”, “crioulada”) ... Podemos até tratá-los com educação, piedade, caridade (“noblesse oblige”!). Guimarães Rosa registrou o carinho que alguns sertanejos dedicam a seus cavalos e seu gado. Salvo exceções (casos patológicos sempre existem – alguns coronés e vaqueiros têm gosto no uso gratuito das esporas!), só odiamos os cavalos que empacam - ou pior, que nos derrubam... de nosso supremacismo bronco.
Um engenheiro de classe média, com quem tive negócios certa vez, disse, candidamente, acerca dos operários da construção civil: “Peão é igual cachorro. Come, dorme, trepa… só não pensa.” Sua voz não ressoava ódio - só um doce e tranquilo desprezo; um regozijo sutil pela abjeção atribuída ao subalterno, que lhe reassegurava o supremacismo “bronco”. Simplesmente referendava uma premissa essencial da ordem hierárquica excludente sobre a qual provavelmente sustenta a própria identidade, seu mais íntimo sentimento de si como pessoa… “distinta”.
Essa, ao meu ver, é a raiz mais profunda do anti-petismo em geral, e do ódio ao Lula em particular. Lula tem o péssimo hábito de incluir, em todos os discursos que dirige à ralé, uma frase fatal: “Nós não vamos mais baixar a cabeça!” Ora, tal frase é uma afronta ao supremacismo bronco. Se os subcidadãos que asseguram meu conforto espiritual como um cidadão “distinto” resolvem comportar-se como iguais a mim em dignidade e direitos, sinto-me aviltado e degradado. Fico nu; sou despido da vestimenta protetora que a submissão, o reconhecimento de minha superioridade congênita e irredutível, o temor reverencial dos subalternos, representam para mim.
Reconhecer nossa interdependência de destinos como sujeitos, nossa igualdade radical na diferença; reconhecer que nossa dignidade é congenitamente a mesma, na medida em que partilhamos a mesma condição de falantes, é um exercício necessário de resistência ao supremacismo bronco. Bobo, canalha e vil, o ordenamento imaginário do mundo numa hierarquia excludente costuma ser teimoso e inadvertido como um cacoete – mas muito mais mortífero e suicida em seus efeitos. Corremos o risco de afundar, individual e coletivamente – como classe, país, espécie humana – se não conseguirmos largar o peso de nossa “distinção” imaginária, a estupidez e a inviabilidade a que ela nos condena. Resta indagar se estaremos à altura desse desafio.