A família Bolsonaro e o feixe de gravetos, por Sebastião Nunes

Uma fábula velha-nova, que chega ao ponto de marcar a data de desencarnação do antipresidente e do início de nossa alegria terrena.

A família Bolsonaro e o feixe de gravetos

por Sebastião Nunes

Jair Messias Bolsonaro sentiu, certo dia, que a sua saúde estava abalada e que o tempo na antipresidência parecia contado.

Pontadas no peito, constante falta de ar, tonturas cada vez mais frequentes – tudo isso só podia significar uma coisa: doença braba. Dor de cabeça não tinha, pois, como propagandeavam amigos e inimigos, dentro de sua cabeça nada havia. Era um oco só. Um vazio de dar dó, murmuravam eles, e Jair Messias fazia de conta que não ouvia.

– Ouvia, ovia ou uvia? – perguntou para Regininha Duarte, secretária especial para assuntos de cultura, que andava bestando ali perto.

– Não sei, chefe – ripostou a sabichona risonha. – Nunca consegui aprender essa tal de gramática latina. Pergunta pro Weintraub, aquele gostosão da educação.

– Deixa pra lá, Regininha – contentou-se Jair Messias. – Melhor tocar o barco do jeito que for possível. Fica sendo uvia mesmo.

(Continuando, depois de tão erudita manifestação de ignorância:)

Além do mal-estar generalizado, que não o deixava descansar, tinha de enfrentar uma rebelião crescente, tanto de ministros quanto do congresso e de figuras importantes dentre os apoiadores, infiltrados na indústria, no comércio, nos bancos, no judiciário, nas igrejas velhopentecostais, no exército, na polícia militar, nas milícias…

Tudo isso nada prenunciava de bom. Portanto, chamou os filhos, que o ajudavam na árdua tarefa de destruir o país.

– Garotos – disse ele aos três rapagões –, acho que desta vez eu não escapo.

– Que é isso, pai! – disse o 01.

– Não fala assim que dá azar – disse o 02.

O terceiro, que atendia por 03 e era muito burro, não disse nada.

– Vão lá no mato e cada um me traga um graveto.

Os três se olharam em silêncio, como que pensando “o velho tá mal mesmo”.

Saíram e daí a pouco voltaram, cada qual segurando um galho seco de árvore.

– Muito bem – disse o pai. – Agora, 01, quebra o seu graveto.

Plec, fez o 01 sem nenhum esforço.

– Você agora, 02.

Plec.

– 03?

Plec. Pelo menos para quebrar galho o 03 servia.

– Beleza. Agora, me tragam três galhos bem grossos.

Os rapazes se entreolharam, mas, acostumados a obedecer aos comandos do pai, saíram de novo e trouxeram três galhos bem grossos.

Antes de entrar no quarto de Jair Messias, 01, que era o mais rebelde dos três, sussurrou para os outros:

– Se ele pedir outros galhos mais grossos do que estes, eu não vou buscar.

– Shshhhh – fez o 02, que não era rebelde como 01 nem tão burro quanto 03.

– 01, 02 e 03 – disse o velho, que perdia as forças. – Vejam se vocês conseguem quebrar os três galhos juntos.

– Juntos como? – perguntou 03, de dentro de sua burrice. – Nós três juntos?

– Não, sua besta! – gritou o velho irritado. – Cada um pega…

– Já sei, já sei! – compreendeu 01. – Então juntou os galhos e tentou quebrá-los. Não conseguiu.

Chegou a vez de 02, que fez o maior esforço, mas também não conseguiu.

Por último, percebendo que era bobagem fazer força, 03 só fingiu que tentava e logo desistiu, pois, além de ser o mais burrinho, era também o mais fraquinho dos três.

– Filhos – disse o velho pai, já quase sem forças. – Que esta seja minha última lição para vocês. É fácil quebrar um galho só. Mas três juntos, é fogo.

Ninguém entendeu nada, embora o velho pai, já um pouco perdido nas brumas da incoerência, tentasse fazê-los compreender que ou se uniam ou estariam fodidos.

Naquela mesma noite, rolando de dor na cama, Jair Messias esticou as canelas. A única pessoa a chorar sua morte foi a serelepe e velhusca Regininha Duarte, chorosa como nos tempos em que foi a “namoradinha do Brasil”, cruzes!

O desenlace se deu no dia 14 de julho de 2020, data da queda da Bastilha.

Panelaços pipocaram espontaneamente em quase todas as capitais brasileiras e, para espanto da imprensa internacional, em vários outros países do mundo.

No dia seguinte, como ninguém suportasse a horrível fedentina, fincaram um espeto de pau-preto no coração do defunto, enfiaram o corpo num saco de farinha, prenderam bolas de ferro em suas pernas e o lançaram no meio do Lago Paranoá.

No céu, centenas de urubus procuraram e procuraram em vão.

No mesmo dia 15, o povo brasileiro começou, em pleno mês de julho e por conta própria, um verdadeiro carnaval que, a partir de Recife, São Luís, Olinda e Salvador, se espalhou por todo o país, durando quatro dias e passando a ser comemorado todos os anos, daí em diante, como o “Carnaval da Democracia contra a Estupidez”.

Quanto a 01, 02 e 03, fugiram para o Exterior, e nunca mais se ouviu falar deles.

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