A galinha caipira de ovos vermelhos e o tamanduá-bandeira de língua comprida

Por Sebastião Nunes

Numa fazendola às margens do rio São Francisco, propriedade do renomado fazendeiro Jeca Tatu, moravam, desde tempos imemoriais, uma galinha caipira ruiva e um tamanduá-bandeira marrom-e-branco.

            Eram colegas de trabalho. A galinha botava ovos vermelhos e criava pintos, o tamanduá comia formigas. Não recebiam salário (Jeca Tatu era pão-duríssimo), mas para esses trabalhadores rurais, de escassas necessidades, casa e comida eram suficientes.

            – Bom dia, senhora galinha – cumprimentava o tamanduá. – Bela manhã, não lhe parece?

            – Muito bom dia, senhor tamanduá – respondia a galinha. – Tem passado bem?

            – Muito bem, obrigado, senhora galinha – ripostava o tamanduá. – Espero que sua produção de ovos, omeletes e pintos esteja correndo às mil maravilhas.

            – Sim, senhor tamanduá, vai tudo muito bem – discreteava a galinha. – E o senhor, tem encontrado formigas com fartura?

            – Certamente, senhora galinha – respondia o tamanduá. – De mesa farta não posso me queixar. Além de deliciosas formigas, completo o cardápio com suculentos cupins que, por serem docinhos, propiciam excelentes sobremesas.

PAPO ATRAVESSADO

            Como se vê, o diálogo de nossos amigos era tão raso quanto o São Francisco na seca, mas corria agradavelmente. Chato era quando estavam enfezados.

            – Gorducha! – agredia o tamanduá, de focinho em pé.

            – Narigudo! – retrucava de bico empinado a galinha.

            Fosse como fosse, seguiam caminho, pouco importando ao tamanduá se a galinha sofria de distúrbios uterinos e nada ligando a galinha se o tamanduá padecia de garganta profunda irritada.

 

PAPO DE MÉDICO

            Convivendo e trabalhando juntos há tanto tempo, o normal, porém é que fossem amáveis e prestativos, como se percebia nas mútuas atenções.

            – Cólicas menstruais de novo, senhora galinha? – adivinhava o tamanduá. – Por que não faz uma garrafada de crista-de-galo? É tiro e queda. Minha mãe usava sempre.

            – Para garganta dolorida, senhor tamanduá – remediava a galinha –, basta pincelar com erva-de-santa-maria bem socada com mastruço e pimenta-malagueta. Meu pai nunca perdeu o cocoricó.

 

PAPO DE MÃE PARA FILHOS

 

            Certa manhã, contudo, estava a galinha de pá virada. Arrumou a trouxa, meteu num cesto duas dúzias de ovos caipiras vermelhos, chamou os sete pintos e cacarejou:

            – Meus filhos, estamos no mato sem cachorro – começou ela. – Com a falta de peixe no rio, que está um deus nos acuda de tão vazio, Jeca Tatu decidiu que vai comer toda a criação, galinhas, patos e marrecos. Aliás, pra que pato e marreco se não tem lagoa? Se fosse razoável, comeria primeiro patos e marrecos e só depois pensaria em nós. Mas não. O velho muquirana quer se empanturrar com nossa carcaça.

            – Está certo, mamãe – concordaram em uníssono os pintinhos.

            – Por causa disso, e como não sou besta, decidi que é hora de mudar – continuou a galinha. Vamos pra São Paulo. Do mato para a metrópole. É preciso radicalizar, como dizia Mike Jagger em seus monólogos com o capeta. Pensar pequeno é besteira. Levaremos uns dois meses, mas chegaremos lá.

            – Beleza, mamãe – aprovaram novamente os pintinhos. – Estamos com a senhora e não abrimos.

            – Ótimo, meus filhos – concluiu a galinha. – Nem só de teimosia vive o pobre.

 

DESPEDIDA ENTRE VIZINHOS

            Então saíram eles, alta madrugada, a galinha caipira ruiva marchando na frente, os pintinhos espertos saltitando atrás.

            Antes da porteira encontraram, é lógico, o tamanduá, que se espantou com a comitiva:

            – Que está fazendo, senhora galinha? Por que esse jeitão de retirante?

            – De mudança pra São Paulo, senhor tamanduá. Ficou impossível viver na roça, ainda mais com Jeca Tatu ameaçando nos comer.

            – Tudo bem, senhora galinha – ponderou o tamanduá. – Se é assim, tudo bem. Mas porque não se muda pra Belo Horizonte, que é uma capital menor, pra ir se acostumando?

            – Radicalizar é preciso, senhor tamanduá – respondeu a galinha. – Como dizia Lenin, a doença juvenil do esquerdismo é o comunismo. Ou vai ou racha!

            – Se é assim, boa viagem, senhora galinha. Quanto a mim, prefiro viver aqui no meu canto, pois ninguém me incomoda, só de vez em quando sofro uma ferroada de saúva. Mas não deixe de mandar notícias pelo pica-pau.

            – Mandarei sim, senhor tamanduá – retrucou a galinha, já saudosa e um tanto quanto arrependida. – Quem sabe, o rio enchendo, a gente volta?

 

NA CIDADE GRANDE

            Dois meses depois, não me perguntem como, a galinha ruiva e seus pintos se viram na Avenida Paulista, encrencados num tremendo bafafá carnavalesco. Sem nada entender, a galinha protegeu os filhotes num canto de parede e foi assuntar.

            – Com licença, meu caro senhor – disse educadamente a um cavalheiro de farda, dragonas, medalhas e revólver na mão, que lhe parecia uma espécie de sabichão. – Pode me informar onde encontro abrigo para mim e meus filhinhos?

            O citado cavalheiro arregalou os olhos para a galinha ruiva, viu os ovos vermelhos que apontavam do cesto, e não titubeou:

            – Comunista! – berrou ele. E sem dizer mais nada esborrachou galinha, pintos e cesto com violentos golpes de cassetete, transformando tudo num mingau só.

            – Ficou maluco? – gritou outro cavalheiro, com certeza hierarquicamente superior, devido à maior profusão de enfeites. – Não viu que são carnavalescos fantasiados?

            – Desculpa, chefinho – lamentou-se o primeiro cavalheiro com um risinho amarelo. – É que ando com tanta saudade de baixar o cacete nos comunas que não resisti.

 

            MORAL DA HISTÓRIA

            Quem nasce para autoridade nunca perde a oportunidade.

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