A incrível história de vida da cineasta Sil Azevedo virou poesia, por Carlos Motta

A incrível história de vida da cineasta Sil Azevedo virou poesia

por Carlos Motta

A cineasta Sil Azevedo vai lançar seu livro de poesias “Filho de Prostituta” nesta sexta-feira, a partir das 18 horas, no Espaço Cultural Olho da Rua (Rua Bambina, 6, Botafogo, Rio). O livro traz 28 poemas escritos por ela dos 15 aos 42 anos de idade, e que traduzem fatos e sentimentos que não tinha coragem de compartilhar com outras pessoas: afinal, a sua história de vida é bastante incomum.

Sil cresceu na periferia de Japeri, município da região metropolitana do Rio de Janeiro, numa família bem humilde. Aos 15 anos, perdeu sua mãe e, literalmente tudo o que tinha. Teve de deixar a casa onde morava e a única coisa que levou consigo foi um caderninho dado pela mãe. Foi acolhida por uma família que morava na Tijuca, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro. Trabalhou como doméstica, e em troca teve seus estudos pagos pela família. Nesse período, a jovem negra se descobriu homossexual e se apaixonou por uma garota. 

Frente ao preconceito e à homofobia tão presentes na sociedade, Sil fez da introspecção e do silêncio seus maiores companheiros – e o combustível para a criação literária. O livro que vai lançar nesta sexta-feira revela esse período de sua vida: em cada poema, Sil inseriu narrativas sobre os episódios, facilitando o entendimento do leitor e da obra como um todo. 

Já adulta e cineasta premiada, ela reencontrou, 42 anos depois, a garota por quem foi apaixonada durante toda a vida, e isso a fez tomar a decisão de resgatar os escritos e torná-los públicos, encerrando de vez o hábito de se esconder nas linhas daquele caderno. 

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“Vinte e oito anos depois eu finalmente me convenci a confrontar meu medo, me libertar da fantasia, me despedir das vidas que não me pertenciam e assumir definitivamente quem eu realmente era, pois afinal de contas a vida não deixou de acontecer só porque eu não queria participar dela, e os anos visíveis nas marcas em meu rosto me mostram todos os dias que se eu insistisse em continuar me escondendo, em breve, não haveria mais tempo para que eu pudesse ser absolutamente mais ninguém”, diz Sil.

Como um instrumento de sobrevivência, a literatura foi um escape para ela. “Não tinha acesso a nenhuma forma de lazer que não fosse as viagens imaginativas que os livros proporcionavam”, comenta Sil, que descobriu seu interesse pela literatura em sua primeira visita à Biblioteca Nacional, no centro do Rio, ao se deparar com a poesia de Camões. “Esse encontro com Camões me fez descobrir que a poesia poderia falar por mim e representar meus sentimentos, porque aquela poesia era exatamente o que eu gostaria de dizer à minha mãe naquele momento, e isso me levou a usar definitivamente a poesia como forma de expressão, e desde então, todos os diários, cartas, lembretes e roteiros que escrevi, possuem uma linguagem extremamente poética.”

Ao se aceitar enquanto uma mulher homossexual, negra e de origem humilde, Sil Azevedo traz à tona a discussão elementar dos direitos sociais e individuais, e propõe, por meio da publicação de suas revelações mais íntimas, questionar os padrões que incitam o preconceito e a negação das diferenças. “Existe uma grande expectativa de que pessoas como eu voltem a se esconder da sociedade por medo de ser reprimidas, e espero que esse livro faça com que as pessoas entendam que nada pode ser mais violento do que ter que se esconder do mundo, se condenar a uma solidão perpétua para continuar respirando, como se respirar fosse sinônimo de estar vivo.”

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Sil Azevedo começou sua carreira profissional como repórter-fotográfica do jornal “Hora H”, no Rio de Janeiro, até se mudar para Nova York, onde cursou cinema na Academia de Cinema de Nova York. Trabalhou por seis anos com direção e produção de programas de foco político e questões sociais da comunidade, no canal de TV LMC.

Sua experiência como repórter-fotográfica no Brasil a motivou a estabelecer uma conexão entre o seu trabalho e a realidade social em que vivia, levando-a  a ser premiada pela direção do documentário “Future Filmmaker” sobre o desafio do processo de adoção de quatro meninos detidos em um presídio para menores infratores, e pelo documentário “The Journey”, que acompanhou toda a jornada de imigrantes ilegais contra as leis de imigração americana, de Nova York até a Casa Branca.

De volta ao Brasil, Sil Azevedo foi responsável pela montagem dos filmes “O Veneno Está na Mesa II”, de Silvio Tendler, premiado no Festival Internacional do Meio Ambiente em 2015, e “A Arte do Renascimento”, de Noilton Nunes, selecionado para o 46º Festival de Brasília em 2013, além de dirigir a fotografia do filme “Sigilo Eterno”, de Noilton Nunes, selecionado no Festival Internacional de Cinema Político da Argentina e no Festival Socioambiental de Nova Friburgo, em 2017.

Ainda em 2017 foi triplamente premiada com seu curta-metragem “Enquanto Canto”, nos festivais E.M.A no Espírito Santo, no Festival Cine Tamoio de São Gonçalo e no Festival Brasil Internacional de Cinema no Rio de Janeiro, também selecionado pelos festivais de cinema de Caruaru e Circuito Penedo de Cinema de Alagoas.

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