A matilha, por Teófilo Dias

Joel Sartore fragmento

Enviado por Felipe A. P. L. Costa

A matilha

Por Teófilo Dias [1]

 

Pendente a língua rubra, os sentidos atentos,

Inquieta, rastejando os vestígios sangrentos,

A matilha feroz persegue enfurecida,

Alucinadamente, a presa malferida.

 

Um, afitando o olhar, sonda a escura folhagem;

Outro consulta o vento; outro sorve a bafagem,

O fresco, vivo odor, cálido e penetrante,

Que na rápida fuga a vítima arquejante

Vai deixando no ar, pérfido e traiçoeiro;

Todos, num turbilhão fantástico, ligeiro,

Ora, em vórtice, aqui se agrupam, rodam, giram.

E, cheios de furor frenético, respiram;

Ora cegos de raiva, afastados, dispersos,

Arrojam-se a correr. Vão por trilhos diversos,

Esbraseando o olhar, dilatando as narinas.

Transpõem num momento os vales e as colinas,

Sobem aos alcantis, descem pelas encostas,

Recruzam-se febris em direções opostas,

Té que da presa, enfim, nos músculos cansados

Cravam, com avidez, os dentes afiados…

 

Não de outro modo, – assim meus sôfregos desejos,

Em matilha voraz de alucinados beijos,

Percorrem-te o primor das langorosas linhas,

As curvas juvenis, onde a volúpia aninhas,

Frescas ondulações de formas florescentes

Que o teu contorno imprime às roupas eloquentes;

O dorso aveludado, elétrico, felino,

Que poreja um vapor aromático e fino;

O cabelo revolto em anéis perfumados,

Em fofos turbilhões, elásticos, pesados;

As fibras sutis dos lindos braços brancos,

Feitos para apertar em nervosos arrancos;

A exata correção das azuladas veias

Que palpitam, de fogo intumescidas, cheias…

– Tudo a matilha audaz perlustra, corre, aspira,

Sonda, esquadrinha, explora e anelante respira,

Até que, finalmente, embriagada e louca,

Vai encontrar a presa – o gozo – em tua boca.

*

Nota

[1] Teófilo [Odorico] Dias [de Mesquita] (1854-1889). O poema, originalmente publicado em livro em 1882, integra a coletânea Poesia contra a guerra (2015).

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