A realidade fantástica brasileira e seus personagens, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Ilustração Editora Leya

A realidade fantástica brasileira e seus personagens

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Lula foi condenado apesar de nunca ter recebido a posse e a propriedade do Triplex. A esposa de Eduardo Cunha foi absolvida mesmo sendo titular de contas-correntes no exterior onde o dinheiro sujo do marido foi depositado. Luis Nassif foi condenado porque desonrou a imagem de um criminoso que está preso. O filho de uma desembargadora foi solto apesar de estar na posse de mais de 100 quilos de maconha. Ninguém foi denunciado por causa dos 450 quilos de cocaína no helicóptero do Perrela (a justiça impediu um blogue de chamar a aeronave de helicocca). Delações mentirosas contra o PT resultam em processos e condenações, delações oferecidas contra tucanos paulistas são sumariamente rejeitadas. Por causa de um Twitter eu mesmo fui tratado como terrorista pela Polícia Federal.

O Brasil se transformou uma Caixa de Pandora. Isto começou a ocorrer quando Lula resolveu criar o CNJ e abrir a Caixa Preta do Judiciário. Criado a partir de um punhado de garotos ambiciosos e arrogantes o MBL se tornou uma força expressiva no cenário político brasileiro. Sérgio Moro afundou o submarino nuclear brasileiro antes que ele fosse lançado no Atlântico para proteger nosso mar territorial. Michel Temer transformou o nosso petróleo, no petróleo “deles”. E até uma estatal da Noruega está comemorando a montanha de petrodólares que ganhou do usurpador. Universidades públicas são fechadas, o gasto na construção de presídios aumenta.

A realidade brasileira, especialmente aquela que tem sido criada “com o STF, com tudo”, como disse Romero Jucá, se tornou digna de um conto fantástico de Kafka, Murilo Rubião e Jorge Miguel Marinho. Portanto, creio que chegou o momento de discutir aqui as características das novas personagens que ocuparam o cenário nacional.

Aristóteles foi um dos primeiros teóricos a debruçar-se sobre a questão da personagem. Partindo do conceito de “mimesis”, ele enfatizou a semelhança entre os seres fictícios e o homem. Além disso, como assinala Fernando Segolin, o Estagirita “fala-nos também de uma personagem possivelmente humana, dotada de uma humanidade ideal.” [1] Como a semelhança entre a personagem fantástica e o homem ou entre ela e uma humanidade ideal só é possível depois de um elaborado processo de associações através das quais o leitor decodifica a metáfora do texto, desde logo percebe-se a inadequação do conceito aristotélico para defini-la.

O ser fantástico representa em si mesmo uma quebra das expectativas, uma subversão da “mimesis”. Para entendê-la, será, portanto, necessário compreender esta subversão. Tratando das interações entre retórica e ideologia, Umberto Eco assinala que “toda verdadeira subversão das expectativas ideológicas é efetivada na medida em que traduz em mensagens que também subvertam os sistemas de expectativas retóricas. E tôda subversão profunda das expectativas retóricas é também um redimensionamento das expectativas ideológicas. Nesse princípio se baseia a arte de vanguarda, mesmo nos seus momentos definidos como “formalista”, quando, usando o código de maneira altamente informativa, não só o põe em crise, mas obriga a repensar, através da crise do código, a crise das ideologias nas quais ele se identificava.” [2].

Eco nos dá uma pista importante para entender a personagem fantástica. Sua inadequação do conceito de “mimesis” aristotélico denuncia tanto a crise deste conceito, como também a crise da própria língua. Incapaz de exprimir a mensagem do artista em razão de sua coerência, a língua é subvertida através da quebra de expectativas e o fantástico é instaurado no texto através da personagem anti-mimética. Rompendo as expectativas do discurso, ela questiona profundamente a idéia que o homem tem de si mesmo. Nesse sentido, pode-se dizer que a literatura fantástica é altamente ideologizada em virtude das características da personagem do gênero. Aliás, é o trabalho de construção da personagem que confere a marca distintiva da literatura fantástica.

O conceito de personagem formulado por Aristóteles é capaz de ajustar-se às mais diversas personagens literárias. Qualquer que seja a escola, a personagem sempre refletiu ou procurou refletir um aspecto do homem ou de uma humanidade ideal. Tanto D. Casmurro de Machado de Assis, quanto Werther de Goethe e Otelo de Willian Shakespeare retratam o homem apaixonado. O João da Paz de Érico Verisimo também. Só que o último é um não homem. Um morto que se levanta do caixão e retorna a Antares para denunciar como foi morto por tortura e tentar proteger a esposa e o filho que está por nascer. Assim, não é possível estabelecer qualquer relação entre ele e Bentinho, Werther e Otelo.

O amor que João da Paz sente por Rita Paz é de uma natureza distinta do experimentado pelas  outras personagens citadas. O amor de que fala Érico Verisimo é capaz de vencer a morte. É óbvio que isto se trata de uma metáfora, afinal a morte é absoluta e ninguém pode dela retornar. Todavia, Verisimo quer nos dizer que existem sentimentos mais fortes, mais delicados que o desejo de Werther por Carlota ou que o ciúme de D. Casmurro por Capitu e de Otelo por Desdemona.

É de sentimentos “mais que humanos” que a personagem fantástica nos fala. João da Paz quebra as expectativas que temos do amor. Seu amor por Rita Paz é capaz de transcender o desejo e o ciúme, por isso mesmo, só poderia partir de um morto. E é aqui que realidade e ficção se interpenetram no texto. Afinal, para amar é preciso despojar-se do egocentrismo e isso equivale a morrer de alguma forma. Verissino poderia muito bem tratar do tema através de uma personagem mimética. Mas será que fazendo isto o texto surtiria o mesmo efeito?

Geralmente considera-se plana a personagem que recebe do meio “sua linguagem, seus gestos, seu porte, seus hábitos e mesmo seus modos de pensar e sentir. Por isso, funciona como uma espécie de índice social.” [3]. A personagem redonda, ao contrário, obedece aos seus próprios impulsos e apresenta modificações ao longo da narrativa.

Esta distinção, útil para classificar as personagens miméticas, é um tanto problemática quando tratamos de personagens fantásticas. É claro que as mesmas podem representar um padrão, mas apenas simbolicamente. Afinal, como desde logo representam uma quebra das expectativas, sempre deveriam ser consideradas redondas.

Mesmo quando sua conduta permanece inalterada, a personagem fantástica está sujeita a transformações, como é o caso de Dona Rebeca em “A mulher azul” de Jorge Miguel Marinho. Neste conto a tensão não decorre das modificações da personagem, mas da forma como ela passa a ser vista pelos familiares à medida que muda de cor (envelhece).

Às vezes, a conduta da personagem indica que ela é aparentemente redonda. Este é o caso, por exemplo, de Dora em “O complexo de Ephedron”, do mesmo Jorge Miguel Marinho. Porém, à medida que se transforma em homem, Dora se torna aquilo que sempre foi: uma pessoa desconhecida para o esposo. Como então qualificá-la, plana ou redonda?

Analisando o papel que cada ser fictício desempenha na narrativa, Propp concluiu que “a personagem nada mais é que um feixe de funções, constituído pelos predicados que designam suas ações ao longo da intriga.” [4]. O conceito de Propp pode muito bem ser aplicado à personagem fantástica, por dois motivos. Primeiro, Propp não parte da noção aristotélica de mimesis. Todo e qualquer ser fictício, mesmo o não mimético como é o caso do ser fantástico, pode ser considerado um feixe de funções na narrativa. Segundo, este teórico não  se preocupa em qualificar as  ações das personagens para classificá-las, antes classifica-as apenas segundo as funções que desempenham no texto. Além destas duas grandes virtudes, a teoria de Propp abre caminho para um estudo mais profundo da personagem fantástica. Ele procurou identificar as funções das personagens no texto e é nele, na sua linguagem, que devemos buscar as raízes dos seres fictícios não miméticos segundo Umberto Eco.

Feito este pequeno esforço teórico, cremos ser possível esboçar uma definição provisória para a personagem fantástica. Fantástica é a personagem que rompe com o conceito aristotélico de mimesis, subvertendo as expectativas para cumprir uma função ideológica, que é obrigar-nos a repensar o homem, o mundo e  a linguagem.  Por isso, este tipo de personagem não pode ser qualificada como plana ou redonda. Estes dois conceitos são inadequados para definir suas ações, porque, como vimos, a personagem fantástica pode ser redonda quando plana e plana quando redonda.

Creio que é possível entender a fantástica realidade brasileira após o golpe de 2016 analisando os personagens que foram criados pela imprensa (especialmente Sérgio Moro e vários juízes, Eduardo Cunha, Kim Kataguiri e alguns dos delatores) utilizando o conceito literário aqui esboçado.

Construído como paladino da moralidade, Sérgio Moro corrompeu os princípios constitucionais do Direito Penal para condenar Lula. O ex-presidente mais popular do Brasil, homem que fez crescer nossa economia e influência internacional, foi desumanizado. Ele não é digno de desfrutar quaisquer direitos dentro e fora dos telejornais justamente porque questionou os abusos de Sérgio Moro no Tribunal de Direitos Humanos da ONU (conduta julgada imperdoável pelos juízes). Lula e Moro são personagens simbiônticos. Eles são dois em um: o juiz não existe sem o seu réu predileto e ex-presidente deixará de existir politicamente porque não pode ser desligado dele pelo TRF-4, STJ e STF. A natureza da ligação entre ambos é fantástica, quase mística e não foi deliberada no Brasil.

Kim Kataguiri se tornou comentarista político da Folha de São Paulo não porque é um intelectual, mas porque acostumou a destilar ódio contra o PT e a mostrar a bunda na Av. Paulista. Num momento seguinte ele se tornou moralista para se aproximar dos evangélicos. E já que estamos falando dos moralistas evangélicos, nunca é demais falar do seu líder supremo: aquele que conduziu o Impedimento mediante fraude de Dilma para depois ser condenado e preso por corrupção.

Eduardo Cunha, o facínora que tem mais direitos constitucionais que Lula, não pode ser incomodado pela imprensa. A liberdade dos jornalistas foi cerceada para que ele possa desfrutar sua boa reputação dentro da Papuda.Cunha é uma metamorfose ambulante, pois condenado e preso ele não pode ser tratado como um criminoso. 

Os delatores ora são heróis (quando mentem contra o PT), ora são vilões (quando falam a verdade sobre a roubalheira no Estado de São Paulo), pois a imprensa define o que deve ou não deve ser decidido pelo Judiciário. Isto explica a inexistência de um só critério legal e, portanto, as decisões absurdas mencionadas no início.

Alguns analistas políticos dizem que nós vivemos numa ditadura, outros falam em regime de exceção. Pessoalmente, prefiro julgar um país que afunda sem se afogar, que morre sem ser enterrado, que abdica de sua soberania com ajuda dos militares e que quer se construir esmagando seu povo, como uma imensa metáfora da negação do patriotismo. Se este “novo Brasil” não tivesse sido inventado pela imprensa sua descrição literária seria digna de um Prêmio Novel. Mas agora que a ficção se tornou realidade, a literatura não pode mais se apropriar deste personagem fantástico sem incorrer na mimese.  


[1] Personagem e Anti Personagem, Fernando Segolin

[2] A Estrutura Ausente, Umberto Eco

[3] A criação literária, Massaud Moisés

[4] Personagem e Anti Personagem, Fernando Segolin

 

BIBLIOGRAFIA

 

SEGOLIN, Fernando  –    Personagem e Anti Personagem, Cortez & Moraes Ltda., São Paulo, 1978

 

MOISÉS, Massaud    –      A criação literária, 3ª edição, Melhoramentos, São Paulo, 1970

 

ECO, Umberto           –     A estrutura ausente, Edusp, São Paulo, 1971.

 

 

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