A transposição da primeira porta, por Sebastião Nunes

Seguindo a distopia, abre-se a primeira porta, dedicada a 2020, mas ninguém entra. Jair Messias, afundado em merda, pede socorro ao policial que guarda a porta e conversa com nossos amigos.

A transposição da primeira porta

por Sebastião Nunes

Estavam todos chapados, e mais do que todos Otávio Ramos, que não esperou segundo convite para mergulhar nas drogas ofertadas com largueza por Sancho Pança.

Viajavam, portanto, na lonjura dos espaços infinitos, nossos amigos imortais-mortais-imortais, que eram Adão Ventura, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Luís Gonzaga Vieira, Manoel Lobato, Otávio Ramos e Sérgio Sant’Anna, sem contar o intrometido Sancho e os verdadeiramente imortais, São Pedro e Gabriel Arcanjo.

Deitados em fofas almofadas de macias nuvens, desbundavam nas delícias temporais inexistentes no hall de entrada da porta do Paraíso.

Foi então que se ouviu, altíssimo, o ressoar de uma trombeta, ou trompete, ou clarim, ou seja lá o que seja, que ensurdeceu momentaneamente a todos.

Abriu-se a primeira porta, que tinha por rótulo 2020, e dela surgiu a cadavérica figura de um guarda armado de submetralhadora, disparando adoidado na direção dos imortais que se amontoavam na frente do hall.

Gastou tiro à toa. Nem cócega faziam as balas nos ex-viventes.

– Pra que isso, cara? – indagou espantado o sempre curioso e intrometido Lobato. – Não sabe que atirar neles e nada é a mesma coisa?

– Força do hábito – respondeu o cadavérico. – Sou policial no Rio de Janeiro e, se não meto uns balaços a cada hora, seja lá em quem for, minhas mãos tremem.

– Mas não faz isso na Zona Sul – insinuou Vieira.

– De jeito nenhum, cara! – disse o guarda. – Tenho lá cara de retardado?

Bem que tinha, mas Vieira deixou passar.

– Só na periferia e nos morros, né? – quis saber Sérgio, que nos tempos de vivo era constante testemunha de balas perdidas pelas janelas do apartamento carioca.

– Claro, Cláudio – galhofou o da sub, apalpando o cano quente da arma.

APROFUNDANDO O TIROTEIO

– Alguma preferência? – perguntou o retinto Adão. – Gente da minha cor, por exemplo?

– Claro, meu preto – disse de lá o porta-chumbo. – Crioulo não tem grana, não tem álibi, não tem defensor, não tem nada. Se tiver documento, a gente rasga e joga no lixo. Se não tiver droga amoitada, a gente planta. Fácil. Tranquilo. Depois é só meter bala na cara do cara, pra dificultar o reconhecimento.

– Quase tudo favelado, né mesmo? – palpitou Otávio. – Ou vocês preferem os moleques de outras bandas?

– Favelado é mais tranquilo, nem inquérito tem, vale a nossa palavra contra a deles, que nunca ganham nessa queda de braço – ripostou o azarão-tiroteio, enquanto lustrava a sub-tiroteio. – Mas periferia é periferia, sabe como é, não sabe?

– Que tipo de periferia? – se fez de curioso São Pedro. – Tipo o primeiro círculo do Inferno?

– Que Inferno que nada, meu – ofendeu-se o porteiro. – No Rio é muito pior pra quem é preto e pobre. Já para os da elite que nem eu, é só diversão. Mas chega de conversa. Vão entrar ou preferem ficar aí de bobeira?

      REAPARECE O FEDORENTO

– Meu ajuda aqui, parça! – berrou lá do pântano o malcheiroso Bolsonaro, que se agarrava em tufos de capim para não afundar de vez. – Me ajuda que te nomeio meu guarda-costas preferido, ganhando R$ 25.000,00 por mês.

O porteiro, reconhecendo Jair Messias, se dispunha a ajudar o antipresidente, quando se lembrou dos boatos que corriam na tropa sobre o indivíduo.

– Que garantia você me dá? – perguntou, apontando a sub na direção do nojento sujeito sobrenadante. – Sem garantia escrita e assinada não tem ajuda. E 25 paus é pouco. Por menos de 50 não tem negócio.

– Aqui não tem papel, cara – argumentou Bolsonaro. – Nem caneta. Como posso te passar uma garantia escrita?

– Corta o braço e escreve com sangue – sugeriu o maldoso. – Escreve com o dedo num pedaço de pau e assina.

– Mas se eu cortar o braço metido neste merdalhoso pântano só vou me foder. Pego no mínimo uma infecção das brabas, quem sabe uma septicemia.

– Nesse caso, fica sem ajuda. Vai morrer aí dentro, com a boca cheia de merda.

– Mas eu sou o antipresidente da república, cara. Mereço respeito.

– Pode ser que sim, mas lá em Brasília, no meio da canalhada. Aqui você não passa de uma merda fedida.

Jair Messias não tinha escolha. Ou assinava ou dançava. Olhou para o guarda. Não havia piedade nos seus olhos. Olhou para a submetralhadora. Não havia compaixão no seu cano. Olhou para os imortais-mortais-imortais. Eles viraram o rosto e olharam para a porta que estava bem ali, indicando 2020. Eles caminharam na direção da porta.

Sem olhar para trás.

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