Afinal – e deixem de papo-furado! – a humanidade tem ou não tem futuro?, por Sebastião Nunes

Continuando a divagação de meus amigos mortos sobre o hipotético futuro da humanidade, começam eles a narrar sonhos estapafúrdios sobre o que nos espera.

Afinal – e deixem de papo-furado! – a humanidade tem ou não tem futuro?

por Sebastião Nunes

Amós Oz sumiu como surgiu: do nada. Meus amigos recém-mortos (ou nem tão recém-mortos assim, depende do ponto de vista), ficaram a ver navios, ou seja, voltaram a posar de sábios, capitaneados por Dom Quixote, o sonhador incorruptível, e Sancho Pança, o pragmático irredutível.

– Tive um sonho revelador – disse Sérgio Sant’Anna, sendo o primeiro a puxar o gatilho da objetividade. – Por causa disso, sugiro que cada um de nós conte um sonho que se revele profético sobre o nosso tema. Não parece difícil já que aqui, no Portal do Paraíso, tudo é possível e impossível soberanamente.

– Soberanamente? – estranhou o purista Luís Gonzaga Vieira, antigo seminarista e, nessa condição, dado a estranhamentos filosóficos.

– Exatamente – rebateu Sérgio. – Soberanamente.

– E por que soberanamente? – quis saber Manoel Lobato, frequentador de vielas e puteiros e quebradas.

– Porque sim – saiu pela tangente o dizente. – Para dar exemplo, começo eu.       “Sonhei que os oceanos tinham subido tanto que cobriram países e cidades como no dilúvio. As pessoas criaram barbatanas no lugar de braços e pernas, tinham escamas em vez de roupas, e trocaram a vertical pela horizontal, passando a nadar tranquila e suavemente, entrando por janelas de prédios e flutuando sobre ruas vazias de veículos. O diabo é que, nessa troca, adquiriram também o hábito de se devorarem como se de fato fossem animais marinhos. Começou uma perseguição desenfreada. Crianças eram alcançadas facilmente e comidas com prazer. Velhos, mais fácil ainda. Ninguém trabalhava: escritórios, escolas, fábricas, supermercados, restaurantes e shoppings perderam a função, já que os humanos transformados em anfíbios só tinham dois objetivos: comer e trepar. Governos desapareceram: ministros devoravam-se entre si, secretários mastigavam com prazer as carnes dos assessores e vice-versa. Depois do sexo, o mais forte comia o mais fraco e lambia os beiços de satisfação. Não havia mais poder, riqueza ou hierarquia: os novos humanos tornaram-se canibais obsessivos.”

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– Pavoroso – disse Otávio Ramos. – Imagino que o sonho acabou.

– Não – respondeu Sérgio. – O sonho continuou.

“Nas águas superficiais, iluminadas pelo sol, comedores e comidos se olhavam nos olhos antes de se atracarem. Amigos e vizinhos se reconheciam sem espanto. Logo no início do meu sonho, um amigo sorriu para o outro e por conta desse simples sorriso perdeu tempo demais, sendo imediatamente devorado. A notícia se espalhou e, daí em diante, ninguém mais perdia tempo em cumprimentos. Partiam logo para a comilança e depois, se o comido fosse, por exemplo, um primo querido, era devidamente pranteado, enquanto o comedor palitava os dentes com uma falangeta do comido até que, olhando de banda, percebia o irmão mais velho avançando ferozmente na sua direção.”

– Acabou parentesco, acabou amizade – reconheceu Adão Ventura. – De forma que passou a ser cada um por si e todos por ninguém.

– Não é isso que acontece na superfície? – indagou Sérgio. – Claro que existe um lustro forjado de práticas éticas forçadas pelas leis e sua aplicação. Quando não há lei ou não se aplicam, as coletividades parecem meu sonho.

– Tá – admitiu Vieira. – Mas você falou em águas superficiais. E nas águas profundas e mesmo nas regiões intermediárias e obscuras, o que acontece?

– Veja bem – respondeu Sérgio. – Não estamos falando do mar, mas da Terra. Meu sonho fez a Terra ser coberta pelo mar, embora só superficialmente. Não havia na Terra águas profundas.

– Tudo bem – concordou Lobato. – Por que então águas superficiais?

– É que me expressei mal – admitiu Sérgio. – Por águas superficiais entenda as iluminadas pela luz solar. Mas como nada mais funcionava e ninguém trabalhava, não havia luz elétrica, nem gasolina, nem refrigeração etc. Meu sonho continuou:

“Nas regiões obscuras, ou seja, dentro de apartamentos, escritórios, escolas etc., onde a luz chegava de alguma forma, embora tudo existisse num permanente lusco-fusco, havia uma enorme aglomeração de pessoas transitando na obscuridade, pois ali ninguém precisava se preocupar  com quem comia quem (no sentido alimentício) ou quem comia quem (no sentido sexual). Era um ecumênico pega pra capar.”

– E no escuro total, no que seria o equivalente das regiões abissais? – perguntou o curiosíssimo Otávio. – Quem preferia a escuridão absoluta?

“Na escuridão absoluta reinava a escória humana: os torturadores, os carrascos, os maus por natureza, os sádicos, os políticos oportunistas, os militares sanguinários, os corruptos – isto é, todos os que, por sua natureza infame, não prestam. E, é claro, ali também se comiam, com a mesma desconsideração pelo outro, mas com muito mais prazer. Maldade é maldade e sadismo é sadismo.”

– E depois? – quis saber Lobato.

– Aí o sonho acabou. Quem é o próximo a contar um sonho?

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“Não há outro inferno para o homem além da estupidez ou da maldade dos seus semelhantes.” (Marquês de Sade)

Sebastião Nunes é um escritor, editor, artista gráfico e poeta brasileiro.

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1 Comentário

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Carlos Brito

- 2022-06-26 11:39:18

O ser humano será (e é) o cérebro do planeta Terra. Cada um de nós representa uma espécie de célula cerebral do planeta. E agora conectados com a internet, pois, e trocando ideias e informações a aceleração das conexões neurais do planeta Terra irá aumentar em tão pouco tempo quanto menos 1 segundo. O planeta Terra, depois de longos bilhões de anos, conseguiu formar um cérebro. E isso foi tão natural, depois de todo tipo de evolução. E nós somos o cérebro dele, nós somos ele, o planeta Terra. Sim, nós somos o planeta, consciente ou inconsciente. O futuro, é a conservação da nossa casa, e a exploração espacial. E que bom que seja assim, o foco é o universo, e sua infinitude de lugares, novas Terras, e o espaço no infinito. Estamos só no começo e cada vez mais rápido.

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