Almôndegas de carne desumana ao molho de tomate cereja, por Sebastião Nunes

Aos poucos, o exército vai metendo a colher no mingau que o Brasil virou. Precisa ser profeta para adivinhar o que eles querem?

Almôndegas de carne desumana ao molho de tomate cereja

por Sebastião Nunes

A violenta explosão pegou de surpresa a turminha de imortais-mortais-imortais. As manchas de sangue horrorizavam. O sumiço de Bolsonaro nem tanto: maluco por maluco, já vai tarde.

Então viram, descendo as brumosas ladeiras, Jimi Hendrix e o inseparável parça Sancho Pança. Lado a lado, comboiavam incontáveis carrinhos de mão atulhados de bichos ensanguentados. O primeiro comboio, a se confiar nos olhos aguçados e na mente atilada de Gabriel, continha os cadáveres despedaçados de sete bilhões e oitocentos milhões de cachorros. O segundo, de acordo com os cálculos velocíssimos de São Pedro, sete bilhões e oitocentos milhões de cadáveres despedaçados de gatos.

– Não entendi – confessou honestamente Sérgio Sant’Anna. – Por que exatos sete bilhões e oitocentos milhões de cadáveres de cachorros e outro tanto de gatos?

– Deixa comigo – prontificou-se Gabriel, espetando o cadáver de um pastor alemão e exibindo-o na ponta de sua reluzente espada de fogo. – A resposta é de uma tremenda simplicidade. A essa altura do século XXI, existem aproximadamente sete bilhões e oitocentos milhões de seres humanos coabitando a superfície da Terra, com os devidos descontos aos que nascem ou morrem minuto a minuto. Supondo que exista um cão e um gato para cada homo sapiens sapiens (arghhh!), existirão nesse caso um total de dezessete bilhões e quatrocentos milhões de caninos e felinos habitando a Terra e parasitando os humanos.

– Para onde vão? – continuou Gabriel. – Para os frigoríficos centrais, de onde poderão ser distribuídos, em caso de guerra, peste ou escassez, para os famintos.

  MORTE QUE SEGUE

Sob o olhar perplexo de nossos amigos, prosseguia o estranho cortejo de carros de mão a derramar mares de sangue sobre a terra que não era terra, com toneladas de vísceras a saltar das entranhas enferrujadas dos vagões. No céu, que não era céu, quaquilhões de urubus planavam lentamente, babando de gozo e ansiedade, diante do magnífico e insuspeitado festim que lhes era – pensavam eles – destinado.

– Alto lá! – tonitruou Gabriel, autonomeado guardião dos cadáveres que, se ainda não fediam, deviam tal fenômeno à circunstância de que, nos estranhos espaços que palmilhavam, não havia ar respirável nem química que permitisse a vermes vivos exercerem sua função desagregadora de moléculas, destinadas futuramente a habitarem novos seres e novas estruturas vivas que, assim…

– Alto lá! – repetiu em altíssimo brado Gabriel, irritado com a grandeza singular do parágrafo que se seguiu a seu primeiro brado de Alto lá! – Preciso explicar a que se destinam os quadrúpedes defuntos que desfilam diante de nós.

– Então explica, cacete! – blasfemou Vieira que, filósofo existencialista formado nas vertentes, não do Himalaia ou do Aconcágua, mas dos altos pensamentos de Sartre, Camus, Simone e tantos outros, não suportava delongas estéreis.

EXPLICANDO O SEMI-INEXPLICÁVEL

Lobato, percebendo que seus dois amigos se mostravam excessivamente tensos e irritados, sacou de seu alforje de imortal-mortal-imortal pequeno frasco de Clonazepam, do qual despejou, gota a gota, 50 ou 100 pela goela abaixo dos irritados e tensos. Passados ene minutos, eis que Sérgio e Vieira dormiam como anjos, não anjos imensos como Gabriel, mas daqueles bem pequetitos, tipo Cupido e os bundudinhos que passam horas e dias e até mesmo toda a eternidade a puxar o saco da Virgem e seu Infante, nos infinitos afrescos e outras técnicas pictóricas a que se obrigaram tantos artistas medievais, fugindo com tal engodo às horripilantes torturas da pavorosa Santa Inquisição, que por dá cá aquela palha etc.

Foi então que São Pedro, que até então apenas acompanhava o cortejo e as falas um tanto disparatadas de seus convidados, lembrou-se, repentinamente:

– Mas e aquela explosão? Cadê o desatinado Jair Messias?

De fato. O desparafusado Jair Messias tinha desaparecido junto com a violenta explosão, dele só restando – se é que eram dele – as manchas de sangue.

Imediatamente nossos amigos, Gabriel à frente com sua espada chamejante, Jimi na retaguarda com sua guitarra estridente, Sancho no meio com seu garrafão de pinga, puseram-se a palmilhar o terreno recém-desbravado e que desconheciam, em busca do famigerado e desnaturado filho da pátria escafedido.

No nicho que lhe cabia, o Grande Irmão ria despudoradamente, demonstrando que boa coisa não seria o sumiço de Jair Messias. E foi por isso mesmo que nossos amigos mais atiçaram a busca, mais fervorosamente o buscaram, mas lepidamente se puseram a subir, descer, escorregar e cair naquele novo mundo, pois nem ao menos sabiam se haviam chegado a 1894, 2020 ou 2084, se não a todos simultaneamente.

Do fanático e frenético desaparecido, daremos conta no próximo capítulo.

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