Apontamentos importantes sobre alimentação no Brasil colonial, por Sebastião Nunes

São textos extraídos de livros de e sobre viajantes que por aqui estiveram, com relatos vivos e sugestivos para épocas de penúria.

Apontamentos importantes sobre alimentação no Brasil colonial

por Sebastião Nunes

Publiquei, recentemente, algumas sugestões do escritor Jonathan Swift, deão da catedral anglicana de Saint Patrick, em Dublin, para “melhor aproveitamento dos filhos das pessoas pobres” como alimento para as elites, beneficiando os extremos opostos da população de qualquer país. Datado de 1729, o texto continua atualíssimo.

Como acredito ter sido uma boa contribuição, apresento hoje novas sugestões, com base na alimentação colonial nas épocas em que a comida se tornava escassa. Creio que ainda não chegamos a tanto, mas, em algumas regiões, e diante do desmonte social que vivemos, acredito ser importante botar as barbas de molho.

São textos extraídos de livros de e sobre viajantes que por aqui estiveram, com relatos vivos e sugestivos para épocas de penúria.

 

BICHO-DA-TAQUARA (1)

Nascem entre as taquaras certos bichos roliços e compridos, todos brancos, da grossura de um dedo, aos quais os índios chamam “raú”, e costumam comer assados e torrados. Há-os em tão grande porção, indistintamente amontoados, que fazem com ele um guisado em que nada difere da carne de porco estufada.

(ANCHIETA, Padre Joseph de. Cartas. In: (FRIEIRO, Eduardo. “Feijão, angu e couve”. Belo Horizonte: Itatiaia, 1950)

 

BICHO-DA-TAQUARA (2)

Eu não vira entre os Malalis senão os bichos-da-taquara secos e separados de suas cabeças. Num herborização, porém, que fiz na ilha de S. Francisco, com meu botocudo, esse rapaz encontrou grande número desses animais em bambus em floração, e se pôs a comê-los na minha presença. Partia o animal, tirava-lhe cuidadosamente a cabeça e o tubo intestinal, e chupava a substância mole e esbranquiçada que ficava por baixo da pele. Apesar de minha repugnância, segui o exemplo do jovem selvagem, e achei nesse manjar estranho um sabor extremamente agradável, que lembra o do creme mais delicado.

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(SAINT-HILAIRE, Auguste de. “Viagem pelas províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais”. Tradução de Vivaldi Moreira. Belo Horizonte: Editora Itatiaia/EDUSP, 1975)

 

MACACOS E FORMIGAS

Dom Pedro e sua comitiva, mais duma vez, nos ermos em que pousavam, quase passaram fome em razão do pouco ou quase nada que lhes ofereciam para comer. Penetrando no interior, com alguns dias de jornada, só encontraram para cear, no rancho dum paulista, meio macaco e uma poucas formigas, que era tudo quanto se achava. O Conde agradeceu a oferta e indagou que sabor tinham aquelas iguarias. Respondeu o paulista que não havia naqueles matos circunvizinhos caça mais delicada e que as formigas eram tão saborosas, depois de cozidas, que nem a melhor manteiga de Flandres a igualava.

(ANÔNIMO. Diário da jornada que fez o Exmo. Sr. Dom Pedro desde o Rio de Janeiro até a cidade de São Paulo e desta até as Minas, no ano de 1717. In: FRIEIRO, Eduardo, op. cit.)

 

TATU-GALINHA

Huns bichos há nesta terra q também se comem e se tem pela melhor caça que há no mato e chamam lhes Tatu. São tamanhos como coelhos e tem hum casco à maneira de lagosta assim como de cágado, mas é repartido em muitas juntas como lâminas, parece totalmente um cavalo armado, tem o rabo do mesmo casco. Comprido, o focinho é como de leitão, e não bota fora do casco mais que a cabeça. Tem as pernas baixas e criam-se em covas. A carne deles tem o sabor quase como de galinha. Essa caça é muito estimada.

(GÂNDAVO, Pêro de Magalhães de. “Tratado da província do Brasil”. Reimpressão fac-similar. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1570(?)/1965)

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CANIBALISMO

Entretanto principiaram a faltar-lhes as forças à míngua de alimentos. Ratos, cobras, lagartos e répteis de todo o tamanho comível não tardaram a extinguir-se por todas aquelas cercanias. Três homens furtaram um cavalo e comeram-no. Foram postos a tormento para confessarem o fato, e depois enforcados. Ficaram na forca os cadáveres e no dia seguinte tinha desaparecido toda a carne da barriga para baixo.

(SOUTHEY, Robert. “Historia do Brasil”. Tradução de Luiz Joaquim de Oliveira e Castro. Salvador: Livraria Progresso Editora, 5 vols., 1948/1954)

 

Se o último tópico, especialmente, parece cruel e desumano, basta lembrar o que acontece em época de guerras imperialistas, tragédia da qual, pelo menos por enquanto, estamos livres. Mas não estamos livres, muito pelo contrário, das guerras de ricos contra pobres, daí minha sugestão inicial para botarmos as barbas de molho.

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2 comentários

  1. Na cidade de Eldorado SP havia um menino que adorava comer galinhas. Eles as comia e soltava no quintal. Dizem que uma delas o persegue desde então. Se for entrevistada por Vera Magalhaes e Patricia Campos Mello ela dirá que o mito Jair Bolsonaro tem obrigação de reconhecer seus pintinhos.

  2. Fora carne humana que era apreciada pelos Goitacazes, o que tem de errado nas comidas do Brasil que Europeus não conheciam? Peixes aos milhares, camarões e pitus, frutas de toda ordem, iças, pacas, tatu-galinha. O maior problema do pobre é a ignorância e não a fome. Passar fome num país como o Brasil? Somente na Indústria da Miséria e Vitimização. Falando nisto, como está chovendo no Nordeste?!! Estão sumindo a Seca e o Coronelato destas 9 décadas replicadas em farsantes 40 anos de Redemocracia, não é mesmo Cid Gomes?

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