Apresentando Otávio Ramos e dando continuidade às desventuras de Jair Messias, por Sebastião Nunes

Continuando a distopia 2084, a cantora Janis Joplin entra em cena para aumentar o tormento do fedorento Jair Messias, que continua mergulhado em urina e excremento.

Apresentando Otávio Ramos e dando continuidade às desventuras de Jair Messias

por Sebastião Nunes

Existem expressões tão verdadeiras e universais que se tornam inesquecíveis. Por exemplo, aquilo que escreveu Tolstói, na abertura de “Anna Karenina”:

“Todas as famílias felizes se parecem; cada família infeliz é infeliz à sua maneira.”

No final do último capítulo desta distopia introduzi o escritor Otávio Ramos, tão querido e admirado pelos que com ele conviveram como desconhecido pela imensa maioria dos letrados brasileiros. É de Otávio, que morreu aos 56 anos, predizendo o seu total aniquilamento como escritor, a seguinte frase, que todos nós deveríamos gravar com sangue em nossas testas:

“Todos os anos passas, inconscientemente, pela data de aniversário de tua morte.”

Pois não é? Aqui estou eu, batucando com sete dedos no teclado de meu velho computador; aí está você, lendo entre bocejos estas mal traçadas, e todos nós passamos inconscientemente pelo dia em que a parca cortará desdenhosa o fio que nos prende ao lado de cá.

O RECÉM-CHEGADO SE EXPLICA

Diante do estupor coletivo, Otávio Ramos percebeu que havia pisado em falso e se apressou em explicar sua declaração.

– Ora, pessoal – galhofou ele, com o sorriso ambíguo que só Otávio possuía. – Eu apenas disse que Bolsonaro parecia plenamente confiável por ter ficado espantado com a declaração de Adão Ventura de que Jair Messias tinha cara de imparcial. Se aquela carranca pode ser chamada de imparcial…

– Alto lá! – destemperou Adão, que de preto passou a vermelho. – Eu estava era galhofando. Ou você não entendem uma boa galhofa?

– Parece que a linguagem desse pessoal novo está cada dia mais antiga – meteu o bico o erudito Manoel Lobato. – Quem é que usa a expressão “galhofar” hoje em dia?

– Concordo totalmente – disse Sérgio Sant’Anna, amigo íntimo de Otávio Ramos, esquecido de que o autor destas linhas é também inclinado a usar palavras esdrúxulas, para não dizer fora de moda, ultrapassadas, demodês, coisas que tais. Tudo como explicação para os escorregões literários.

– Então ficamos assim – tentou concluir Luís Gonzaga Vieira, que de bobo não tinha nada. – Para Adão, que foi presidente da Fundação Palmares e depois juiz classista de alto nível, Jair Messias não tem cara de imparcial, mesmo porque parcial é o que ele nunca deixou de ser. Parcial, venal, boçal, imoral e outras categorias ruins terminadas em al. E segundo Otávio, que era humorista sutil, Bolsonaro é confiável apenas para a família dele, se é que 01, 02, 03 e 04 metem a mão no fogo para as mutretas do pai.

MAIS INTRUSOS NA FESTA

De repente, chorosa e descabelada, surgiu do nada uma mulher. Uma mulher, sim, pois notei que estes textos estão machistas para caralho.

– Deve ser Maria Madalena – opinou o arcanjo Gabriel que, pertencendo à ambígua categoria dos anjos, nunca se soube se homem, mulher ou qualquer outro dos diversos gêneros que se assumem atualmente. E foi sem dúvida um palpite infeliz, pois desde quando Gabriel conhece mulher? Só a Virgem Maria, e assim mesmo quando ela faz reuniões de pauta com anjos, arcanjos e querubins, coisa raríssima.

– Não parece – duvidou São Pedro, frequentador contumaz das festanças cristãs, das quais Madalena participava.

– Ei, eu conheço ela pra caralho! – alegrou-se Jimi Hendrix, que até dedilhou a guitarra em homenagem à recém-chegada. – É minha parça Janis Joplin, a cantora mais porreta que já existiu. Chega pra cá, Janis, e canta alguma coisa pra nós.

A Joplin até que chegou, mas cantar que é bom…

– Deixa disso, Jimi – na bucha, ela, Janis. – Tô mais afim de uma picada e uns tragos. Desde que desencarnei, ando numa seca de dar gosto.

– Não seja por isso – apresentou-se Sancho Pança, todo serelepe. – Aqui temos do bom e do melhor. Pode escolher.

Nesse instante, coberto de merda até o cabelo, fedendo a perder de vista, eis que reaparece, capengando e cambaleando, o esquecido Jair Messias. Esfarrapado, suado e respirando a custo, mais parecia um mendigo enlouquecido do que um ex-capitão que, por artes de demônio, chegou a antipresidente de uma república bananeira.

– Porra! – exclamou Janis Joplin. – De onde será que vem esse desinfeliz? Nunca vi nada mais horripilante. Nem Jimi trêbado, quando vomitava na minha cara.

Então nossos amigos imortais-mortais-imortais, agora com os honrosos e ilustres acréscimos de Otávio Ramos e Janis Joplin, passaram a vomitar adoidado. Até o cavalo de Adão, que continuava servindo de montaria ao poeta, vomitava com tanta gana que logo imaginaram que acabaria morrendo, se já não estivesse mortinho da silva.

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