As fotos de Diane Arbus e o que existe de horrível dentro de nós, por Sebastião Nunes

As fotos de Diane Arbus e o que existe de horrível dentro de nós

por Sebastião Nunes

Os Estados Unidos são um país de tremendos contrastes. Para um linguista perspicaz como Noam Chomsky, produz uma cavalgadura da espessura de Donald Trump, ridicularizado dentro e fora do país. Mas enquanto Chomsky confronta ameaças reais, Trump bate o pé por burrices descomunais e ameaça paralisar o país se sua vontade não for sacramentada, típica atitude de criança birrenta.

Nesse contexto, John Cheever foi um dentre centenas de escritores medianos produzidos na pátria dos contrastes e se tornou famoso graças ao marketing e à grana. Sem marketing e muita grana não há fama, pelo menos em termos globais.

Cheever se deu bem graças à acolhida da The New Yorker, revista de ponta da classe média, na qual publicou boa parte de seus contos – e viveu dos direitos autorais durante décadas, até morrer aos 70 como um cidadão respeitável. Além do Pulitzer de Ficção, ganhou também o National Book Critics Circle Award e, apenas seis semanas antes de sucumbir a um câncer, recebeu a Medalha Nacional para Literatura, concedida pela American Academy of Arts and Letters.

 

DR JEKYLL AND MR HYDE

A biografia de Cheever revela um cidadão de “família branca, anglo-saxã e puritana de Massachusetts que se vangloriava de sua estirpe, por assim dizer, aristocrática. ‘Nunca esqueça que você é um Cheever’, repetia ele aos filhos, querendo dizer que um Cheever sabe de onde veio e quem é. Só que ele engrandecia as suas origens e não aceitava ser quem era. Seu pai foi um vendedor de sapatos que sucumbiu à bancarrota e à depressão. Para manter a família, sua mãe abriu uma loja de enfeites e presentes, algo que Cheever considerava uma ‘humilhação abissal’. (…) Foi um segundo filho indesejado: a mãe lhe contou que, se não tivesse tomado um drinque a mais numa determinada noite em Nova York, ele não teria sido concebido; e que o marido a aconselhava a procurar um aborteiro”, como relata Mario Sergio Conti, na introdução a “28 contos de John Cheever”, lançado pela Companhia das Letras.

Depois de morto apareceram os podres, escreve Conti: “O ódio aos homossexuais, apesar de ser um deles, o relato frio de seu pouco-caso com os filhos, o revolver repetido do dia a dia de hostilidades entre ele e a mulher, a batalha eternamente perdida para não tomar álcool antes do meio-dia (e em seguida antes das onze, das dez e até das nove horas da manhã)”.

 

AOS TRANCOS E BARRANCOS

Aos 48 anos, em 1971, a fotógrafa Diane Arbus não fez por menos: engoliu um monte de barbitúricos e cortou os pulsos com uma navalha. Não queria dar chance ao azar. Seu corpo só foi encontrado dois dias depois, dentro da banheira. Nessa época era uma artista reconhecida e estava divorciada desde 1969. Representava – e retratava – o lado sombrio do sonho estadunidense.

Cerca de 20 anos antes, criou com o então marido, Allan Arbus, de quem herdou o sobrenome, uma bem sucedida empresa de fotografias de moda, aceita e reconhecida por importantes revistas, como Glamour, Seventeen, Vogue, Harper’s Bazaar e outras, embora eles odiassem o mundo da moda.

Sua carreira solo, na década de 1960, a tornou mestre entre fotógrafos de ponta. Mas foi sua tendência a retratar figuras estranhas, exóticas, deslocadas e fora do grande mundo das pessoas bem-sucedidas que a engrandeceu.

No fim da década, pressionada pelo divórcio depois de 18 anos de casamento e de um relacionamento que vinha desde os 14, pela depressão herdada da mãe, pela hepatite que a levou a duas internações, passou a lecionar em três escolas: Parsons School of Design, Cooper Union e na Rhode Island School of Design.

Não adiantou nada. Quando se matou, sua herança foi uma estonteante mistura de criaturas patéticas, que negavam o lado charmoso da vida e deixavam em evidência o que existe de mais patético nas criaturas.

 

O BIZARRO EM DIANE ARBUS

Não que ela tenha declarado isso, mas era como se revelasse, nas fotos, o aspecto mais cru do ser humano. Os retratados, aliás, sempre sabiam que estavam sendo fotografados e concordavam com a exposição de suas personas.

Se você digitar no Google Diane Arbus fotos, verá desfilar diante de seus olhos a coleção mais estranha de imagens em preto e branco que poderia imaginar.

Hoje em diante, no mundo grotesco em que mergulhamos, na busca desesperada pelo sucesso imediato que tudo transforma em produto e eleva qualquer bobagem ao pódio do reconhecimento instantâneo, suas fotos permanecem como símbolo do atemporal e, talvez, do nosso avesso. Não belo e charmoso, mas grotesco, feio e sujo.

As duas fotos que ilustram este texto não são as mais estranhas de Diane Arbus, mas estão, sem dúvida, entre as mais emblemáticas. O ar de idiotice que emana dos jovens patriotas estadunidenses simboliza qualquer patriota de extrema direita de qualquer país do mundo, mas, no momento atual, simboliza especialmente o Brasil.

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