As maravilhas por descobrir na imensa floresta de livros-frutas, por Sebastião Nunes

Continuo insistindo na distopia porque acredito no ditado que reza: "Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura". Quem sabe, de tanto bater na cara dura do genocida, acordamos os brasileiros para uma frente geral contra o monstro? Em frente, pois!

As maravilhas por descobrir na imensa floresta de livros-frutas

por Sebastião Nunes

No último capítulo, Jair Messias reapareceu. Esfarrapado, boca aberta, olhos esbugalhados, nariz escorrendo meleca. Sujo e fedorento também. Feliz ou infelizmente, não era hora de intrometer-se o maluco antipresidente. Seu destino, por enquanto, era ficar espetado no não-tempo, até que voltasse a protagonizar esta horrível história de horrores, a maioria deles provocada por seus desmandos, sua ignorância e sua estupidez.

O pomar não era pomar. Ou então seria magnífico e imenso pomar, pela sua infindável extensão de 20 florestas amazônicas e sua infinita reserva de livros-frutas ali à mão de quem quisesse manuseá-los.

Era um não-lugar maravilhoso, instalado no coração do não-tempo. A princípio, os recém-caídos não se deram conta de onde estavam. Entusiasmados pelos primeiros livros-frutas encontrados, mergulharam nas leituras mais próximas. Foi preciso que São Pedro exigisse de Gabriel Arcanjo que tocasse a trombeta do Juízo Final (o que era totalmente proibido, exceto no derradeiro dia e hora dos tempos), para conclamar os amigos imortais-mortais-imortais a que assuntassem, levantassem a cabeça, prestassem atenção. E foi o que fizeram a contragosto.

SÃO PEDRO EXPLICA O INEXPLICÁVEL

– Meus filhos desencarnados, – disse ele – vocês tiveram a sorte (ou o azar) de cair num dos recantos mais secretos do Paraíso. Isto aqui não é, como o idiota do autor descreveu capítulos atrás, “o pomar da sabedoria-não-sabedoria” atulhado de “árvores da confusão”. Isto aqui é, propriamente nomeando, uma infinita biblioteca de sabedoria-não-sabedoria, repositório de toda a história da humanidade. Uma espécie de Biblioteca de Alexandria sem limites. Se acaso parece atulhada de “árvores da confusão”, a culpa cabe aos seres humanos, que transformaram a Terra – tão catita! – numa babel bíblica.

Os amigos, embora recém-mortos e incorpóreos, abestalharam-se. “Como era possível?”, interrogavam-se telepaticamente, mergulhados em espanto e incerteza, se não em ignorância e escuridão mental.

– Totalmente possível, já que tudo aqui, no nada absoluto, é possível, até Deus pecar – recomeçou o barbudo porteiro, interpretando o não-pensamento represado e passando uma não-borracha nos escritos do inexistente passado recente.

– Se o Universo é imaginável em sua grandeza inimaginável, e se seu centro excêntrico é inconcebível, quase o mesmo acontece aqui. Em vez de galáxias e sistemas solares e sóis e planetas e satélites, imaginem pomares de livros-frutas. Tantos pomares quanto planetas, digamos assim, para dimensionar o indimensionável. Não dá pra contar ou medir ou intuir ou calcular. Só imaginar.

MAIS UM POUCO DE INEXPLICAÇÃO

Nossos amigos – Adão Ventura, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Luís Gonzaga Vieira, Manoel Lobato, Otávio Ramos, Sancho Pança e Sérgio Sant’Anna – uniram seus pensamentos e os formularam da seguinte maneira:

 – Pomares infinitos. Até aí compreendemos. Mas com que finalidade?

– Nenhuma – respondeu tranquilamente São Pedro. – Trata-se de uma obra de ficção como outra qualquer, apenas infinita em seus incalculáveis capítulos.

– Alguma lógica? Algum sentido? – perguntou Sérgio, conseguindo se livrar da rede mental coletiva.

– A história da humanidade tem sentido? – contrapôs São Pedro. Milhares de anos e acontecimentos, e onde está a lógica desses acontecimentos? Até onde percebo, e olhe que não percebo pouco, tudo o que vemos nessa longa e cansativa história é uma luta infindável em busca de poder e seus penduricalhos, tipo acumulação de riqueza e dominação dos mais fracos. Em consequência, sadismo desenfreado, guerras intermináveis, confronto de egos, sangue, sangue, sangue. Se a história da humanidade pode ser resumida numa palavra, essa palavra é morte.

– O senhor não está exagerando? – questionou Otávio, que sempre acreditou na evolução moral e ética do ser humano.

– Não – respondeu secamente o porteiro-mor. – Um indivíduo como Bolsonaro, que participa ativamente da história do Brasil, pelo menos atualmente, seguido por milhões de genocidas ou potenciais genocidas como ele, é uma prova clara, depois de tantos milhares de anos, de que a humanidade não tem futuro. Exceto se…

– Exceto se… O quê? – indagaram, ansiosos e em uníssono, Vieira e Lobato.

– Vocês mesmo descobrirão – disse São Pedro. – Vocês estão diante de tudo o que aconteceu na história humana em milhares de anos. Os pomares aí estão. Talvez sejam um tanto caóticos, mas pedir lógica ou sentido seria demais se tratando da história humana. Entrem e fiquem à vontade.

Dizendo isto, São Pedro chamou Gabriel Arcanjo e, sendo entidades imateriais e não corpóreas, esvaíram-se como fumaça. De agora em diante, nossos amigos estavam entregues a si mesmos, naquele não-espaço infinito de pomares intermináveis.

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