Às vezes a morte é leve como a poeira, nos diz Conceição Evaristo

por Ivan Hegenberg

“Às vezes a morte é leve como poeira. E a vida se confunde com um pó branco qualquer”

Citar um trecho é pouco para sugerir o alto impacto de um dos melhores contos que li na vida. “A gente combinamos de não morrer”. Aliás, todas as histórias de “Olhos d’água”, de Conceição Evaristo, vão ganhando força por acúmulo. Acúmulo de imagens e palavras em choques sucessivos. Outras pequenas obras-primas do mesmo livro são o conto que dá nome ao título, “Quantos filhos Natalina teve?” e “Zaíta esqueceu de guardar os brinquedos”.

É com muita destreza que esta mineira de 70 anos, filha de lavadeira, apresenta a violência sofrida por negros da periferia. Conceição Evaristo dá uma aula magna de como calibrar a palavra poética de modo a não enfeitar demais o que é impossível de embelezar, sem dispensar o que os recursos literários têm de potente na evocação da própria realidade. Sua sensibilidade em meio à crueza nos ensina o quanto o ambiente desumano esconde de complexidade e minúcias, uma miríade de afetos contraditórios até nos personagens mais cruéis.

Acabei de ler o livro há poucos minutos e corri para o computador. Em um país racista como o nosso, em um momento em que a população negra e pobre está sofrendo grandes ataques, não deveríamos adiar o reconhecimento de Conceição Evaristo. Não fosse negra e de origem humilde, provavelmente ela já teria um alcance muito maior nas estantes desse nosso país ingrato.

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Apesar de ser um exercício insuficiente para transmitir o que seja a experiência de ler o livro do início ao fim, vou citar mais um trecho, só para mostrar que tem algo de diferente nessa escritora:

“Entre as mulheres quase todas ficaram menstruadas juntas, pela primeira vez. Brincávamos que íamos misturar as nossas regras e selarmos a nossa irmandade com o nosso íntimo sangue. Os meninos não sei que juras fraternas fizeram. Ah, sei! Dorvi repetia sempre que entre eles havia o pacto de não morrer.”

 

 

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