Autorresenha, por Jean Pierre Chauvin

A leitora, o leitor releve(m). Este texto marca a estreia de um resenhista como avaliador de si mesmo. Digo melhor, como comentador de um livro de sua lavra. Nada mais sintomático dos tempos autorreferenciais em que infra-vivemos, não é mesmo?

Arquivo USP

Autorresenha, por Jean Pierre Chauvin

Jean Pierre Chauvin. Mil, uma distopia. Rio de Janeiro: Luva Editora, 2021, 84p.

A leitora, o leitor releve(m). Este texto marca a estreia de um resenhista como avaliador de si mesmo. Digo melhor, como comentador de um livro de sua lavra. Nada mais sintomático dos tempos autorreferenciais em que infra-vivemos, não é mesmo?

Mas, convenhamos, não sou o primeiro a fazê-lo. Um pesquisador de mão cheia sugeriu que Machado de Assis procedeu da mesma forma, ao fabricar cartas (supostamente dirigidas à redação dos jornais em que colaborava) que ele mesmo respondia[1]. O Veiga Filho, criatura hilária de Lima Barreto, enfileirou hipérboles ao condensar a própria conferência para o jornal em que trabalhava[2]. Um amigo e colega de ofício[3] sugeriu expediente similar adotado por Mário de Andrade, que escreveu a resenha inaugural sobre Macunaíma

De dentro da tumba, Brás Cubas ficcionaliza uma vida ociosa como filho do latifúndio brasileiro, mimado, fútil, vaidoso, escravista e com ares bacharelescos, sorvidos em Coimbra. Narrado em terceira pessoa, Macunaíma ganhou o mundo entre a Amazônia e a Pauliceia e virou estrela, após derrotar Venceslau Pietro Pietra e reaver a Muiraquitã. O que eles têm em comum? Aparentemente, a ambição, a amoralidade e o individualismo. No plano estético, tanto o romance do “defunto-autor” quanto a rapsódia do “herói sem nenhum caráter” contam com narradores engenhosos que parodiam obras do cânone universal ou revisitam lendas locais. 

Acresce que não é tão simples (mas sim, constrangedor) convidar alguém a resenhar livros, quanto mais obras de ficção… Vá lá. Não sendo uma figura pop, tampouco um ser multimidiático, adoto o alvitre. Seria desnecessário dizer que, neste caso, a condição é um tanto delicada, pois não falo como narrador ou personagem, feito Brás Cubas, Veiga Filho ou Macunaíma, mas como segunda voz de mim mesmo. Se permitem a analogia, escrever uma autorresenha é como fazer um overdub ao compor uma música: figurem que um cantor gravasse a primeira voz num take e registrasse a segunda voz (dele mesmo, terça ou quinta acima) no take seguinte.

Reparem como hesito e me alongo. Somente agora, que chegamos ao quarto parágrafo, passo a dizer algo sobre a matéria. A ver. A primeira versão de Mil foi rascunhada em duas semanas. Naturalmente, era um texto cheio de falhas e defeitos, porque escrito ao ritmo da ansiedade (por ver a história tomar forma). Nos meses seguintes, a narrativa passou por muitas mãos e ganhou as ilustrações de Morgana Chauvin, antes de seguir para a editora, onde a história foi diagramada por Vitto Graziano e revisada por Úrsula Antunes. No prefácio, Cleber Felipe detecta as referências mitológicas e literárias a que a narrativa alude. No posfácio, Marcelo Lachat percebe relações entre o minúsculo mundo de Mil e o apequenado Brasil de hoje. Na quarta capa, Caio Bezarias salienta a impassibilidade do narrador, enquanto relata o inominável.

Mil foi concebido com vistas a soar objetivo e conciso. Termos complementares; não sinônimos. Objetivo, pois pretendia que cada capítulo chegasse direto ao ponto e não enfastiasse o leitor. Conciso, porque personagens e narrador evitam a prolixidade, sempre que possível. A condição para isso é que o enredo fosse relativamente simples, a saber. Um narrador intruso descreve a cidade-estado de Cosmolândia seguindo a trajetória de um punhado de personagens. Ulisses é o protagonista, mas está longe de ser ou agir como herói (a começar pelo fato de ser narrado). Substancialmente, é um livro de andanças pelas vias e sendas do território. As complicações começam quando alguém recorre ao poder questionador das palavras…

Como se trata de uma distopia, o leitor provavelmente captará vozes de escritores célebres no gênero em que essa narrativa pretende se inscrever. De Ievguêni Zamiátin (Nós, 1924) a José Saramago (Ensaio sobre a Cegueira, 1995), há alusões a Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo, 1932), Albert Camus (A Peste, 1947), George Orwell (1984, 1949), Ray Bradbury (Fahrenheit 451, 1953) José J. Veiga (A Hora dos Ruminantes, 1966), Chico Buarque (Fazenda Modelo, 1974) e Ignácio de Loyola Brandão (Não Verás País Nenhum, 1981).

Importa salientar que Mil é o primeiro volume de uma trilogia protagonizada pelo pacato cidadão Ulisses. Dito isso, e como não convém passar o chapéu, este resenhista os convida à leitura e, caso se interessem em ler a micro história de Cosmolândia – cidade-estado no meio do Oceano Índico – deixa o e-mail do autor para facilitar a eventual correspondência: [email protected]

Pela atenção, obrigado.


[1] Ivan Teixeira. O Altar & O Trono: dinâmica do poder em O Alienista. Cotia: Ateliê; Campinas: Editora Unicamp, 2010.

[2] Sou muito grato a Jurandir Renovato, que, ao ler a primeira versão da autorresenha, evocou esta passagem hilária do romance barretiano, a título de exemplo: “Eu demorei-me ainda muito e pude ouvi-lo ler a notícia. Começou dizendo que era impossível resumir uma conferência de um artista como Veiga Filho. Para ele, as palavras eram a própria substância de sua arte. Dizer em alguns períodos o que ele dissera em hora e meia, era querer mostrar a beleza do fundo do mar com uma gota d’água trazida de lá (não citou o autor). Em seguida, a grande glória das letras pátrias mostrou como tinha começado: citou Nietzsche, de quem, hoje, entre nós, Veiga Filho é um dos mais profundos conhecedores e a cuja filosofia a sua inspiração obedece. Começou com o Zaratustra: o homem é uma ponte entre o animal e o super-homem.” (Lima Barreto. Recordações do Escrivão Isaías Caminha. In: Prosa Seleta. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2008 p. 192).

[3] José de Paula Ramos Jr. Leituras de Macunaíma: primeira onda (1928-1936). São Paulo: Edusp, 2012.

Jean Pierre Chauvin – Professor Associado Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes – USP. Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas – USP. Programa de Pós-Graduação “Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa”

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