Blá-blá-blás e lenga-lengas sobre o improvável futuro da humanidade, por Sebastião Nunes

De vez em quando, desaparece meu otimismo (ou pelo menos minha confiança) em relação ao futuro da humanidade. O momento atual é de pessimismo e desconfiança. Tomo por avalista o grande Amós Oz, que lutou a vida inteira pela convivência pacífica entre palestinos e judeus, sem conseguir coisa alguma.

Blá-blá-blás e lenga-lengas sobre o improvável futuro da humanidade

por Sebastião Nunes

– Se a ideia é compilar a lista de todas as doenças que acometem nossa espécie, daremos, sem dúvida, com os burros n’água – disse o sábio Sancho Pança, ajeitando o ecumênico barrigão dentro do gordo cinturão, de modo a sentir-se confortável.

– Não gostei desse introito – disse Sérgio Sant’Anna, esfregando o indicador da mão direita na palma da mão esquerda, hábito recém-adquirido. – Chamar Sancho de sábio é excessivo para o meu gosto. Esse escriba é dado a cagadas monumentais.

– Penso o mesmo – disse Dom Quixote, aprumando-se na lança, sentando numa das duas nádegas magras na sela dura de Rocinante, e deixando o vago olhar pervagar distraidamente ao longe. – De pensar morreu um burro, mas não é o meu caso.

Os amigos reunidos da FODA (Força Operacional D’Além-Túmulo), (Adão Ventura, Luís Gonzaga Vieira, Manoel Lobato, Otávio Ramos e Sérgio Sant’Anna) não tugiram nem mugiram, mesmo porque escasseou-se-lhes (bonito, não é?) o necessário tempo.

Pois acontece que surgiu, bem próximo deles, um severo senhor idoso, de cabelo assustado, patéticas rugas fundas na cara branca de gesso seco e beligerante olhar.

Olharam-se. Confrontaram-se. Reolharam-se.

O recém-chegado foi o primeiro a falar:

– Vejo que somos relativamente novos neste Portal, se posso chamar de novos os cavalheiros que atendem pelos nomes de Otávio Ramos e Adão Ventura. Creio, no entanto, que tal ninharia torna-se irrelevante, diante do portentoso acometimento que no presente momento nos acomete, ou seja, o de perquirir sobre o futuro da humanidade. Creio, ainda, dever aventar, para continuar no macarrônico linguajar que superabunda nos jurídicos discursos e pareceres e que aqui reciclo, que…

– Desculpe-me senhor – disse Dom Quixote despojando-se do elmo e exibindo, diante da muda confraria, a suarenta semicalva, de raros cabelos brancos. – Mas a quem devemos a honra de…

– Aproveitando a ocasião para introduzir mais algumas reticências na patacoada com que nos presenteiam…

– Já são três! – trovejou São Pedro, mais uma vez despontando inopinadamente em meio a tanto disparate que voava de lá para cá no paradisíaco Portal. – Reticências demais não são bem-vindas e eu não gosto, embora, diuturnamente, perpassem a prosa de literatos não muito dados a…

CHEGA DE LERO-LERO

Galhofa é bom e eu gosto, mas se temos de argumentar e contra-argumentar em relação ao improvável, hipotético, irrealista, utópico, fantasioso, disparatado, ousado e quimérico futuro da humanidade, isto é, de nós mesmos como espécie…

– Alto lá! – bradou o recém-chegado. – Embora essas reticências já estejam me enchendo o saco…

– Alto lá, digo eu – intrometeu-se Sérgio. – Neste diálogo de tantas reticências, acredito ser pertinente perguntar: o que será mais importante: discutir o improvável futuro da humanidade com nossa recém-chegada visita ou continuar divagando aérea e aleatoriamente sobre reticências? Pois, se conjeturo bem, e como sugeriu Wittgenstein semanas atrás neste patafísico espaço, os limites de meu mundo são os limites da minha linguagem. Nesses termos, qual de nós estará mais adiantado?

Pigarreou Manoel Lobato e perorou:

– Pelo formato do nariz, temo que nosso visitante esteja fora do prumo, ou seja, tenha adentrado (horrível vocábulo!) este Portal não condizente com sua fé e prosápia, se tão longe me permitem pervagar.

– Não entendi – disse Vieira, e só o disse para que não o tomassem por distraído ou mesmo ausente do disparatado debate.

– Não? – ripostou Lobato. – Pois então pergunto ao recém: Quem és, donde vieste, para onde vais?

O SERMÃO DO RECÉM-VINDO

– Expulso de minha terra ancestral, vaguei por vales e montes, escorraçado ontem, hoje e amanhã também. Fui trespassado por flechas e lanças, por punhais e baionetas e sabres afiados. Me queimaram em fogueiras, enforcaram em praça pública e em sótãos escuros, o garrote me estrangulou e me quebrou o pescoço, envenenaram-me, as balas de fuzis me romperam os intestinos, bombas me fizeram em pedaços. No frigir dos anos e dos séculos, fui crucificado, estuprado, esganado, despedaçado em zilhões de guerras de rapina e subjugação. E aqui me tendes, condensado.

– Ou muito me engano ou esse cara é judeu – deduziu o Sábio Sancho. – Se for, poderá ficar entre nós, discutindo o futuro da humanidade? Deixo a decisão por conta dos iluminados pares da FODA.

– Que judeu que nada! – disse Dom Quixote brandindo a frágil lança. – Querem mesmo saber? Pois ele é a humanidade cuspida e escarrada, como foi, é e será, por todos os tempos dos tempos, amém.

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“O principal erro de muitas gerações de reformadores do mundo está na missão que se impõem de mudar a natureza humana de um golpe só ou por uma revolução. A natureza humana parece que não muda. A única diferença entre uma trepada no tempo do rei Davi e uma trepada hoje em dia é o cigarro depois.” (Amós Oz)

Sebastião Nunes é um escritor, editor, artista gráfico e poeta brasileiro.

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