Caindo no abismo sem fundo, por Sebastião Nunes

Continua a saga de nossos amigos na eternidade, sempre incomodados pelo antipresidente Jair Messias, com seu fedor desesperador e sua eterna falta de pudor.

Caindo no abismo sem fundo

por Sebastião Nunes

Como você não se recorda, nossos amigos imortais-mortais-imortais eram, em ordem alfabética, Adão Ventura, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Luís Gonzaga Vieira, Manoel Lobato, Otávio Ramos, Sancho Pança e Sérgio Sant’Anna, sem contar São Pedro, o arcanjo Gabriel, e o ex-capitão, antipresidente e fedorento Jair Messias, que não era amigo de ninguém.

Livres do cavalo Sérgio Camargo, que ninguém de bom senso sabe quem é, desovado no abismo da direita por um chute potente de Adão, continuaram a percorrer a estrada, cada vez mais estreita, derivada da porta inexistente 2020 e por isso mesmo, por ser fruto de um ano infame, além de estreitar-se sempre, também começava a sumir sob os pés (se é que alma tem pé) cuidadosos de nossos amigos.

São Pedro e Gabriel pouco se importavam com isso, já que, entidades celestiais, podiam levitar tranquilamente sobre o nada, e até mesmo sobre o tudo.

E AS VEREDAS, CACETE, CADÊ AS VEREDAS?

Não seja por isso. Anunciadas no capítulo anterior, eis que a estrada evanescente se desdobrou em inúmeras trilhas, também evanescentes e também estreitantes, que se alongavam rumo ao horizonte longínquo. Eram as famosas veredas do espaço-tempo inexistente, aquelas mesmas que, chupando uma ideia platônica, o escritor Guimarães Rosa transplantou para seu livro maior.

A certa altura da caminhada, tanto se estreitaram e evanesceram que mal dava para senti-las sob os pés. Nessa dificuldade, nossos amigos se dispersaram e, seguidos de delirantes gritos de desespero, começaram a despencar no abismo sem fundo.

– Não ouvi o grito do Bolsonaro – estranhou Sérgio, que ainda não tinha caído. – Será que ficou mudo de medo?

– Não – respondeu Vieira, que também se equilibrava valorosamente numa fímbria de vereda. – Ele não caiu, olha ali ao lado.

Sérgio olhou e – putaquepariu! – Jair Messias estava ali pertinho, agarrado em duas fake news, que flutuavam acima de sua antipresidencial cabeça. Em volta dele, dezenas e mesmo centenas de outras fake news se ofereciam pressurosas, ansiosas e escabrosas.

– Ah, agora entendi porque os canalhas estão sempre por cima. – iluminou-se o ingênuo, embora sapientíssimo, Sérgio. – Enquanto as pessoas comuns estão sempre na merda, os canalhas controlam o poder e o mundo por meio de fake news.

Mal pronunciou essas palavras, sentiu que a estrada sumia debaixo de seus pés e, com seu próprio grito de desespero, pois cada desesperado se desespera à sua maneira, despencou, rodopiando e agitando os braços.

BOLSONARO PENDURADO EM FAKE NEWS

Um a um despencaram todos, inclusive Sancho que, sempre que passava ao lado de um parça, abria pachorrentamente o embornal e oferecia ao parceiro despencante algo de sua bem fornecida matula.

Enquanto isso, pendurado nas fake news, Jair Messias matutava:

– Se solto as mãos, caio no abismo. Se não solto, ficarei aqui para sempre, sem filhos, sem milícias, sem ministros, sem militantes e sem puxa-sacos.

Soltou uma mão, olhou para baixo, e imediatamente sentiu um frio na barriga. Não dava. Impossível soltar as duas mãos. O despenhadeiro metia medo. Os outros caras podiam soltar. Eram imortais-mortais-imortais e decerto nada aconteceria com eles. Mas e ele, que não passava de um penetra, o que aconteceria?

Enquanto pensava no que fazer, decidiu olhar para cima e ver o que estava escrito nas fake news. Quase quebrando o pescoço no esforço, conseguiu ler:

BOLSONARO NÃO É UM GENOCIDA.

O MITO É UM CARA DUCARALHO.

– Taí, gostei – alegrou-se ele. – Se todas as fake news forem desse tipo não dá pra me queixar. Devem ser produzidas pelo 01, ajudado pelo 02. Talvez até o 03 e o 04 compareçam com palpites.

Como tinha gostado da primeira, continuou a ler as fake news próximas:

JAIR MESSIAS É O MAIOR GENERAL.

O MITO É PORRETA OU ATÉ MAIS.

BOLSONARO AMA O POVO BRASILEIRO.

Nisso, os braços começaram a doer.

– Caralho! – exclamou ele. – Quem sabe São Pedro e Gabriel Arcanjo podem me tornar mais leve, até sem peso nenhum? Quem sabe podem também me livrar desse fedor desgraçado? Não custa tentar, não é mesmo?

Não perca, no próximo capítulo, o que se passou entre Jair Messias, São Pedro e Gabriel Arcanjo com sua espada de fogo.

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