Começando a percorrer a floresta e visualizando os primeiros pomares, por Sebastião Nunes

Enquanto o país despenca no abismo e o genocida/ecocida brinca de presidente, a resistência pela literatura continua. Sei que importa muito pouco - ou nada -, mas é minha forma de lutar contra o caos que nos ofende, humilha e mata.

Começando a percorrer a floresta e visualizando os primeiros pomares

por Sebastião Nunes

Nossos amigos – Adão Ventura, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Luís Gonzaga Vieira, Manoel Lobato, Otávio Ramos, Sancho Pança e Sérgio Sant’Anna –encontravam-se diante da maravilha das maravilhas: todo o conhecimento humano em livros-frutas. Atrás deles, esfarrapado e fedorento, seguia Jair Messias, como um cão sarnento. Seguia por quê? Longe de sua antipresidência, distante das milícias que o sustentavam, sem nem ao menos o amparo dos filhos antipolíticos e dos antiministros que o paparicavam e lhe puxavam o saco, sentia-se perdido. Mas ninguém se importava com tal canalha.

Depois de longa admiração embasbacada, nossos amigos começaram a percorrer as trilhas que conduziam aos pomares. O primeiro bem em frente, tinha uma placa pequena e discreta em que se lia “Pomar Jorge Luis Borges”. Entraram em silêncio. A primeira árvore tinha outra pequena placa “Ficciones”. Reverentes, com a solenidade que o momento exigia, pois Borges exigia tudo, colheram o primeiro livro-fruta à mão, cujo título, para espanto de todos, era “La Biblioteca de Babel”.

Sentados em nuvens de nada, Sérgio começou a ler em voz alta:

“El universo (que otros llaman La Biblioteca) se compone de un número indefinido, y talvez infinito, de galerías hexagonales, con vastos pozos de ventilación en el medio, cercados por barandas bajísimas. Desde cualquier hexágono, se ven los pisos inferiores y superiores: interminablemente. La distribución de las galerías es invariable. Veinte anaqueles, a cinco largos anaqueles por lado, cubren todos los lados menos dos; su altura, que es la de los pisos, excede apenas la de un bibliotecario normal. Una de las caras libres da a un angosto zaguán, que desemboca en otra galería, idéntica a la primera y a todas. A izquierda y a derecha del zaguán hay dos gabinetes minúsculos. Uno permite dormir de pie; otro, satisfacer las necesidades fecales.”

Todos riram, e Sérgio continuou:

“Como todos los hombres de la Biblioteca, he viajado en mi juventud; he peregrinado em busca de un libro, acaso del catálogo de catálogos; ahora que mis ojos casi no pueden descifrar lo que escribo, me preparo a morir a unas pocas leguas del hexágono en que nací. Muerto, no faltarán manos piadosas que me tiren por la baranda; mi sepultura será el aire insondable: mi cuerpo se hundirá largamente y se corromperá y disolverá en el viento engendrado por la caída, que es infinita. Yo afirmo que la Biblioteca es interminable.”

MEDITAÇÃO GRUPAL

Bolsonaro, como era óbvio, não sacou nada. Petrificado e paradão, seu focinho enferrujado e os beiços esticados, evidenciava na cara estuporada toda a ignorância que o envolvia, como se fosse da estirpe maldita dos mais imbecis dos seres humanos, e não era impossível que realmente fosse.

Sem sequer olhar para a estúpida e nojenta criatura, os amigos imortais-mortais-imortais puseram-se a ruminar, maravilhados, o que tinham lido. Assim perceberam, em conjunto e ao mesmo tempo, que aquele pomar e aquele livro não surgiram por acaso, mas obedecendo a algum propósito inatingível no momento, e que os guiaria – tinham certeza – durante a visita pelos infinitos pomares de livros-frutas.

Como haviam compreendido, a biblioteca (ou a floresta) era infinita. Se o tempo existisse, não teriam vida suficiente para percorrer sequer um mísero milésimo dos incontáveis bilionésimos de bosques que a constituíam. Como o tempo ali não existia, não havia pressa. Podiam se dar ao luxo de escolher, lenta e pachorrentamente. Assim, puseram-se a percorrer o bosque, a espera de que o “propósito” os orientasse.

A HISTÓRIA UNIVERSAL DA INFÂMIA

Logo em frente, enterrada no nada, uma placa escura indicava uma série de bosques sob o título genérico “Infâmia”. No pedestal dessa placa, incontáveis figuras de velhos e grotescos demônios amontoavam-se umas sobre as outras.

Seguiram uma das trilhas, depois de abastecidos do indispensável por Sancho Pança. Não queriam separar-se, considerando que, além de perder-se uns dos outros, usufruiriam melhor dos achados atuando como várias cabeças pensantes.

A trilha, estranha como os labirintos borgianos, orientava-se para cima, para baixo, para a direita e para a esquerda, para leste e para oeste, para o invisível e para o sombrio, para o misterioso e para o horrível, para o desespero e para a esperança.

As placas se multiplicavam nas múltiplas direções, indicando as mais diversas situações de infâmia em qualquer tempo e lugar, embora estivessem fora do espaço-tempo. Como – e o quê – escolher?

Decidiram que precisavam pensar, confabular, escolher.

Assim, sentados em nuvens de nada, os pés apoiados em almofadas de nada, permaneceram horas, ou dias, ou séculos, ou milênios, pensando no que fazer.

Saberemos o que decidiram – ou não – no próximo capítulo.

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