Como armazenar ossadas de ancestrais nobres (receita de Eça de Queiroz)

Por Sebastião Nunes

Nunca imaginei que, mais de 100 anos depois de sua morte, o polêmico escritor português ainda tivesse tantos leitores apaixonados entre nós. Ótimo que assim seja, pois ele merece. Como homenagem a ambos os lados dessa gangorra (Machado X Eça), que tende a enferrujar com o tempo, preferi, em vez de atormentar os leitores com mais uma crônica suspeita sobre defuntos célebres, preferi, repito, reproduzir uma página do próprio Eça, sobre o cuidado que se deve ter com ancestrais mortos há séculos. O delicioso trecho está em “A cidade e as serras”, sendo uma sátira à idolatria dos mortos e às pretensões de nobreza.

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Aproveitando a minha companhia, as duas semanas de bucólica ociosidade que eu lhe concedera, o meu Jacinto preparou então a cerimônia tão falada, tão meditada, a trasladação dos ossos dos velhos Jacintos – dos “respeitáveis ossos” como murmurava, cumprimentando, o bom Silvério, o procurador, nessa manhã de sexta-feira, em que almoçava conosco, metido num espantoso jaquetão de veludinho amarelo debruado de seda azul! A cerimônia, de resto, reclamava muita singeleza por serem tão incertos, quase impessoais, aqueles restos, que nós estabeleceríamos na Capelinha do vale do Carriça, na Capelinha toda nova, toda nua e toda fria, ainda sem alma e sem calor de Deus.

 – Porque enfim V. Ex.a compreende – explicava o Silvério passando o guardanapo por sobre a larga face suada e por sobre as imensas barbas negras, como as dum turco –, naquela mixórdia… Ó! peço desculpa a V. Ex.a! Naquela confusão, quando tudo desabou, não pudemos mais conhecer a quem pertenciam os ossos. Nem sequer, falando verdade, nós sabíamos bem que dignos avós de V. Ex.a jaziam na capela velha, assim tão antigos, com os letreiros apagados, senhores de todo o nosso respeito, certamente, mas, se V. Ex.a me permite, senhores já muito desfeitos… Depois veio o desastre, a mixórdia. E aqui está o que decidi, depois de pensar. Mandei arranjar tantos caixões de chumbo quantas as caveiras que se apanharam lá embaixo na Carriça, entre o lixo e o pedregulho. Havia sete caveiras e meia. Quero dizer, sete caveiras e uma caveirinha pequenina. Metemos cada caveira em seu caixão. Depois: que quer V. Ex.a? Não havia outro meio! E aqui o sr. Fernandes dirá se não acha que procedemos com habilidade. A cada caveira juntamos uma certa porção de ossos, uma porção razoável… Não havia outro meio… Nem todos os ossos se acharam. Canelas, por exemplo, faltavam! E é bem possível que as costelas dum daqueles senhores ficassem com a cabeça de outro… Mas quem podia saber? Só Deus. Enfim fizemos o que a prudência mandava… Depois, no dia de Juízo, cada um destes fidalgos apresentará os ossos que lhe pertencerem.

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Pessoalmente considero perfeita a decisão do sábio Silvério. Ossos e caveiras, eles lá que se entendam. E se não se entenderem na escuridão do túmulo, decerto acabarão por se entender no Juízo Final.

Diante do Criador, ouvindo a trombeta do arcanjo Gabriel, que tíbia ousaria desafiar tal ou qual clavícula, reclamando para si a propriedade de certo crânio, nem mais nem menos bonito que outro, todos descarnados e todos rindo-se dos vizinhos?

Grande Eça! Que tua alma, lá no assento etéreo em que subiste, possa orgulhar-se de teu pequenino crânio que aqui se desfaz lentamente, por obra de laboriosos vermes ou, se não deles, pela ação do tempo, que a todos nos iguala, confunde e deleta.

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