Curiosos e tensos, nossos amigos começam a desvendar os segredos da eternidade, por Sebastião Nunes

Pelo jeito, essa distopia parece interminável. Continua o calvário de Jair Messias e a perplexidade de nossos amigos. Finalmente, porém, chegamos diante das três portas que se abrem no tempo.

Curiosos e tensos, nossos amigos começam a desvendar os segredos da eternidade

por Sebastião Nunes

Jair Messias se tornou, depois do mergulho no pântano de mijo e merda, um cara totalmente imprestável, como foi a vida inteira. Trump tropical e bufão substituto.  Mais imprestável que nunca, deixaram-no ali mesmo, às margens do pântano, vertendo urina pelas orelhas e cagalhões pela boca.

Nossos amigos, guiados por Kafka, entraram pela ampla porta do terceiro palco, sem que o Grande Irmão sequer piscasse um olho (era só um retrato, lembra?). As portas do primeiro e do segundo palco foram trancadas pelos guardas, que jogaram as chaves no pântano e se mandaram, até que enfim, missão cumprida.

Adão Ventura, Luís Gonzaga Vieira, Manoel Lobato, Sérgio Sant’Anna, Jimi Hendrix e sua guitarra, Sancho Pança e o carregamento de drogas, São Pedro e Gabriel desceram uma ladeira íngreme e deram de cara com três novas portas.

Na primeira estava escrito 1984. Na segunda, 2020. Na terceira, 2084.

Havia em frente uma ampla clareira gramada, e ali sentaram para deliberar, fartamente servidos por Sancho de drogas variegadas.

MERGULHADOS EM MEDITAÇÃO

Passaram-se três semanas e nossos amigos, magérrimos, continuavam na dúvida. Como dissera Jimi capítulos atrás, droga de todo tipo era o que não faltava, e era só de droga que naquele impasse precisavam, nada mais. Comida? Bah!

Até que em certa madrugada de lua cheia Kafka decidiu intervir:

– Caros amigos, permitam-me uma palavra – tossiu freneticamente, cuspiu num lenço, examinou o sangue vivo, pensou “tô fudido”. – Nem o agrimensor K demorou tanto pra decidir. Se não conseguiu nada no Castelo, não foi por demora. Se aceitam um palpite, desse jeito nunca chegarão a lugar nenhum. Exatamente como K.

– Quem é K? – perguntou Gabriel, que só entendia de cantorias celestiais.

– K é o personagem principal da obra-prima, na minha opinião, de Kafka. – esclareceu Vieira, versado na obra do judeu-tcheco-alemão. – Imaginem que o sujeito é contratado para trabalhar num castelo distante e nunca, mas nunca mesmo, consegue ter acesso a quem o contratou, nem saber coisa alguma sobre suas tarefas.

– Que doideira, cara! – espantou-se São Pedro, virando-se para o notável escritor e indagando: – Você é doido?

– Não tem nada de doido – disse Sérgio. – O que tinha de errado com ele era medo do pai, um cara grandalhão, parrudo e carrancudo, que achava o filho veado e vivia pegando no pé dele por causa disso.

– Se fosse hoje não haveria problema algum – acrescentou Lobato. – Hoje em dia cada um pode ser o que bem entender. Ninguém mais dá bola pra essas questões de gênero, a não ser Jair Messias e sua tropa de desparafusados.

– Em que mundo você vive, Lobato? – intrometeu-se Vieira. – Acho que tá precisando se informar melhor.

– Tá bom, pessoal – disse Jimi. – Vamos esquecer essas coisas e deliberar mais um pouco. Ando maluco pra encontrar uma boa plateia, daquelas bem loucas.

Sancho forneceu novas rodadas e todos meteram a cara numa boa.

ESCOLHENDO A PORTA CERTA

Algumas semanas depois, nossos amigos imortais-mortais-imortais eram só pele e osso, se é que espírito tem pele e osso. Mas até eles estavam ficando cansados de tanto cheirar, cafungar, picar, entornar e outros verbos drogais. Precisavam criar coragem, escolher uma porta e ver o que tinha do outro lado. Mas qual porta escolher?

– Proponho disputar na porrinha – disse São Pedro, considerado o maior jogador de porrinha do Paraíso. – Me parece uma forma assaz democrática.

– Porrinha, não – protestou Vieira, que nunca ganhava. – Prefiro par ou ímpar.

– Ora, Vieira, deixa de bobagem – reclamou Sérgio. – E como jogar par ou ímpar se somos tantos?

– Por eliminação, cara – explicou Lobato. – Disputamos dois a dois e o vencedor de cada etapa enfrenta o próximo até o vencedor final, que escolhe a porta.

– Pode até ser – concordou Sérgio. – Mas como formar a primeira dupla? Quem vai escolher os dois primeiros e depois os outros e assim sucessivamente?

– Vamos verificar se Jair Messias sobreviveu à merda – lembrou Adão. – Acho que seria um ótimo juiz. Tem cara de imparcial.

Nossos amigos se entreolharam espantados. Com certeza Adão Ventura, além de poeta, desencarnara nos primórdios do tempo, talvez até antes do Big Bang. Achar que Bolsonaro tinha cara de imparcial só podia ser coisa de vivente muitíssimo antigo.

– Concordo com Adão – disse Otávio Ramos que acabava de chegar, ninguém sabia de onde. – Jair Messias parece um cara extremamente honesto. Acabei de passar pelo pântano e vi como ele parece um sujeito plenamente confiável.

Desvario total. Pane geral. E se você não sabe quem é Otávio Ramos, leitor, não perde por esperar.

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