Da série Biografias Requentadas: Caramuru, por Sebastião Nunes

Por Sebastião Nunes

Caramuru fez brôôúúúúõõmmm! com sua espingarda e os índios aterrorizados caíram de quatro, bobos que eram, enquanto Caramuru ria a bandeiras despregadas. Um pássaro, que passava distraído por aqueles ares, recebeu a descarga e tombou fulminado. Como a cavalo dado não se olham os dentes, assaram e comeram ali mesmo o infeliz pássaro.

            Depois de uma boa sesta, foram à aldeia, que ficava às margens de um rio largo, onde Caramuru se banhou 1, indo depois espiar as moças casadoiras. A mais bonita se chamava Paraguaçu e era filha do chefão. Para cativá-la, Caramuru fez brôôúúúúõõmmm! com sua espingarda e as moças apavoradas caíram de quatro, bobas que eram, só Paraguaçu não caiu, ficando porém de boca aberta.

            Conquistada a donzela, visitou Caramuru a maloca do pai, levando-lhe de presente enorme peixe, que passou a se chamar Caramuru em sua homenagem, ou vice-versa. Após as apresentações, foi o peixe assado e servido com cauim, ficando todos um tanto bêbados. Esquecendo-se do motivo da visita, pôs-se Caramuru a cantar e a dançar, para alegria e pasmo dos presentes, que acharam muito bonita a música, mas detestaram a dança.

            Como já era tarde, Caramuru dormiu ali mesmo. De madrugada, Paraguaçu, que havia se apaixonado loucamente pelo estrangeiro, desde o maravilhoso, desconhecido e assustador brôôúúúúõõmmm!, esgueirou-se até a rede onde dormia Caramuru e se pôs a acariciar-lhe as partes genitais. Não podendo resistir aos encantos da moça, fez-lhe Caramuru, sem alarde, o que faria qualquer outro em tais circunstâncias.

            No dia seguinte, bem cedo, sentaram-se todos à mesa para o café, quando Caramuru pediu a mão da jovem em casamento. Concedida, ficaram noivos ali mesmo, tendo Caramuru disparado vários brôôúúúúõõmmms! com sua espingarda, em sinal de regozijo.

            Para o casamento, realizado algumas luas depois, foram assados mais de 100 macacos e quase 200 jacus e macucos, além de quatro portugueses bem gordos. 2

            Estiveram presentes à cerimônia cerca de 1.000 convidados de todas as tribos da região, que dançaram, cantaram, comeram e beberam durante três dias e três noites.

            Depois da festa, viajaram os recém-casados para a França, em lua-de-mel, sendo recebidos por toda a corte. Voltaram carregados de presentes e trazendo uma carta destinada ao pai de Paraguaçu, na qual o rei francês manifestava intenso desejo de conhecê-lo. 3

 

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1. O século da descoberta da América – o XV – e os dois imediatos, de colonização intensa, foram por toda a Europa época de grande rebaixamento nos padrões de higiene. Em princípios do século XIX – informa um cronista alemão citado por Löwie – ainda se encontravam pessoas na Alemanha que em toda a sua vida não se lembravam de ter tomado banho uma única vez. Os franceses não se achavam, a esse respeito, em condições superiores às de seus vizinhos. Ao contrário. O autor de Primitive Society recorda que a elegante rainha Margarida de Navarra passava uma semana inteira sem lavar as mãos; que o rei Luís XIV quando lavava as suas era com um pouco de álcool perfumado, uns borrifos apenas; que um manual francês de etiqueta do século XVII aconselhava o leitor a lavar as mãos uma vez por dia e, o rosto, quase com a mesma frequência; que outro manual, do século anterior, advertia os jovens da nobreza a não assoarem o nariz à mesa com a mão que estivesse segurando o pedaço de carne; que, em 1530, Erasmo considerava decente assoar-se a pessoa a dedo, uma vez que esfregasse imediatamente com a sola do sapato o catarro que caísse no chão. Pela Europa, os banhos à romana, ou de rio, às vezes promíscuos, contra os quais por muito tempo a voz da Igreja clamara em vão, haviam cessado quase de todo, depois das Cruzadas e dos contatos comerciais mais íntimos com o Oriente. O europeu se contagiara de sífilis e de outras doenças, transmissíveis e repugnantes. Daí resultara o medo ao banho e o horror à nudez. (FREYRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1975)

 

2. Chegada a ocasião de se divertirem, matam com solenidade um prisioneiro de guerra e, ao contrário do que fazemos, amornam o cauim, acendendo as mulheres pequenas fogueiras ao pé dos potes. E começam por um dos extremos da fila, descobrindo o primeiro pote e remexendo e turvando o conteúdo, do qual vão tirando cuias cheias, algumas de três quartilhos, e apresentando-as aos homens que a dançar lhes passam ao pé. Os homens tomam as cuias e as sorvem de uma assentada, enquanto as despenseiras, nos intervalos, vão bebericando sofrivelmente. Quantas vezes, e por quanto tempo isto? Tantas quantas necessárias para que na centena de potes ali enfileirados não fique uma só gota de cauim.

            Vi-os não somente beberem três dias e três noites consecutivas, como ainda, depois de saciados e bêbados a mais não poder, vomitarem tudo, recomeçando mais bem dispostos do que antes. (LÉRY, Jean de. História de uma viagem à terra do Brasil. Tradução de Monteiro Lobato. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1926)

            Ou (variante):

2. Golpeia o prisioneiro na nuca, de modo que lhe saltem os miolos, e imediatamente levam as mulheres o morto, arrastam-no para o fogo, raspam-lhe toda a pele, fazendo-o inteiramente branco e tapando-lhe o ânus com um pau, afim de que nada dele se escape.

            Depois de esfolado, toma-o um homem e corta-lhe as pernas, acima dos joelhos, e os braços junto ao corpo. Vêm então quatro mulheres, apanham os quatro pedaços, correm com eles em torno das cabanas, fazendo grande alarido, em sinal de alegria. Separam após as costas, com as nádegas, da parte dianteira. Repartem isto entre si. As vísceras são dadas às mulheres. Fervem-nas e com o caldo fazem uma papa rala, que se chama mingau, que elas e as crianças sorvem. Comem essas vísceras, assim como a carne da cabeça. O miolo do crânio, a língua e tudo o que podem aproveitar, comem as crianças. (STADEN, Hans. Duas viagens ao Brasil. Tradução de Guiomar de Carvalho Franco. Belo Horizonte: Itatiaia/EDUSP, 1974)

 

3. Um de seus caciques, Tabira, possuía grandes talentos militares, e era o flagelo das hordas inimigas: introduzia-se pessoalmente entre elas, para lhes espionar os acampamentos e escutar-lhes os projetos. Deviam, pois, essas tribos, ser do mesmo tronco e falar a mesma língua. Dispunha emboscadas, dava assaltos de noite, e trazia os inimigos em contínuo sobressalto. Por fim, reuniram eles todas as suas forças e, vindo sobre Tabira, o cercaram. Fez este uma sortida: uma seta lhe vazou um olho; arrancou-a ele e com ela o globo. Voltando-se para os seus, disse que para bater os inimigos lhe era de sobra o outro. (SOUTHEY, Robert. Historia do Brasil. Tradução de Luiz Joaquim de Oliveira e Castro. Salvador: Livraria Progresso Editora, 5 vols., 1948/1954)

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