Desesperado, coberto de merda e sem fôlego, Jair Messias chega ao terceiro palco, por Sebastião Nunes

Continuando a distopia, continua também o antipresidente Bolsonaro a nadar no fedorento pântano de merda e urina, na tentativa de atravessar a terceira porta do terceiro palco, onde reina absoluto o Grande Irmão. Quanto mais demorar, melhor.

Desesperado, coberto de merda e sem fôlego, Jair Messias chega ao terceiro palco

por Sebastião Nunes

Depois de ter a entrada proibida nos dois primeiros palcos, Bolsonaro nadou com o resto de forças que arrancou das tripas e chegou diante do terceiro palco, aquele em que se exibia a figura macabra do Grande Irmão.

Com arrepios de medo, frio e desesperança, Jair Messias buscou tomar pé no pântano, enquanto pensava (sic). O pântano era fundo pra dedeu e tudo o que conseguiu foi afundar alguns centímetros e, naturalmente, engolir dois ou três cagalhõezinhos, enquanto um dos cagalhões bitelões lhe roçava as narinas.

Agitou, frenético, braços e pernas, retomando o prumo. E reparou que ao lado do palco não havia outro guarda, mas um cidadão antigo, vestido à moda antiga, de terno e gravata antigos, colete e chapéu antigos, enfim, um cara que deveria ter existido entre a primeira e a segunda década do século XX. Como era ignorante de pai e mãe, é lógico que Bolsonaro não reconheceu o sujeito.

Nossos amigos imortais-mortais-imortais evidentemente o conheciam, tanto que abriram a boca e arregalaram os olhos de espanto (para usar dois clichês da literatura vagabunda), até que Luís Gonzaga Vieira se atreveu a murmurar:

– Mas é Kafka, meus camaradas, aquela cara não me engana.

Adão Ventura, Manoel Lobato e Sérgio Sant’Anna concordaram: tratava-se, sem a menor dúvida, do notável escritor Franz Kafka. E se houvesse alguma dúvida, bastava olhar para o enorme inseto tipo barata que, diante de Kafka, deitado de costas, agitava as inúmeras perninhas cobertas de pelo escuro.

KAFKA SE EXPLICA

São Pedro e o arcanjo Gabriel, que não tinham a menor ideia de quem fosse Kafka, olhavam com espanto o desconhecido, tão importante para nossos amigos, sem atinar para sua aparência um tanto demodê.

– Mestre Kafka! – exclamou Vieira, tomado de espantado entusiasmo ou, caso prefiram, de entusiasmado espanto. – A que devemos a honra de sua aparição?

Kafka não abriu a boca. Quem respondeu por ele foi o inseto gigante, sem deixar de agitar as perninhas cabeludas.

– Ficamos cientes, lá no assento etéreo a que subimos, do estranho fenômeno a se passar nesta inimaginável dobra do tempo – que, aliás, não existe – em que convivem três datas incompatíveis com a realidade, e mais chegadas a um absurdo kafkiano, se assim me permitem expressar minha curiosidade.

– Ora, ora, ora! – ironizou Sérgio. – Como se não bastasse o Grande Irmão, no centro do palco e mudo como um peixe, ainda temos Kafka se expressando pela boca – será mesmo boca? – desse bicho asqueroso que ele inventou há mais de cem anos, e que desde então não deixa de assombrar nossa imaginação.

– De fato – concordaram Adão e Lobato. – De fato é extraordinário que, numa hipotética confluência de 1984, 2020 e 2084, tenhamos reunidos na mesma franja temporal as figuras antipodais de Franz Kafka, do Grande Irmão, de Sancho Pança, de Jimi Hendrix e de Jair Messias.

Vieira, o mais purista de todos, estranhou que dois imortais-mortais-imortais de tal forma pudessem se expressar, isto é, com as mesmas palavras numa frase tão extensa. Antes, porém, que pudesse verbalizar sua estranheza, notou o desaparecimento do antipresidente Bolsonaro.

RESGATANDO UM VILÃO

– Pelas barbas de Geová! – explicitou Vieira seu espanto. – Será que o canalha do Jair Messias fugiu?

– Cansado como estava – advertiu sempre ardiloso Sancho Pança –, seria mais do que impossível fugir a nado nesse pântano de merda. A menos que algum de seus antiministros houvesse descoberto a encruzilhada temporal em que estamos, descoberta cosmologicamente improvável.

– Olhem uma bunda ali! – apontou Adão Ventura. – Quem sabe a bunda de Jair Messias aprendeu a flutuar?

– Só pode ser a bunda dele! – apressou-se o sempre categórico Sérgio. – Vamos puxá-lo pelo traseiro.

Imediatamente, o arcanjo Gabriel materializou rijos pedaços de bambu, na ponta dos quais surgiram fortes ganchos de aço. Com cada um dos imortais-mortais-imortais puxando, empurrando, derivando, contornando e trazendo, puderam aos poucos atrair para a margem do fedorento pântano o semiafogado Bolsonaro.

São Pedro só assuntava.

O Grande Irmão ria maldosamente.

Kafka permanecia calado.

Jair Messias, os pulmões inundados de urina e o estômago entupido de merda, foi submetido pelo inseto gigante a demoradas sessões de respiração boca a boca, com as quais, pouco a pouco, retornou à vida e sentiu, com nojo e terror, o próprio fedor.

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