Desventuras de dois moleques cariocas no Morro do Livramento, por Sebastião Nunes

O tempo, que não escuta lamentos nem se ocupa de queixumes, revirou os anos e as décadas até se largar numa época muito diferente, mas nem tão diferente assim.

Desventuras de dois moleques cariocas no Morro do Livramento

por Sebastião Nunes

Quando estes acontecimentos se deram, o Rio de Janeiro nem sonhava em se tornar o paraíso tropical dos políticos profissionais, dos criminosos de colarinho branco, das milícias organizadas e da maior rede internacional de lavagem de dinheiro via CBF e seus marginais sucessivos, antecessores e sucessores.

O Pão de Açúcar e o Corcovado competiam em galhardia, Copacabana era um bairro remoto, Botafogo e Laranjeiras disputavam entre si qual deles abrigava a maior quantidade de barões, comendadores, mulheres bonitas e vagabundos endinheirados da capital do Império.

Nessas redondezas, trepados no Morro do Livramento, viviam dois moleques de mais ou menos 9 anos, um negro e outro mulato.

O mulato fora batizado como Joaquim Maria, mas atendia por Quincas. De sua magra figura podia dizer-se que era apático, deprimido e triste. O negro, risonho e da pá virada, atendia por Onófrio, sabe-se lá por quê. Eram amigos inseparáveis.

Subindo e descendo o morro, dedicavam boa parte do dia a estilingar rolinhas, cumprir pequenos mandados nas redondezas, ajudar as mães na preparação de almoço e janta, buscando o de comer na venda ao pé do morro que, bem sortida, dava com sobra para as escassas exigências dos moradores modestos.

 

MAMÃES E PAPAIS

O mulato Quincas, filho único, tinha como pai um negro alforriado, que vivia do ofício de pintar paredes. E tinha como mãe uma lavadeira portuguesa dos Açores, aqui chegada em leva de necessitados de um tudo. Juntaram as necessidades, amarraram os panos e, sem papel passado nem nada, deram com os costados no Livramento.

O negro Onófrio, cujo nome sugeria erro de ortografia, tinha como mãe uma negra forra da Guiné, quitandeira fornida de carnes e malícia, amasiada com esbelto carroceiro angolano, que se virava comerciando ferro velho e outras quinquilharias.

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O que tinham os pais de Quincas de desengraçados, tinham os pais de Onófrio de caraduras, de modo que os segundos prosperavam onde os primeiros amuavam. Bons vizinhos, contudo, frequentavam-se e gostavam-se, assim como os filhos únicos.

 

O MULATO EM APATIA

Quando não estava em tropelias com Onófrio, quedava-se Quincas num canto da cozinha, à disposição da mãe atarefada. De cócoras, esgaravatando os dedos dos pés na busca de parasitas, vigiava com o canto do olho o ir e vir da mãe.

“Se em vez de casar com um preto”, pensava ele, “tivesse minha mãe escolhido um marido branco, eu seria também branco, sem essa cor desgraçada e esse cabelo de arame”. E não sabia se sua ojeriza seria dirigida à mãe, que lhe permitira a mulatice, ou ao pai, que lhe entintara com más tintas o sangue.

E voltava a esgaravatar os dedos dos pés e voltava a olhar arrevesado para a mãe que lhe amargurava a vida.

 

O NEGRO EM REBELDIA

Em casa, Onófrio não parava quieto. Da sala-quarto para a cozinha e da cozinha para a sala-quarto, que o barraco era só isso –, apenas sossegava quando se via na rua a serviço da mãe, que quitandava para fora, e lá se ia levando a encomenda.

Ia, cumpria, recebia a paga e, caso não encontrasse Quincas e se perdessem nas ruas e seus quefazeres, voltava sobre o rastro e aninhava-se, sossegado alguns minutos, ao pé da mãe negra. E cismava.

“Se em vez de casar com uma negra, meu pai, bonitão como é, bem poderia ter se juntado com uma branca como fez o pai de Quincas. E aí eu seria mulato, mesmo que puxado para o retinto, mas ainda assim mulato, e não preto como a noite”, e descaía o beiço e quase soluçava de desgosto.

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ENQUANTO ISSO NO FUTURO

O tempo, que não escuta lamentos nem se ocupa de queixumes, revirou os anos e as décadas até se largar numa época muito diferente, mas nem tão diferente assim.

Quincas cresceu, amadureceu, não esqueceu os queixumes, mas lutou durante a longa vida bem-sucedida para se tornar branco, o que quase conseguiu: foi presidente da Academia Brasileira de Letras (ambiente de brancos), morador do Cosme Velho (bairro de brancos), escritor famoso (função quase que só reservada a brancos), casou-se com uma portuguesa branca (privilégio de poucos) e foi reconhecido, ainda em vida, como o maior escritor brasileiro, gabado e louvado e paparicado.

Fica, porém, pinicando na orelha a dúvida: quando foi, já no decorrer do século XX, que o sentimento de inferioridade que subjugava Quincas e Onófrio transmudou-se em orgulho, elevado a Negritude e autoestima, expulsas para o limbo do menosprezo as desgraças da autopiedade e do rancor filial?

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2 comentários

  1. Devo estar errado, mas estou sentindo um cheirinho de reducionismo.
    Ser mulato não era o único “estigma” de Machado. Ele também era epilético.
    A tal “portuguesa branca”, Carolina, com quem se casou era uma mulher bonita e culta a quem muitos atribuem participação no aprimoramento intelectual do escritor. Existem teorias de que nosso Machado pertencer a um grupo seleto de escritores, que inclui Eça de Queiroz, seria resultado, entre inúmeras coisas, também de Carolina ter tido um relacionamento (real, pretendido ou frustrado) com Eça.
    Acho que mesmo para um Machado ainda moleque, seria impossível um pensamento tão idiota quanto: “se minha mão tivesse se casado com outro homem, seria melhor para mim”. Obviamente, ele sabia que não existiria, se o pai fosse outro.

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