Dominó de Botequim, por Rui Daher

Por Rui Daher

A ideia de Manoel para o Rolex era bonita, nobre. Além do mais, serviria para divulgar a seriedade alegre de um esporte que percorre os mais recônditos lugarejos tropicais e subtropicais, onde vive uma gente que nasceu para ser rica de recursos, sentimentos e brincadeiras, mas baixa as calças e deixa tudo para uma elite de vitrine, pechincha cultural que a eles pede sangue, suor e lágrimas em troca de um facho de luz de chaveiro-lanterna.

Sugeria intensa campanha de divulgação do 12º Campeonato Mundial de Porto Rico, com chamada para a rifa do Rolex. Tem contatos com Luciano Huck, Globo Esportes, Record, grandes portais da internet. A própria ESPN transmite um campeonato mundial, comentado por seu amigo Astolfo Corrêa. A arrecadação com as rifas seria extraordinária, o prêmio dado ao brasileiro melhor colocado, e o Serafim reabriria o boteco na velha tradição.

Em minutos, o próprio Manoel saiu da euforia à prostração:

– Acho que não daria tempo. O evento começa no dia 26 deste mês, e eu mesmo disse que a tarefa era urgente.

– Evitei cortar sua empolgação, mas também pensei nisso.

– Seria bacana a mobilização. Poucos se negariam a ajudar.

Há coisas, sabe-se lá se do além, daqui ou acolá, que vêm para nos mostrar que “tentando tudo dá”. Ao menos quando é para o mal. Vejam o Brasil, sempre ameaçado no regime democrático.

Nem bem acabara de sair do Bar da Dona Onça, desejando feliz viagem a Porto Rico para o Manoel, e certo que não desistiria do projeto, quando o telefone toca. Identifico Virgínia me chamando.

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– Oi Virgínia, tudo bem?

– Um pouco enjoada.

– É comum na gravidez.

– Não é isso, não. É com esses vagabundos do Congresso e da velha mídia fazendo pressão para o golpe.

– Vejo isso meio improvável.

– O quê? Você sempre otimista. Não sabe o que ando ouvindo por aí. Mas não te liguei pra isso, não. Tô mais ligada no Botequim, no Serafa e no Rolex.

– Estive com o pessoal da Federação de Dominó. Gostariam de ajudar, mas não dá mais tempo.

– Eu e o Nonato João tivemos uma ideia. Com o nascimento do bebê, a dureza do casal, se não era talco nem diamante sempre esteve na faixa da fluorita. Pois bem, agora vai subir uns dois degraus. Feldspato, talvez.

Dou risada.

– Daí que levamos algumas joias de nossos pais para penhor na Caixa Econômica Federal. Levantamos uma boa grana, na horinha, não precisou muita papelada, e os juros são mais civilizados do que cobram esses banqueiros filhos de uma égua. Viu como fiquei mais educada, agora que vou ficar mamãe?

– Mas eles avaliam os bens por um valor menor. Acho que só o Rolex não vai dar para os gastos com a reforma do botequim.

– Não é bem assim. O Nonato se informou bem. Tá sabendo de todos os triquiliques.

– Pode ser um caminho. Não podemos desistir, mas confesso que já estava desencanado com a rifa. A quem oferecíamos se no grupo a dureza tá pra mais de feldspato e conhecemos pouca gente de grana? O bom, velho e popular “prego” …

– E tem mais, Rui, não precisa ser somente o Rolex. Todos nós temos alguma joia ou bem valioso em casa. Amigos nossos poderiam ser convencidos ao penhor. Coisas que nem usam mais. Além disto, ninguém perde nada. Vai renovando. Conforme o botequim vai lucrando, parte vai sendo reservado para pagar as parcelas ou resgatar alguns bens dados em garantia.

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– Porra, Virgínia. Pode ser uma saída, ou entrada, não sei. Vamos marcar para o próximo domingo uma reunião no salão da paróquia da Igreja São José de Belém, propor a ideia, e ver se todos aceitam colaborar.

– E como está a saúde do Serafa?

– O Netinho está tomando conta dele. Telefonou dizendo que o português está se recuperando bem da dengue, e só pergunta da reabertura do botequim.

– Que bom! Pera aí, que o “Cordelista Louco” quer falar com você. Beijo.

– Beijo.

– Tudo bem, Rui?

– Agora, com a ideia da Caixa, bem melhor. Fala Nonato.

– Pensei em algo santo. Até escrevi um cordel místico sobre o tema.

– Vai dar para o Zé Ramalho cantar?

 – É sério! Você não acha que diante do mérito da causa, do histórico do Serafim ter sido passado pelos safados do mercado financeiro, o viés esportivo do empreendimento, o gesto nobre do Buqué cedendo o Rolex, o envolvimento que o padre Luís tem com o grupo, a paróquia não cederia uma parte daquelas maravilhas em ouro puro que ela tem para levarmos a penhor na Caixa?

– Nonato, se não fôssemos tão amigos e eu não estivesse de bom-humor, te mandaria tomar naquele lugar.

– Sei não. Acho que você não tem prestado muita atenção no que diz e em como age o Papa Francisco. 

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3 comentários

  1. Quem tem amigos de ouro, qualquer paixão os diverte.

    Aposto e ganho: quem não tiver um prendedor de gravata, um parzinho de abotoaduras, um anelzinho com pedrinha de rubi em casa pode entrar com aquela pulseirinha de balagandãs que se usava bastante e todo mundo tinha, da namorada à patroa, filha ou afilhada.

    Esse prego vai dar jogo, Rui.

    Escreve aí. ,

  2. Fazer penhor na Caixa, e/ou doar velharias, não resolve.

    Na última vez, em que os “bons” brasileiros foram convocados, para civicamente doarem seus penduricalhos e ouros velhos, para levantar recursos, para criar e manter firme, a que seria a maior empresa brasileira, a Petrobrás, todas as joias de valor dos nossos pais, foram entregues, para que logo em seguida, fossem transformadas em “meio circulante” o bom e velho dinheirinho, e a partir daí, serem surrupiadas poe espertos diretores da criada Petrobrás, e somente agora em 2014, esta prática criminosa de corrupção endêmica, começar a ser investigada e seus envolvidos(corrúptos e corruptores) punidos, e a culpa destas práticas de dezenas de anos seguidos, serem jogadas nas costas e na conta da atual Presidente da República, como se isto tivesse começado, somente agora.

    Por isso, não acredito na boa vontade dos “botequineiros” do blog, para resolver esta pendência do grupo. Acredito mais em esquecermos estas utopias, e fazermos como fíz hoje: acordei cêdo(nem fui na habitual missa dominical, na Igreja do Jd Anália Franco, e fui ao estádio do Morumba, assistir a um belo jôgo, do tricolor mais lindo do mundo, e na saída do estádio, comer o mais gostoso sanduiche de pernil da cidade, mesmo pagando o mais alto preço de cerveja, desta cidade, e o mais alto preço de estacionamento, da cidade também.

    Afinal a vida não é mesmo perfeita !

  3. Acho que vou citar…
    “uma gente que nasceu para ser rica de recursos, sentimentos e brincadeiras, mas baixa as calças e deixa tudo para uma elite de vitrine” !

    Rui! Perfeito. Lendo esta tua definição tão cirúrgica – ai, não vou resistir ao trocadilho – me lembrei do Caiado, jurando a Hipócrates e associado à boa e velha UDR! Elite coisa nenhuma; classe dominante e olhe lá!

    Falta nos faz o Tarso no enfrentamento, mas temos o Rui na verve e na crônica Imperdível dos domingos!

    Já Francisco – ah, se o poverello o visse agora – vamos reservar algumas orações em seu favor porque ele está a mexer em vespeiros!

    Até domingo ou na próxima edição extraordinária!

    Abraço!

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