Dominó de Botequim, por Rui Daher

Rachamos uma caldeirada no Tia Lena. Muito boa. Como eu iria dirigir na volta, pelo difícil caminho até Marsilac, com o valente EFFA M-100, dividi uma garrafa de Porto dos Alves com o Serafim. Risco por risco, imaginei o chinês mais letal.

Depois do lava-pés marítimo, o português manteve o ritual que deixamos, os brasileiros, de seguir há décadas. Entrar num comedouro, mesmo que a beira-mar, requer vestes dignas. Retirou o chapéu, na entrada, para cumprimentar a proprietária como se a conhecesse de longo tempo, e fez reverente beija-mão.

– Sabes, Rui, tenho uma atração fatal por mar.

– Que ela não chegue ao afogamento, brinco.

– Nasci e cresci no Aveiro. Toda a família é de lá. Para os padrões de Portugal, uma cidade grande, litorânea, com boas praias. Na família brincava-se que essa paixão veio com o fato de numa delas meus pais me conceberem.

– Talvez, seja isso. Penso que o mesmo aconteceu com um de meus filhos, em Ilhabela.

– Apesar do Aveiro ser assim, o melhor presente que meus pais poderiam me dar, quando criança, era levar-me a Viana do Castelo, na Praia do Bico.

– Já rodei por lá. Não fica longe.

– Nada em Portugal fica muito longe. Uns 150 km, uma hora e meia.

– Algo específico no Bico?

– Mais calmo, menos frequentadores, ondas calmas para crianças, e Maria Amélia.

– Prima?

– Não. Paixão de 12 anos. Com ela nunca conversei, mas até hoje ouço sua voz chamando os irmãos, falando aos pais. Dela não tirava os olhos no alpendre do hotel em que ficávamos. Reconheceria ainda hoje aquela voz, os dentes adolescentes um pouco proeminentes. Talvez uns dois ou três anos mais velha do que eu, mas quando caminhava eu quedava paralisado.

– E o que havia de estranho em ela caminhar? Algum defeito físico?

– O jeito.

– Quantas vezes você a viu em Viana?

– Duas.

– É, fazer a família viajar uma hora e meia para ver o fantasma da Maria Amélia, só mesmo o Serafa que eu conheço.

– Não era só por isso, mas era isso. E como andam as coisas?

– Mal. Não tem assistido ao Jornal Nacional?

– Não tenho e nem quero ter TV.

– Alguns canais passam o Campeonato Português.

– Torço pelo Sport Beira-Mar, time de Aveiro. Disputa a Segunda Liga. Me referi ao Botequim do Dominó, que assim deveria ser a ordem, a prioridade.

– Se o Manoel Vieira te ouve …

– Ordem alfabética, Rui.

– Ah, bom. Mas as coisas estão indo devagar, Serafim.

– Você tem certeza de que foi uma boa ideia esse renascimento?

– Confesso que achei que seria mais fácil. Você sabe como sou dado aos sonhos. Sempre lutei por eles. Me fiz, desfiz, refiz, tô desfeito de novo.

– Temos nos machucado muito.

– Jovem ainda, no ginásio católico, achei o mundo errado e que deveria lutar para arrumá-lo. Dos evangelhos aos movimentos estudantis, Alceu Amoroso Lima, Bertrand Russell, Marx, Trotsky, não tinha mais parada. Como tantos de minha geração.

– Fui assim até a Revolução dos Cravos de Portugal, em 1974. Depois vim para o Brasil, e no fundo pouco mudei, mas cansei. O outro lado é muito forte. Hoje, só esmurro batatas.

– É como escreveu Aldir Blanc, “muita matraca pra pouco berro”. Até um ano atrás pensei um Brasil no rumo do que eu queria e lutava. Foi assim que achei que precisávamos reabrir o Dominó, um real botequim, democrático, seu, com o ritual de todos os domingos.

– Nosso botequim. Exatamente às 11:30, todos silenciavam e alguém recitava um poema de Fernando Pessoa.

– Era hora da nossa Ave-Maria, mas não a Amélia.

– Não perdes uma, Rui.

– Isso não quer dizer que desisti, mas …

Silêncio. Mas, o cacoete das folhas e telas cotidianas para atrair os sicários da felicidade. Adversam, sempre a nos lembrar de uma merda a anular achados de Darcy Ribeiro, entraves para desacreditarmos em nosso povo, nossos governantes. Diferente do mundo para fora de nossas fronteiras, sempre probo, resplandecente, educado.

– Vais desistir, Rui?

A pergunta bateu no capenga fígado. Antes de responder pensei em orar, ligar ao Padre Luís, prometer ir de joelhos até a paróquia. Coloquei uma cunha – não o deputado – que me permitisse tempo.

– Nunca fui de desistir, Serafa. E quem sabe da minha história sabe que já o poderia ter feito há muito tempo. Você topa outra garrafa do vinho? Se eu não estiver apto a dirigir até o entardecer, dormimos numa pousada por aqui e saímos amanhã cedo. Até porque, como chinês, o EFFA tem um fuso horário diferente.

– Vai em frente.

O sol já caía no mar – sei que não deveria, mas os poucos leitores compreenderão a batida imagem – quando depois de cinco garrafas de vinho, deixamos o Tia Lena, não sem antes o Serafim, desta vez, beijar delicadamente o rosto da proprietária, pedir-lhe indicação de pousada, colocar o chapéu e ajudar-me a localizar o EFFA estacionado na porta do restaurante. Lá ficaria.

Dormi, querendo muito sonhar. Mas toda essa história não seria já um sonho?

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