Dominó de botequim, por Rui Daher

Por Rui Daher

A festa na paróquia para saudar o cordel que se formava no ventre de Virgínia, por ato amoroso de Nando, demorou para terminar.

Milagrosamente e com todo o respeito, os vinhos selecionados pelo Padre Luís e trazidos pelo outrora tenente do Exército, Prudêncio, e os salgadinhos de Dona Zilá, multiplicaram-se em garrafas de “Boazinha”, “Sapucaia Velha”, e da brutal (47º) “Paus e Picas” – mais uma vez, com todo o respeito – e em sanduíches de pernil, comprados numa padaria do Largo São José de Belém.

– Ô Luís! Fiz a do meio-dia, mas a das 19 tinha ficado para você. Falta só meia hora e os fiéis já estão chegando para a missa.

Com todo o respeito, ajudamos Padre Luís a se equilibrar até a sacristia, paramentar-se, e o Magrão, ainda imberbe, prontificou-se servir de coroinha, caso o celebrante desse algum escorregão.

Na quinta-feira, 18, enquanto eu me preocupava com a integridade física da missão brasileira que havia invadido a Venezuela, temeroso de que seu líder errara o caminho, pois tem muito mais afinidade com país a oeste do bolivarianismo, recebi uma ligação do amigo atleta do dominó, Manoel Vieira, me informando do Mundial da FID, Federação Internacional de Dominó, que acontecerá, entre 26 de julho e 2 de agosto, em Porto Rico.

Uma delegação brasileira irá nos representar na disputa. Esta, sim, uma invasão totalmente pacífica, de caráter esportivo, ainda mais em território sempre indeciso em pertencer, ou não, juridicamente, aos Estados Unidos. Quem se atreveria?

– Bom saber, Manoel. Vamos torcer e boa sorte a todos. Você ficou sabendo que estamos trabalhando num projeto para ajudar o Serafim a reabrir o Dominó de Botequim?

– Não, o que aconteceu?

Resumi a história com o outro lado em silêncio permanente. De tempos em tempos, eu precisava perguntar se ele continuava na escuta, pois há dúvidas sobre a eficácia de meu Tim, posse mantida como homenagem ao genial Maia. Apenas quando falei do Rolex foi que Manoel se manifestou:

– Precisamos de uma conversa urgente. Todas as segundas-feiras vou à Federação. Você poderia me encontrar lá na próxima?

– A que horas?

– Final da tarde, lá pelas sete.

– Combinadíssimo.

No mais, o Projeto Serafim passara a semana sem grandes novidades. O Padre Luís nos informara que no domingo não poderíamos usar o salão da paróquia para reunião. Um acólito dissera ao Padre Márcio que haviam programado uma atração da Virada Cultural para o Largo São José de Belém, e o padre, temeroso de que nosso encontro acabasse como na última vez, não autorizou o uso do espaço.

Pesquisei na internet, e não encontrei nada programado para o Largo. De duas, uma: ou o acólito havia confundido Fafá com São José, ambos de Belém, ou, com todo o respeito, era uma desculpa esfarrapada do pároco-chefe, desgostoso com nossa recente alegria canavieira.

Assim, as notícias do Projeto vieram em curtos telefonemas, rápidos e fortuitos encontros, mensagens no celular. Informes pouco animadores.

Mesmo com a grana em mãos seria demorado regularizar a situação na Prefeitura Municipal. Não ironizei, sugerindo o uso das ciclovias.

O empreiteiro dizia que se não começássemos logo as obras de reforma, pegaria outro serviço. Citou a crise e a Dilma.

Magrão contou que recebera oferta de compra do Rolex numa bocada especializada em vender relógios roubados, e que o sujeito garantia que não havia riscos, pois tinha a “Justa” nas mãos.

Pensei: “nas mãos; até que a Polícia Federal e o Ministério Público arrumem um jeito de colocar o Lula em certa “Operação Corda em Relógio Automático”.

A notícia mais preocupante, no entanto, viera do Netinho. O Serafim ligara para ele pedindo ajuda. Estava muito doente e não conseguira imediato atendimento na Unidade Básica de Saúde de Marsilac. Mandaram-no esperar duas semanas, mas a febre estava alta, vomitava e sentia dores pelo corpo.

A primeira pessoa que me veio à cabeça foi o Dr. TT, em Piracicaba. Será que poderia largar seus afazeres médicos, catedráticos e etílicos, e cruzar 168 quilômetros de estrada para atender ao português?

Liguei imediatamente para o Osorinho e pedi que usasse de sua influência com o Dr. Teodoro Toledo.

– Pode deixar, Rui. Providencie logo as moedas de troca. E lembre-se de que pechinchas não serão bem-vindas pelo TT. 

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5 comentários

  1. ‘Largo São José do Belém

    ‘Largo São José do Belém ‘…

          Vc é do tempo do bar do  ”Jacaré”?—deve ter sido a pioneira em vender mortadela Ceratti.E os churrascos,hein?

                  

              Não a Belga de hoje que é cara e ruim.

  2. Sempre é tempo …

    Fim de semana muito doído e a tua crônica trazendo um momento de suavidade e desligamento.  Não comentei antes, mas agradeço agora.

    Um Abraço!  Até domingo!

     

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