‘Elo perdido’ da literatura russa ganha 1ª tradução no Brasil

Jornal GGN – Que Fazer?, livro do jornalista russo Nikolai Tchernichévski e considerado um elo perdido dentro da literatura do país, ganhará sua premeira tradução no país, assinada pelo historiador da USP Angelo Segrillo. Escrito em 1862 enquanto Tchernichévski estava preso sob acusação de ser um agitador político, Que Fazer? se otnrou o livro de cabeceira de Lênin e foi leitura obrigatório para estudantes da União Soviética. 

O livro conta a história de Vera Pavlovna, uma jovem de classe média que sela um casamento fictício com um estudante de medicina para fugir do matrimônio arranjado por seus pais. “Era uma espécie de feminismo ‘avant la lettre’, muito à frente de sua época”, diz Angelo Segrillo.

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Da Folha

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BEATRIZ MONTESANTI

Que mal há em escrever um romance?, pensaram os guardas do forte são Pedro e são Paulo, em São Petersburgo, onde estava enclausurado o jornalista Nikolai Tchernichévski, atendendo assim ao pedido do prisioneiro de lhe conceder papel e tinta. Décadas mais tarde, a Rússia convulsionava em uma revolução em boa parte impulsionada pelas palavras ali escritas.

“O que Fazer?”, obra resultada daquele favor, é uma espécie de elo perdido da literatura do país: levou seu autor ao exílio na Sibéria, irritou Dostoiévski, virou livro de cabeceira de Lênin e foi durante anos leitura obrigatória para estudantes da União Soviética, até cair no desgosto com a abertura política da Rússia e ser tachada de mal escrita.

O livro acaba de ter sua primeira tradução para o português, assinada pelo historiador da USP Angelo Segrillo e parte de um processo de redescoberta ocidental de uma passagem subestimada da história russa.

O episódio na prisão aconteceu em 1862. Tchernichévski (1828-­1889), que escrevia para para a revista “Contemporâneo”, periódico de maior tiragem à época, estava detido sob acusação de ser um agitador político.

“O que Fazer?” apareceu primeiro de forma fragmentada na publicação, o que, segundo Segrillo, contribuiu para despistar a censura czarista de seu conteúdo heterodoxo.

O livro conta a história de uma jovem de classe média, Vera Pavlovna, que sela um casamento fictício com um estudante de medicina para fugir do matrimônio arranjado por seus pais. Depois, ela se apaixona pelo melhor amigo do estudante. O triângulo amoroso seria resolvido, nos padrões da sociedade de então, em um duelo. Mas, na obra, o marido de fachada sugere que todos morem juntos.

A protagonista, além de se recursar a seguir o destino comum às moças de sua classe, cria uma cooperativa de mulheres costureiras e, até o término do enredo, decide estudar medicina, em um período em que mulheres mal tinham acesso ao ensino superior.

“Era uma espécie de feminismo ‘avant la lettre’, muito à frente de sua época”, diz Segrillo. “Tchernichévski tinha uma filosofia de que os homens reprimiram as mulheres por tanto tempo que elas deveriam ter vantagem em alguns pontos.”

Segundo pesquisadores, a obra estava inserida em um contexto de conquista de direitos no país: há, no período, um aumento expressivo do número de mulheres russas em universidades europeias.

Como mostra o historiador Odomiro Fonseca, em sua tese de doutorado pela USP, entre 1864 e 1872, 203 mulheres se matricularam na Universidade de Zurique, na Suíça, das quais 148 eram russas.

“Já se esboçava no país um movimento que reivindicava o direito da mulher à educação superior, assim como o de escolher o próprio marido”, diz a professora de letras da USP Fátima Bianchi. “É inegável o espaço que Vera Pavlovna abriu para as futuras gerações de jovens.”

MÁ REPUTAÇÃO

Mas não foi o protofeminismo embutido na obra nem a discreta sugestão de um “ménage à trois” em plena Rússia czarista que causaram indignação em escritores como Fiódor Dostoiévski.

Tchernichévski defendia um modelo racional de vida, inspirada nos pensadores utilitaristas europeus. “Ele pregava que, se cada pessoa perseguisse seu próprio objetivo de forma racional, e tentasse ser feliz, todos seriam felizes”, explica o historiador Michael Katz, da Middlebury College (EUA), responsável pela mais recente tradução de “O que Fazer?” para o inglês. “Quando Dostoiévski lê o romance, ele pensa que esse cara é muito simplista.

Escrito em resposta a “Pais e Filhos”, de Ivan Turguêniev, o livro de Tchernichévski foi alvo de represália em “Memórias do Subsolo”, de Dostoiévski –portanto fundamental para a compreensão dessas obras.

“‘O que Fazer?’ é uma espécie de elo perdido da dinâmica literária russa”, afirma Bruno Gomide, professor de letras russas da USP.

Por que, afinal, um romance tão influente teria sido ignorado por tantos anos? São diversas as respostas, dizem os pesquisadores.

Aclamado durante o período soviético, o livro adquiriu um estigma negativo após o término do regime, por ter sido “empurrado goela abaixo”, afirma Katz.

“O texto tem uma má reputação no país. Acho que ninguém mais o lê na Rússia.”

Professora de letras na USP, Elena Vássina é exemplo dessa geração. “Eu me formei lá e isso foi uma obra obrigatória em todos os níveis do estudo. Um tipo de catequese, pois Lênin falava sobre sua importância. Mas é um romance muito tendencioso, não é boa literatura”, diz.

Especialistas também chamam a atenção para a falta de tradutores do russo no Brasil. “Escritores como Dostoiévski e Tolstói tiveram a preferência editorial e de estudos”, diz o historiador Camilo Domingues. “Não apenas Tchernichévski permanece desconhecido do público em geral, como diversos outros pensadores que pertencem à história daquele país.”

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