Em boca fechada não entra mosquito, por Sebastião Nunes

Certo dia, quando o Sol bestava no céu e as pessoas bestavam nas ruas, duas moscas se encontraram sobre a cara de Jair Messias Bolsonaro.

Em boca fechada não entra mosquito, por Sebastião Nunes

Certo dia, quando o Sol bestava no céu e as pessoas bestavam nas ruas, duas moscas se encontraram sobre a cara de Jair Messias Bolsonaro.

            Uma das moscas era grande, a outra, pequena.

            Procuravam comida, vestígios de gordura e sebo entre rugas e poros.

– Bom dia, Hermengarda.

– Bom dia, Henriqueta.

– Está gostando do almoço?

– Quebra o galho.

– Ouvi dizer que esse Messias é danado de ruim.

– Também ouvi.

– Será que gordura e sebo de gente ruim faz mal?

– Se fizesse, faz tempo a gente teria morrido.

– Concordo.

            Optaram por almoçar em silêncio durante alguns minutos. Até que Hermengarda ergueu a pequena tromba:

            – Você consegue ver os ossos dele?

            – Nem ossos nem vísceras – retrucou Henriqueta.

            –  Fico imaginando daqui a alguns anos. Será apenas um punhadinho de ossos.

            – Verdade.

            – Se for cremado, será apenas um punhadinho de cinzas.

            – Sem dúvida.

            – Um punhadinho de ossos malvados.

            – Ou um punhadinho malvado de cinzas.

            – Será que osso de defunto pode fazer maldade?

            – Os antigos diziam que sim.

            – E as cinzas, depois de tudo queimado, também podem fazer maldade?

            – Os antigos acreditavam que sim.

 

            CONTINUA O PAPO

            Hermengarda fez uma pausa e comentou:

            – Como será que se lembrarão dele?

            – Será que alguém vai se lembrar?

            – Acho que sim. Filhos e netos. E os que tiverem trabalhado com ele. E os amigos, se é que teve amigos. Até morrerem também.

            – Verdade. Alguma coisa ficará. Nem que sejam as maldades.

            – Deve ser horrível ser lembrado pelas maldades.

            – Se ele não for lembrado pelas maldades, não será lembrado por nada.

            – Será só aquele resto de osso misturado com terra.

            – Ou de cinzas dentro de uma caixinha num canto da sala.

            – Um dia a sepultura será cavada para dar espaço a mais um defunto. Depois a outro. Depois a outros e a muitos outros.

            – E uma faxineira novata jogará no lixo a caixa de cinzas.

 

            O RETRATO NA PAREDE

            Hermengarda arrotou e disse:

            – Acho que tô cheia. Cheia de gordura e sebo ruim.

            Henriqueta também arrotou e disse:

            – Também tô cheia de coisa ruim. Só espero não sair fazendo maldade.

Foi então que Hermengarda arregalou um olho e disse:

            – Lembrei de uma coisa: como ex-presidente ele terá direito a um retrato na galeria dos ex-presidentes.

            – Bem lembrado.

            – Será um retrato do Mal na parede.

            – Um retrato odioso na parede, pra quem olhar se lembrar das maldades dele.

            – Será que olhar retrato de gente ruim dá azar?

            – Os antigos diziam que sim.