Futebol brasileiro: um ponto fora da curva nos salários reais e irreais, por Sebastião Nunes

Minha intenção é, na continuidade da série sobre futebol, sair do mundo miserável de pobres e desempregados para alçar voo até o olimpo dos jogadores e suas remunerações

Futebol brasileiro: um ponto fora da curva nos salários reais e irreais

por Sebastião Nunes

O salário mínimo no país, corrigido apenas pela inflação, foi estabelecido em R$ 1.045,00 para 2020. De acordo com o Dieese, 49 milhões de pessoas recebem (pelo menos em tese) esse valor, com o qual devem sobreviver até alcançar o mês seguinte, mesmo com a língua de fora e as costelas à mostra.

Mais infelizes que esses quase 50 milhões, 12,9 milhões estão desempregados, ou seja, 11,2% da mão de obra, lembrando que em 2014 esse percentual era de 6,7%, isto é, quase a metade – mas não adianta chorar sobre o leite derramado. Sabemos, há séculos, que pobre vive é de teimoso.

Não estou computando os subempregados nem os informais, nem vasculhando para saber quem faz parte de algum dos esquemas acima. Afinal, não sou economista nem estatístico ou coisa que o valha. Apenas um espectador de fenômenos sociais ou, no máximo, um simples curioso, no bom sentido.

Que mais? Ah, sim. Minha intenção é, na continuidade da série sobre futebol, sair do mundo miserável de pobres e desempregados para alçar voo até o olimpo dos jogadores e suas remunerações, e assim encher de saliva a boca daqueles que, daqui de baixo, contristados e ofuscados, olham para cima.

 

CHEGANDO AO OLIMPO

Rastreei, num dos inúmeros blogs de amenidades que perambulam pelos céus de nossa ignorância, os doze maiores salários do futebol brasileiro, para estabelecer critérios mínimos de comparação. Vejamos esses doze olímpicos.

01) Daniel Alves (São Paulo) – R$ 1,5 milhão por mês

02) Gabigol (Flamengo) – R$ 1,25 milhão por mês (talvez mais)

03) Dudu (Palmeiras) – R$ 1,2 milhão por mês

04) Fred (ainda Cruzeiro) – R$ 1,2 milhão por mês

05) Hernanes (São Paulo) – R$ 1,1 milhão por mês

06) Pedro Rocha (Flamengo) – R$ 1 milhão por mês (talvez mais)

07) Vitinho (Flamengo) – R$ 1 milhão por mês

08) Ramirez (Palmeiras) – R$ 1 milhão por mês

09) Lucas Lima (Palmeiras) – R$ 955 mil por mês

10) Rodriguinho (ainda Cruzeiro) – R$ 800 mil por mês

11) Filipe Luís (Flamengo) – R$ 800 mil por mês

12) Gil (Corinthians) – R$ 750 mil por mês.

É para ficar com inveja? Creio que não. Trata-se apenas de uma seleção dos mais afortunados entre os afortunados que se dedicam, com os pés, a fazer a alegria dos milhões de torcedores que lhes pagam, indiretamente, tais fortunas.

Se esses torcedores se incluem entre os recebedores de salário mínimo é outra questão. Basta ver os atuais torcedores do Flamengo, que lotam qualquer estádio no qual o esquadrão rubro-negro se apresente: quase todos brancos, aparentando a maioria deles boa forma física e alimentação saudável, nada sugerindo aquela turminha lá de cima (ou de baixo), que se aguenta com R$ 1.045,00 (ou menos) para sobreviver.

Mulatos e negros? Bem poucos. Ao contrário da democracia racial postulada e reverenciada por Mario Filho e pelo doutor Sócrates, amplamente visível em campo, a primazia nas cadeiras do Maracanã é de brancos da elite. Pelo preço dos ingressos.

 

BAIXANDO À TERRA

Segundo Gilberto Agostino, Mario Filho elencou uma possível seleção dos maiores nomes de nosso futebol, alguns deles dos tempos cretinos do amadorismo e do “bicho” como remuneração principal dos jogadores.

São eles Bolão, Sabará, Friedenreich, Fausto, Manteiga, Leônidas da Silva, Domingos da Guia, Barbosa, Didi, Carlos Alberto, Robson e Pelé.

Tomo como personagem deste final o feliz-infeliz Fausto, natural de Codó-MA (há quem o declare natural do Estado do Rio), nascido em 1905 e morto em 1939, na cidade de Santos Dumont, interior de Minas, para a qual uma tuberculose o levou.

Fausto, a “Maravilha Negra”, é o típico grande craque daquela época de futebol amador, em que a remuneração era paga conforme a relevância das vitórias: alguns mil réis, às vezes um jantar chique. O cartola metia a mão no bolso, extraía um pacote de notas, distribuindo algumas entre os jogadores do seu time.

Fausto começou no The Bangu, passou pelo Vasco, chegou à seleção brasileira e, em 1931, quando o Vasco excursionou pela Europa, foi aliciado pelo Barcelona, que lhe ofereceu um contato altamente vantajoso, com a condição de que se naturalizasse espanhol. Não funcionou, Fausto não quis, talvez pelo inusitado da aventura.

De volta ao Brasil, depois de breve passagem de insucesso pela Suíça, jogou de novo no Vasco, esteve no Uruguai, regressou ao Flamengo, foi campeão em 1931 e, aos 31 anos, abandonou os gramados para morrer três anos depois.

Costurando vivos e mortos, ficamos assim: em apenas 90 anos, a manipulação econômica do futebol por “forças ocultas”, embora claramente visíveis, criou uma elite que seria impensável em 1930.

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