Imagine, sem suar frio, um presidente fascista nos Estados Unidos, por Sebastião Nunes

Este texto faz parte de, talvez, uma pequena série sobre a possibilidade, por enquanto ficcional, de um presidente fascista ser eleito nos EUA.

Imagine, sem suar frio, um presidente fascista nos Estados Unidos

por Sebastião Nunes

Em 1927, o aviador estadunidense Charles Augustus Lindbergh, pilotando seu monomotor “Spirit of St. Louis”, realizou a primeira travessia solitária do Atlântico, numa aventura que durou 33 horas e 31 minutos de fio a pavio. Partindo no dia 20 de maio do Condado de Nassau, no estado de Nova Iorque, aterrissou em Paris no dia 21, tornando-se mundialmente famoso.

Em 2004, o escritor estadunidense Philip Roth, de origem judaica, publicou “The Plot Against America”, traduzido no Brasil com o título de “Complô contra a América”, no qual distorce violentamente a história, propondo uma nova realidade, a partir da campanha eleitoral de 1940 nos EUA.

O resultado é de tirar o fôlego.

 

OS FENÔMENOS CHARLES E ANNE

Charles Lindbergh tinha 25 anos e fora, até então, piloto dos correios e praticante de acrobacias aéreas, nas quais chegava ao extremo de caminhar sobre as asas, sem qualquer proteção, para diversão dos assistentes. Condecorado pelo presidente Cooligde na volta triunfal aos Estados Unidos, foi nomeado coronel da reserva da Força Aérea do Exército.

Em maio de 1929 casou-se com Anne Morrow, de 23 anos, filha do então embaixador dos Estados Unidos no México. Em junho de 1930 nasceu o primeiro filho do casal que, ainda bebê, foi raptado e morto. O suposto sequestrador, um carpinteiro alemão pobre, ex-presidiário, é condenado e executado na cadeira elétrica, naquele que ficou conhecido pela imprensa como o “julgamento do século”.

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Em abril de 1935, Anne publicou seu primeiro livro, “North to the Orient”, um relato de suas aventuras com o marido na aviação, publicação que se tornou best-seller e ganhou o Prêmio Nacional dos Livreiros, como o mais importante livro de não-ficção do ano.

Em dezembro daquele ano, com dois filhos pequenos, mudaram-se para a Inglaterra, onde viveram até 1939. A convite das forças armadas dos EUA, Charles realiza uma série de visitas à Alemanha, assistindo em Berlim às Olimpíadas de 1936.

Em outubro de 1938 Charles recebe das mãos de Hermann Göring, por ordem do Führer, a Cruz de Serviço da Águia Alemã, uma medalha de ouro com quatro pequenas suásticas, que era conferida a estrangeiros por serviços ao Reich.

 

OPINIÕES FORA DA CURVA

Escrevendo para um amigo depois das Olimpíadas, Charles opinou sobre Hitler: “É sem dúvida um grande homem, e acredito que fez muito pelo povo alemão”.

Anne acompanha o marido nessas visitas e, posteriormente, escreve sobre o que chama de “visão puritana estreita corrente nos Estados Unidos, segundo a qual as ditaduras são necessariamente erradas, más e instáveis, e jamais produzem nada de bom – combinada com nossa visão caricatural de Hitler como um palhaço – combinada com a fortíssima propaganda judaica (é claro) veiculada pelos jornais, cujos proprietários são judeus”. Nesse mesmo ano publica seu segundo livro de aventuras como aviadora, “Listen! The Wind”, que também entra para a lista dos mais vendidos de não-ficção.

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Depois que Hitler invade a Polônia, em setembro de 1939, Charles escreve em seu diário que é necessário “nos defendermos dos ataques dos exércitos estrangeiros e da diluição das raças estrangeiras” e da “infiltração de sangue inferior. [Lindbergh tinha ascendência sueca] Segundo ele, a aviação seria “um desses bens preciosos que permitem que a raça Branca sobreviva num oceano crescente de Amarelo, Negro e Pardo”.

 

MAIS UM POUCO DE REALIDADE

Em 1938 é criado o “Comitê América em Primeiro Lugar”, com o objetivo de se opor à política intervencionista de Roosevelt e promover o isolacionismo dos Estados Unidos em relação à guerra. Enquanto o presidente Roosevelt apoiava a Inglaterra contra a Alemanha com armas e dinheiro, os membros do Comitê, que defendiam a não-intervenção, tendiam a apoiar a Alemanha nazista.

Nesse contexto de luta aberta, Lindbergh começa a ampliar sua plateia, falando para três mil pessoas na Universidade de Yale, enquanto Anne lança seu terceiro livro, “The Wave of the Future”, com o subtítulo “Profissão de fé”, tornando-se de imediato o best-seller número um na categoria de não-ficção, embora denunciado pelo secretário do interior como “a bíblia de todos os nazistas americanos”.

Entre abril e agosto de 1941 a onda cresce. Lindbergh fala para uma plateia de dez mil pessoas num comício do Comitê e para mais dez mil noutro comício em Nova Iorque. Em maio, discursa para vinte e cinco mil pessoas no Madison Square Garden. Sua entrada em cena é saudada com gritos de “Nosso próximo presidente!”, e seu pronunciamento é ovacionado durante quatro minutos.

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DA REALIDADE À IRREALIDADE

A guinada acontece quando Philip Roth transforma realidade em ficção e vice-versa. Se de fato Lindbergh nunca chegou a se candidatar, na novela de Roth ele não apenas se candidata como é eleito presidente dos Estados Unidos.

Na madrugada da indicação de Lindbergh, o narrador de Roth, uma criança judia, cai da cama pela segunda vez na vida.

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