Leminski: O assassino era o escriba

Enviado por jns

O ASSASSINO ERA O ESCRIBA

Meu professor de análise sintática era o tipo do sujeito inexistente.
Um pleonasmo, o principal predicado da sua vida,
regular como um paradigma da 1ª conjugação.
Entre uma oração subordinada e um adjunto adverbial,
ele não tinha dúvidas: sempre achava um jeito
assindético de nos torturar com um aposto.Casou com uma regência.
Foi infeliz.
Era possessivo como um pronome.
E ela era bitransitiva.
Tentou ir para os EUA.
Não deu.
Acharam um artigo indefinido em sua bagagem.
A interjeição do bigode declinava partículas expletivas,
conectivos e agentes da passiva, o tempo todo.
Um dia, matei-o com um objeto direto na cabeça.

***

IMAGEM

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952, cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, é autor do pleonasmo ‘Se não for divertido, não tem graça’.

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Leia também:  Trago meu cavalo doido, por Romério Rômulo

12 comentários

  1. jns, prá lá de interessante, este Leminski

    Gosto muito do que Leminski escrevia, grande poeta!

    e este aqui, que dizem ser de anônimo, você conhecia, não?

    Amor Gramatical

    http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/portugues/0006.html

    Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador. Um substantivo masculino, com aspecto plural, alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. E o artigo era bem definido, feminino, singular: era ainda jovem, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era silábica, um pouco átona, até ao contrário dele: um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanático por literatura e filmes ortográficos.

    O substantivo gostou da situação. Era o prefácio que ele esperava: os dois a sós, sem ninguém ver nem ouvir. Não perdeu a oportunidade, começou a se insinuar, com perguntas e paráfrases. O artigo feminino deixou as reticências de lado, e permitiu esse pequeno índice.

    De repente, o elevador pára. Ótimo, pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeçou a se movimentar: só que em vez de descer, subiu e parou justamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal para convencê-la a entrar em seu aposto.

    Ligou o fonema e ficaram alguns instantes em hiato, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um cedilha com gelo para ela. Ficaram conversando, confortavelmente instalados num acento, quando ele voltou à tônica, usando seu experiente adjunto adverbial. Vendo o objeto direto do seu desejo totalmente entregue à voz passiva, rapidamente lançou-se ao imperativo. Abraçaram-se numa pontuação tão minúscula que nem um período simples passaria entre os dois.

    Mas, apesar dos tremas e vocativos, ela resistia. Quando tentou soletrá-la, ela saiu de si: desferiu-lhe um travessão que o fez cair do acento. Oxítona como um pimentão, ela estendeu-lhe as aspas para ajudá-lo a levantar-se, e então confessou que ainda era vírgula. Depois de um silêncio infinitivo, ela ergueu-se numa ênclise e dirigiu-se intransitiva para a porta.

    Foi quando soou o tritongo. Num hífen, ele pulou para frente da porta, impedindo-a de abrir, com os olhos assustados de um sujeito indefinido. Tocaram de novo o tritongo, enquanto ela o olhava interrogativa, aguardando um complemento verbal qualquer que justificasse aquele adendo. Gramaticalmente, ele gesticulou para que ela se escondesse dentro do vocabulário, dizendo que depois lhe explicaria tudo.

    – Isso é o cúmulo do gerúndio!, exclamou ela, abrindo enfim a porta.

    Surgiu então uma proparoxítona hiperbólica, cheia de bijuterias e asteriscos, exalando uma locução forte e barata.

    – O que é esta trissílaba está fazendo em nosso aposto?, disparou.

    Metendo-se no meio das duas, o substantivo assumiu um ar circunflexo e disse que ia botar os pingos nos is, começando uma longa oração adjetiva explicativa: não havia ali nenhuma relação de gêneros envolvida; o artigo feminino era apenas uma vizinha que viera lhe pedir um colchete emprestado; conversavam a respeito do verbo auxiliar do prédio, cuja mãe estava com um adjunto adnominal incurável; estavam pensando em recolher proposições que… mas o próprio artigo feminino o interrompeu, soltando o verbo:

    – Eu é que não tomarei particípio neste bando de metonímias!, gritou superlativa, e aplicou-lhe um tritongo nasal que o fez cair de joelhos. Em seguida saiu, batendo a porta.

    O substantivo, então, voltou-se para sua proparoxítona:

    – Juro por Jesus e seus apóstrofos que eu posso explicar…

    – Não me venha com redundâncias! Quer saber a verdade? Sempre achei você um substantivo abstrato. Um mero ponto-e-vírgula, um diminutivo. Você não vale um til! Está vendo esta aliança? Pode mandar prolixo! E ponto final.

    – Mas propazinha…

    – Poupar-me-ás de suas mesóclises, eu espero. Este foi o nosso epílogo.

    “Bem que me avisaram que toda proparoxítona é a acentuada…”, pensou o substantivo. Sozinho em seu aposto, pôs-se a fazer um sumário sobre o ocorrido. No fim das crases, o pretérito havia sido mais-que-perfeito: conseguira livrar-se da proparoxítona, com quem a ligação já estava ficando um tanto defectiva. “Só espero que aquele artigozinho feminino não faça uma metáfora de mim para todo o edifício”. Ele não queria que a verborragia chegasse aos ouvidos da vogal do 507, com quem sonhava viver uma conjunção coordenativa conclusiva. Era preciso reconhecer: ela tinha um conectivo de fechar o parágrafo!

  2. Poesia Matemática, Millôr Fernandes

    Poesia Matemática

    Millôr Fernandes

    Às folhas tantas 
    do livro matemático
    um Quociente apaixonou-se
    um dia 
    doidamente
    por uma Incógnita.
    Olhou-a com seu olhar inumerável
    e viu-a do ápice à base
    uma figura ímpar;
    olhos rombóides, boca trapezóide, 
    corpo retangular, seios esferóides.
    Fez de sua uma vida 
    paralela à dela
    até que se encontraram 
    no infinito.
    “Quem és tu?”, indagou ele
    em ânsia radical.
    “Sou a soma do quadrado dos catetos.
    Mas pode me chamar de Hipotenusa.”
    E de falarem descobriram que eram
    (o que em aritmética corresponde
    a almas irmãs)
    primos entre si.
    E assim se amaram
    ao quadrado da velocidade da luz
    numa sexta potenciação 
    traçando 
    ao sabor do momento
    e da paixão
    retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
    nos jardins da quarta dimensão.
    Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
    e os exegetas do Universo Finito.
    Romperam convenções newtonianas e pitagóricas. 
    E enfim resolveram se casar
    constituir um lar, 
    mais que um lar, 
    um perpendicular.
    Convidaram para padrinhos
    o Poliedro e a Bissetriz.
    E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
    sonhando com uma felicidade 
    integral e diferencial. 
    E se casaram e tiveram uma secante e três cones
    muito engraçadinhos.
    E foram felizes 
    até aquele dia 
    em que tudo vira afinal
    monotonia.
    Foi então que surgiu 
    O Máximo Divisor Comum
    freqüentador de círculos concêntricos,
    viciosos. 
    Ofereceu-lhe, a ela,
    uma grandeza absoluta
    e reduziu-a a um denominador comum.
    Ele, Quociente, percebeu
    que com ela não formava mais um todo,
    uma unidade. 
    Era o triângulo, 
    tanto chamado amoroso.
    Desse problema ela era uma fração, 
    a mais ordinária. 
    Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
    e tudo que era espúrio passou a ser 
    moralidade
    como aliás em qualquer 
    sociedade.

    http://www.releituras.com/millor_poesia.asp

    • Parafraseando o Rei Dadá

      ‘Não venha com poemática que eu tenho a sacanática.’

       

      A Universidade da Bahia

      cobrou dos vestibulandos a interpretação do seguinte trecho de um poema do insequapivel Camões:

       

      “Amor é fogo que arde sem se ver,

      é ferida que dói e não se sente,

      é um contentamento descontente,

      dor que desatina sem doer”.

       

      Uma gata abusada sexterpretou o ‘Bardo’ assim:

       

      “Ah! Camões, se vivesses hoje em dia,

      tomavas uns antipiréticos,

      uns quantos analgésicos

      e Prozac para a depressão.

      Compravas um computador,

      consultavas a Internet

      e descobririas que essas dores que sentias,

      esses calores que te abrasavam,

      essas mudanças de humor repentinas,

      esses desatinos sem nexo,

      não eram feridas de amor,

      mas somente falta de sexo!”

      Ganhou nota 10 [ eu dava 11, porque 10 é pouco pra ela… ],

      por ter diagnosticado o Mal de Camões: falta de mulher.

      A pintada ‘David and Abizag’ é de Pedro Americo.

      Inté!

      • Engraçadissimo! dizem que originou-se em Portugal.

        jns, é de rachar de rir, quando partem para cima até do gigantesco Camões, “acusando-o” de falta de mulher, ãhm ?!? 

        Assis Ribeiro postou esse poema da baiana aqui no blog, e o comentarista Ze do Ze mencionou que o poema não seria da baiana, mas  teria se originado em Portugal, cê acredita !? 

        http://jornalggn.com.br/noticia/a-vestibulanda-e-a-dor-que-desatina-sem-doer-de-camoes

        O link citado pelo Ze do Ze é este:

        http://www.acores.net/blogger/view.php?id=8310

         

         

        • O Ilustrado Camonge

          Tony Francis,

          Confiando no taco do ilustre Camões, ilustrei o comentário com uma imagem hedonística.

          Foi ele que decretou em bom português que “prá cavalo velho o negócio é capim novo”.

          Se não foi deixa prá lá, uai!

          Tá valendo…

           ***

          O boêmio do nado livre

          Luís Vaz de Camões foi um poeta português (1525?-1580) autor de uma das obras mais importantes da Literatura portuguesa.

          De família da pequena nobreza, ingressa no Exército da Coroa de Portugal e participa da guerra contra Ceuta, no Marrocos, durante a qual perde o olho direito.

          Boêmio, de volta a Lisboa frequenta tanto os serões da nobreza como as noitadas populares.

          Embarca para a Índia em 1553 e para a China em 1556.

          Em 1560, o navio em que viaja naufraga na foz do Rio Mekong.

          Camões salva os originais de Os Lusíadas nadando até a terra com o manuscrito embaixo do braço.

          Nove anos depois, retorna a Lisboa com a intenção de publicar o poema, o que só acontece em 1572, graças a um financiamento concedido pelo rei Dom Sebastião.

          Os Lusíadas funde elementos épicos e líricos e sintetiza as principais marcas do Renascimento português: o humanismo e as expedições ultramarinas.

          Sua base narrativa é a expedição de Vasco da Gama em busca de um caminho marítimo para as Índias.

          Nela, mescla fatos da História portuguesa a intrigas dos deuses gregos, que procuram ajudar ou atrapalhar o navegador.

          Morre em Portugal, em absoluta pobreza.

          ***

          O Cavalo do Rei

          As estórias de Camonge da tradição oral nordestina foram recolhidas no segundo semestre de 2003 em Barcelona. Por mais que tentasse, o Rei despeitado não conseguia nem ser mais esperto que Camonge e passar-lhe a perna, nem conseguia se livrar dele.

          Camonge, tão querido pelo povo sertanejo, é na verdade a corruptela do nome do poeta português Luís de Camões, o autor de Os Lusíadas.

          Todo o dia o Rei  dizia a Camonge:

          – Você me dá notícia do meu cavalo?

          Camonge não respondia e o Rei continuava insistindo e perguntando sobre o cavalo.

          Algum tempo depois Camonge descobriu que o rei tomava banho nas águas do Tejo toda manhã.

          Quando entrou no rio e, em seguida, a pudica Rainha pulou pelada, com as pernocas abertas, o  Rei disse:

          – Oh senhora Rainha agora vi o mundo todo!

          Camonge que estava por ali, caçando o cavalo detrás da moita, disse:

          – Oh senhor Rei vistes o seu cavalo também?

          O Rei percebeu que Camonge estava espiando os dois peladões  e foi embora com a sua Rainha.

          Ele nunca mais voltou ao rio e não mais perguntou pelo cavalo que jamais apareceu.

          Sacado em:

          http://www.barcelona.educ.ufrn.br/camonge.htm

          http://escolaestadualprofessorgersonlopes.blogspot.com.br/2010/01/estorias-de-trancoso-9b.html

  3. O par que me parece

    jns, e O PAR QUE ME PARECE do Distraídos Venceremos, PL, Brasiliense, 1995)

     

    Pesa dentro de mim

    O idioma que não fiz,

    aquela língua sem fim

    feita de ais e de aquis.

    Era uma língua bonita,

    música, mais que palavra,

    alguma coisa de hitita,

    praia do mar de Java.

    um idioma perfeito,

    quase não tinha objeto.

    Pronomes de caso reto,

    nunca acabavam sujeitos.

    Tudo era seu múltiplo,

    verbo, triplo, prolixo.

    Gritos eram os únicos.

    O resto ia pro lixo.

    Dois leos em cada pardo,

    dois saltos em cada pulo,

    eu que só via a metade,

    silêncio, está tudo duplo.

     

    ps> antonio francisco, está escrito por aí que esta foi uma redação de aluna de Letras da UFPE e que ganhou concurso interno e foi promovida para professora titular.

     

    • ‘no alvo poemático sempre móvel e meio invisível’

      Ocean,

      Muita gente ainda hoje se pergunta se é insequapível ou não.

      A resposta é clilófricamente simples: a lei da insequapibilidade pode ser explicada baseando-se no método do “Diafragma de Aquiles”.

      Tomando-se por base os crepúsculos de diferentes dimensões, alia-se ao pentagrama diluvial pela quinta lei de Newton, lei esta referente à gravitação das histórias em quadrinhos em torno dos velocípedes.

      Daí onde a teoria vigente entra em desacordo com a referida insequapibilidade.
      Insequapíveis?

      Sim, porém insequapóveis em certos aspectos, quando examinados pelo oblíquo lado da patinete.

      Fórmula

      (Segundo ou Terceiro Godofredo IV do Irã)

      I   – Retumblências transpurcar com azôto de carbono. 
      II  – 3% de Rataclenas quentes.
      III – 6 litros de pisceleto à gampôla na manteiga.

      Fórmula Algébrica da Insequapibilidade:

      X3 + nada = ou parecido.

      Autoris: Malucs Belezis

      Abs.

  4. Poema q mostra sobretudo o absurdo q é o ensino de Português…

    Nao é muito poético esse meu comentário, mas é bem realista. E é curioso como há tantos escritores que fazem blague sobre isso. Defendem a maravilhosa liberdade da língua, que é o instrumento de trabalho deles e que é torturada nesse tipo de ensino imbecil. Que eu me lembre de cabeça, Lobato, Drummond, Luís Fernando Veríssimo. Esse poema do Leminsky eu nao conhecia. 

    • MULTILEMINSKI

      O Bicho Alfabeto

      A poesia de Leminski é ainda uma zona de atrito, tem a ver com a vida das formas, com erotismo e desespero. É quando o poema ensina a resistir, a cair, para manter a sua “infinita estranheza (o impoder da literatura, a qual, recusando submeter-se a qualquer modelo, também não pretende provocar qualquer submissão), relação que não classifica, não hierarquiza”.

      Grafite: Marciel Conrado | Foto: José Vieira

      A poesia de Paulo Leminski é uma articulação daquele que entende que para operar o poema num enlace com a modernidade precisa-se constituir um processo histórico impermanente, descontínuo e anacrônico; ou seja, a modernidade é aquilo que leva a nada: “Todos os homens são, enfim, herdeiros da produção cultural de todos os homens, de todos os povos, de todas as épocas”, afirma ele num ensaio que recupera a sobrevivência do quase invisível, da miniatura; ensaio intitulado, não à toa, de “Bonsai”.

      Leminski no Ecomuseu de Foz do Iguaçu | Foto: José Vieira

      Os comentários inseridos entre as fotos são do poeta e professor de literatura da UNIRIO, Manoel Ricardo de Lima que publicou, entre outros, ‘Entre Percurso e Vanguarda – alguma poesia de P. Leminski’ [(nnablume, 2002) e ‘Jogo de Varetas’ (7Letras, 2012).

    • TEMA

      Lobato,

      Drummond, Veríssimo

      Não desarrimar Torquato

         ‘Ladrão de poesia’ procurando a pedra filosofal

       

      [ O circunloquial poemato é do genial Torquato Neto, Bahia, 10/10/61 ]

       

      “… E agora, José?”

      Perguntou o Carlos Drummond.

      E agora, José,

      Responde depressa ao Carlos Drummond.

      Responde, José; responde se és homem:

      “… e agora?”

       

      Anda:

      Ele é teu mestre,

      José;

      Ele é teu amo,

      José;

      José;

      Ele é teu pai.

      Responde-lhe: “… e agora?

       

      Pelo menos José do Carlos Drummond de Andrade

      Informa, depois de pensar:

      Quem é o culpado de eu não ser poeta?

       

      O Carlos Drummond?

      Meu pai?

      Minha mãe?

      Tu, José?

       

      Será que tiraste toda a poesia

      Que antes brotava,

      Jorrava de mim?

      Por que José?

      Por quê?

       

      José do Carlos Drummond:

      Tu és um ladrão.

      Roubaste a minha poesia.

      Deixaste-me só.

      Abandonado, nu.

      Sem poesia, sem nada.

       

      [video:http://youtu.be/LMH2wNSjraA%5D

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