O avesso e o direito, de Albert Camus

Enviado por Cris Kelvin

“Sei que minha fonte está em O Avesso e o Direito, nesse mundo de pobreza e de luz em que vivi durante tanto tempo, e cuja lembrança me preserva, ainda, dos dois perigos contrários que ameaçam todo artista: o ressentimento e a satisfação. A miséria impediu-me de acreditar que tudo vai bem sob o sol e na história, o sol ensinou-me que a história não é tudo. Mudar a vida, sim, mas não o mundo do qual eu fazia minha divindade. Assim é, sem dúvida, que abordei essa carreira desconfortável em que me encontro, enfrentando com inocência uma corda bamba, na qual avanço com dificuldade, sem estar seguro de alcançar a outra ponta. Em outras palavras, tornei-me um artista, se é verdade que não há arte sem recusa nem consentimento.” 

Albert Camus

 

O AVESSO E O DIREITO*

“Era uma mulher original e solitária. Mantinha uma estreita relação com os espíritos, tomava partido deles em suas disputas e recusava-se a encontrar-se com certas pessoas de sua família, malvistas no mundo em que se refugiara.

Tocou-lhe na partilha da irmã uma pequena herança. Estes cinco mil francos, que chegaram no fim de uma vida, revelaram-se bastante incômodos. Era preciso fazer com que rendessem. Se quase todos os homens são capazes de se servirem de uma grande fortuna, as dificuldades começam quando a soma é pequena. A mulher continuou fiel a si própria. Próxima da morte, quis abrigar seus velhos ossos. Ofereceram-lhe condições favoráveis. No cemitério de sua cidade, acabara de expirar uma concessão, e, no terreno, os proprietários haviam erguido um suntuoso jazigo, de linhas sóbrias, em mármore negro; em resumo – um verdadeiro tesouro, que lhe deixavam pela soma de quatro mil francos. E isso era um valor seguro, ao abrigo das flutuações da bolsa de valores e dos acontecimentos políticos. Ela mandou arrumar a cova, manteve-a pronta para receber seu próprio corpo. E, quando tudo ficou pronto, mandou gravar o nome em maiúsculas de ouro.

Esse negócio agradou-lhe de tal forma que se tomou de um verdadeiro amor pelo seu túmulo. No início, ia ver o andamento das obras. Acabou visitando o túmulo todos os domingos à tarde. Foi sua saída singular e sua única distração. Por volta de duas horas da tarde, percorria o longo trajeto que a levava até as portas da cidade, onde ficava o cemitério. Entrava no pequeno jazigo, tornava a fechar cuidadosamente a porta e ajoelhava-se no genuflexório. Assim é que, colocada diante da presença de si própria, confrontando o que ela era e o que devia ser, redescobrindo o elo de uma cadeia sempre rompida, penetrou, sem esforço, nos desígnios secretos da Providência. Por um símbolo singular, um dia chegou até a entender que estava morta aos olhos do mundo. No Dia de Todos os Santos, tendo chegado mais tarde que de hábito, encontrou a soleira da porta piedosamente atapetada de violetas. Por uma delicada atenção, estranhos, compadecidos diante desse túmulo abandonado sem flores, haviam compartilhado as suas e honrado a memória desse morto entregue a si mesmo.

E eis que retomo essas coisas. Este jardim do outro lado da janela, dele só vejo os muros. E essas poucas folhagens em que desliza a luz. Mais acima, são, ainda, folhagens. Mais acima, está o sol. Mas, de todo esse júbilo do ar que se sente do lado de fora, de toda essa alegria derramada sobre o mundo, só vejo sombras da ramagem que brincam em minhas cortinas brancas. Cinco raios de sol também que espargem pacientemente pelo quarto um perfume de ervas secas. Uma brisa, e as sombras animam-se na cortina. Uma nuvem encobre, e depois torna a encobrir o sol, e da sombra emerge o amarelo reluzente desse jarro de mimosas. Isto basta: um único brilho nascente, e eis que me encho de uma alegria confusa e atordoante. É uma tarde de janeiro, que me põe, assim, diante do avesso do mundo. Mas o frio continua no fundo do ar. Em todo lugar, uma película de sol que racharia sob a unha, mas que reveste todas as coisas com um eterno sorriso. Quem sou, e que posso fazer, a não ser entrar no jogo das folhagens e da luz? Ser este raio em que meu cigarro se consome, esta suavidade e esta paixão discreta que respira no ar. Se tento chegar a mim, é bem no fundo desta luz. E, se tento compreender e saborear esse delicado gosto que o segredo do mundo confia, é a mim mesmo que encontro no fundo do universo. Eu mesmo, quero dizer, essa extrema emoção que me liberta do cenário.

Há pouco, outras coisas, os homens e os túmulos que compram. Mas deixem-me recortar este minuto no tecido do tempo. Outros deixam uma flor entra as páginas de um livro, encerrando nele um passeio em que o amor os tocou de leve. Eu também passeio, mas é um deus que me acaricia. A vida é curta, e é pecado perder tempo. Sou ativo, segundo dizem. Mas ser ativo é, ainda, perder tempo, na medida em que nos perdemos. Hoje é uma parada e meu coração parte ao encontro de si mesmo. Se uma angústia ainda me oprime, é por sentir esse impalpável instante escorrer por entre meus dedos, como as partículas do mercúrio. Deixem, pois, aqueles que querem dar as costas ao mundo. Não me queixo porque me vejo nascer. Neste momento, todo o meu reino é desse mundo. este sol e estas sombras, este calor, e este frio que vem do fundo do ar: devo perguntar-me se algo morre e se os homens sofrem, já que tudo está inscrito nesta janela na qual o céu derrama a plenitude ao encontro de minha piedade. Posso dizer, e vou dizê-lo daqui a pouco, que o que conta é ser humano e simples. Não, o que conta é ser verdadeiro, e, então, tudo se inscreve nisso, a humanidade e a simplicidade. E, então, quando sou mais verdadeiro do que quando sou o mundo? Sou presenteado antes de ter desejado. A eternidade está ali, e eu esperava por ela. Agora, não desejo mais ser feliz, e sim apenas estar consciente.

Um homem contempla e o outro cava o seu túmulo: como separá-los? Os homens e seu absurdo? Mas eis o sorriso do céu. A luz se infla e será logo verão? Mas eis os olhos e a voz daqueles a quem é preciso amar. Sou ligado ao mundo por todos os meus gestos; aos homens, por toda a minha piedade e o meu reconhecimento. Entre este lugar e este avesso do mundo, não quero escolher, não gosto que se escolha. As pessoas não querem que se seja lúcido e irônico. Dizem: “Isso mostra que você não é bom.” Não vejo a ligação. É claro, se ouso dizer a alguém que é imoralista, traduzo que ele tem necessidade de atribuir-se uma moral; o outro, que despreza a inteligência, compreendo que não consegue suportar suas dúvidas. Mas isto porque não gosto que se trapaceie. A grande coragem é, ainda, a de manter os olhos abertos, tanto sobre a luz quanto sobre a morte. De resto, como explicar o elo que leva deste amor devorador pela vida a esse desespero secreto. Se escuto a ironia (esta garantia de liberdade, da qual nos fala Barrès), escondida no fundo das coisas, ela se descobre lentamente. E, piscando o olho pequeno e claro: “Viva como se…”, diz ela. Apesar de muitas pesquisas, esta aí toda a minha ciência.

Afinal, não estou certo de ter razão. Mas o importante não é se penso naquela mulher cuja história me contavam. Ela ia morrer e sua filha vestiu-a para o túmulo enquanto ainda estava viva. Na verdade, parece que a coisa é mais fácil quando os membros ainda não estão rígidos. Mas, mesmo assim, é curioso como vivemos no meio de pessoas apressadas. “

(Tradução de Valerie Runjanek)

* Título homônimo da coletânea de contos.

CAMUS, Albert [1937] O Avesso e o Direito. RJ, Ed. Record (2ª ed.), p. 103-109, 1995.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora