O caótico e confuso país chamado América, segundo Jack Kerouac, por Sebastião Nunes

O caótico e confuso país chamado América, segundo Jack Kerouac

por Sebastião Nunes

Depois de dois meses cruzando os Estados Unidos da costa leste para a costa oeste e vice-versa, ou seja, do Atlântico ao Pacífico, JK escreveu o seguinte, no dia de seu retorno a Nova York:

“De repente lá estava eu na Times Square. Tinha viajado doze mil quilômetros pelo continente americano e estava de volta à Times Square; e ainda por cima bem na hora do rush, observando com os meus inocentes olhos de estradeiro a loucura completa e o zunido fantástico de Nova York com seus milhões e milhões de habitantes atropelando uns aos outros sem cessar em troca de uns tostões…”

E continua assim, sem parágrafo nem nada:

“… pegando agarrando, entregando, suspirando, morrendo, e assim poderiam ser enterrados naquelas horrendas cidades-cemitério que ficam além de Long Island. As elevadas torres da nação… o outro limite do país… o lugar onde nasceu a América das Notas Promissórias. Fiquei parado numa entrada de metrô tentando criar coragem suficiente para catar uma longa e linda bagana e toda vez que me preparava enormes multidões passavam céleres e a tiravam de vista até que finalmente foi esmagada.”

Como diria Allen Ginsberg, pousando de guru, “a vida só tem sentido se você dá um sentido pra ela”. Aquelas vidas ali não tinha sentido algum, constatou JK.

 

SAN FRAN, CA

Algum tempo antes, JK tinha vivido nos pântanos da Califórnia no casebre de William Burroughs, então com 35 anos (Kerouac estava com 25 em 1947, Cassady e Ginsberg com 21) e aconteciam coisas desse tipo:

“Neal [Cassady] e Allen [Ginsberg] moraram no barraco de Bill Burroughs no pântano durante um mês. Dormiam numa cama de lona, assim como Hunkey [que seria encontrado morto num beco numa fria manhã de inverno]. (…) Bill levantava primeiro, ia furungar no quintal onde estava cultivando um jardim de marijuana e construindo um acumulador de orgônio reichiano. Trata-se de uma caixa comum grande o bastante para um homem sentar-se em uma cadeira em seu interior: uma camada de madeira, uma camada de metal e outra camada de madeira recolhem orgônios da atmosfera e prendem-nos por tempo suficiente para que o corpo humano absorva-os acima da quantidade normal. De acordo com Reich orgônios são átomos vibratórios atmosféricos do princípio vital. As pessoas têm câncer porque ficam sem orgônio.”

Tudo sem parágrafo, mas meu leitor está acostumado com parágrafos, então boto parágrafo e continuo:

“Bill tirava as roupas e entrava na caixa e sentava-se em devaneios. Saía bradando pelo café da manhã e por sexo. Seu corpo comprido e macilento voltava para o barraco aos trancos, o pescoço enrugado de urubu mal sustentava a cabeça ossuda na qual era armazenado todo o conhecimento acumulado em trinta e cinco anos de vida louca. ‘Joan’, dizia ele, ‘você já aprontou o café da manhã? Se não vou pegar um bagre. Neal! Allen! Vocês passam a vida a dormir — jovens como vocês. Levantem-se, temos de ir até McAllen pegar uns mantimentos’. Por uns quinze minutos ele andava pela casa animado e afobado esfregando as mãos ansiosamente. Quando todos haviam se levantado e se arrumado o dia de Bill estava encerrado, toda sua energia havia se esgotado, os orgônios haviam escapulido pelos milhões de orifícios de seus flancos esguios e brancos murchos onde ele espetava a agulha de morfina. Joana tentava encontrá-lo. Ele estava escondido no quarto aplicando a primeira dose da manhã. Saía de lá com o olhar vidrado e calmo”. O dia de Bill tinha acabado.

 

O FRENESI MALUCO

“A estrada toda já foi contada”, escreveu Jack Kerouac em uma carta de 22 de maio de 1951 enviada de Nova York a seu amigo Neal Cassady, que estava no Oeste, em São Francisco. “Chegou rápido porque a estrada é rápida”.

“Kerouac disse a Cassady que entre os dias 2 e 22 de abril havia escrito ‘um romance inteiro de 125.000 [palavras]… A história é sobre você e eu e a estrada’. Ele havia escrito ‘tudo em um rolo de papel com 36 metros de comprimento… simplesmente inserido na máquina de escrever e sem qualquer divisão de parágrafos… deixando que o papel se desenrolasse sobre o chão e que o aspecto do rolo lembrasse o de uma estrada’.” (Howard Cunnell, na introdução à publicação do manuscrito original, lançado 25 anos depois da edição expurgada e editada). O combustível? Café.

Para alcançar a iluminação que permitiu esses 20 dias, JK tinha se desdobrado durante cinco anos de trabalho louco, de idas e vindas malucas, de festas assombradas pelos fantasmas do sexo, da bebida e das drogas, pela absoluta falta de sentido.

“Eu sou do tempo”, diria anos depois JK, um cara famoso e destroçado pelo álcool, “em que a vida só tem sentido se você dá um sentido pra ela”. E ele tinha toda a razão do mundo.

“A cadeia é o lugar onde você promete a si mesmo o direito de viver”, dizia Neal Cassady consigo mesmo. Mas uma cadeia nos Estados Unidos, não é mesmo, Neal? Não os depósitos de restos humanos como no Brasil, restos desprovidos de alma e de qualquer esperança de vida decente.

Resumindo aquele momento crucial da grande virada de costumes no mundo, Howard Cunnell escreveu sobre On the Road: “Uma história que mesmo que não seja verdadeira ou perfeita expressa a colisão da América careta com uma nova geração subterrânea que está aí para mostrá-la [a caretice]”.

Nessa espantosa, absurda e violentíssima colisão os caretas ganharam, como sempre ganham. Ganharam nos Estados Unidos daquele tempo e nos Estados Unidos de agora, como ganharam no Brasil de 1964 e estão ganhando no Brasil de hoje.

O futuro no Brasil recomeçará, mais uma vez, em 2023.

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