O cavalo encilhado, por Jota A. Botelho

O cavalo encilhado, por Jota A. Botelho

Aprisionado no pátio com uma sela de couro legítimo sobre o dorso, e estendida por estribos de prata folheado a ouro em cada um dos lados, o animal cavalgava de um lado para o outro, ora à direita ora à esquerda, ameaçando saltar o alambrado. Empinava as patas dianteiras e relinchava como se estivesse perturbado. E numa completa agitação e desordem contorcia os lábios, mostrava-se os dentes e respirava ofegante pelas narinas, mas subitamente retornava troteando para o centro do cercado. Ficava então numa posição de vigília por algum tempo, olhando para o horizonte. Parecia perdido, isolado e sem rumo. Era como se perguntasse se existisse rumo. De repente, e áspero, começava a cavar a terra com os cascos da frente, depois parava, voltava a ficar absorto, imóvel e entranhado, embora de pescoço ereto. Nesta ocasião, via-se por completo toda a sua dimensão, da cabeça a cauda, da largura de seu dorso ao brilho dos seus pelos. E do quanto era inigualável a sua andadura, o seu trote e a velocidade de seu galope. Trata-se de um puro sangue, um verdadeiro cavalo de raça. Sem dúvida, venceria com facilidade qualquer Derby em relação aos seus competidores. Mas pelo seu porte, agora exigiria um ginete ou uma amazona viril de igual estatura. 

O estranho era saber as razões pelas quais ele fora aprisionado ali completamente encilhado. Diante de tantas dúvidas e incertezas, não seria ocioso especular sobre os reais motivos que alguém, ou o seu tratador, cavalheiro, ou talvez até seu verdadeiro dono, teria deixado aquele animal de porte tão imperial e majestoso preso entre os alambrados. Seria uma provocação ou um disfarce para desviar a atenção de quem o observasse naquela situação? Um truque ou um golpe para gerar esperanças e falsas expectativas? O fato é que olhando para ele no centro do pátio, nos inspirava uma estranha sensação de mando e comando. De poder. Tinha-se à vontade de pular o alambrado e montá-lo. Cavalgar-se nele para uma batalha, uma guerra ou até mesmo uma revolução. No entanto, poderia ser o contrário. Ele estaria ali aprisionado e encilhado para servir de exemplo a quem ousasse pular aquela cerca e montá-lo? Ou porque ele se recusava a legitimar qualquer ginete sem nenhuma expressividade? As interrogações iam se tornando cada vez mais variadas e desencadeadas, enquanto que as respostas mais imprecisas, que ficávamos envoltos nesses enigmas.

Porém, do nada, o cavalo encilhado bafejou no centro do pátio, e bem vagarosamente se dirigiu para cerca mirando o seu líder aprisionado fora do alambrado. Com um olhar intenso, escuro e profundo, e já em passadas largas, cada vez mais veloz e tomado pela fúria, saltou. A sela se desprendeu do seu dorso subindo ao céu no exato momento em que o Sol se escondia por entre as nuvens.

Quase escurecendo. Misteriosamente escurecia.
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