O esforço de escrever um diário arranhando a crosta dura da verdade, por Sebastião Nunes

Wilson abriu o caderno, correu os dedos pela suavidade do papel e, embora inseguro, começou a escrever. Antes de tudo, escreveu o título, na primeira página: DIÁRIO DO ANO 2084

O esforço de escrever um diário arranhando a crosta dura da verdade

por Sebastião Nunes

Escondido da macrotela no seu canto de sala, Wilson reconheceu que cometera um erro gravíssimo: a compra do caderno e das esferográficas. Desde 2040, a escrita estava informalmente proibida (havia pouquíssima proibição formal) fora do ambiente de trabalho. Durante o expediente, ditavam-se as retificações através do falaescreve, (aparelho já bastante antiquado, usado desde as últimas décadas do século XX, embora sob outros nomes), que transformava automaticamente as falas em sinais apropriados para arquivamento, impressão (livros, panfletos, relatórios) e transmissão escrita pela macrotela. Como se prestava bem aos objetivos, foi mantido quase inalterado.

Para comunicados curtos havia na macrotela um teclado, que permitia escrever até 256 caracteres sem contar espaços, depois ele travava durante 24 horas. Não havia impressora, mas esses breves textos podiam ser enviados pelo antiquado email, outra das poucas funcionalidades a atravessar décadas sem alteração, exceto no tamanho das mensagens. Era a única forma autorizada de comunicação entre os funcionários dos ministérios, pelo menos os funcionários do Partido Externo.

 

COMEÇAR É SEMPRE DIFÍCIL

Wilson abriu o caderno, correu os dedos pela suavidade do papel e, embora inseguro, começou a escrever. Antes de tudo, escreveu o título, na primeira página:

DIÁRIO DO ANO 2084

Em seguida, deixando a segunda página em branco – um desperdício que custou a admitir –, escreveu no alto da terceira página:

“4 de abril 2084

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Ontem fui no cinema. Tudo filmes de guerra. Teve uma cena muito boa de um barco abarrotado de refugiados que foi bombardeado no meio do mar. O público se divertiu muito com a imagem de um homem gorducho que tentava fugir nadando do helicóptero que perseguia ele, primeiro se via ele dando porradas na água como se fosse um cachorrinho, depois ele apareceu indicado pela mira da metralhadora do helicóptero, em seguida ele apareceu todo furado de balas e a água ficou cor de rosa…”

Sua mão tremia tanto que teve de parar alguns minutos.

Aos poucos, a mão deixou de tremer e Wilson passou a suar frio. Não estava nem um pouco seguro do que fazia. Aliás, estaria mesmo em 2084? Com vinte e nove anos completos, imaginava ter nascido entre 2054 e 2056, quase com certeza. Mesmo sendo um dos responsáveis por reescrever a História, nunca estava certo sobre datas. Havia sempre uma margem de incerteza de um ou dois anos.

Mas para quem – pensou imediatamente – estava escrevendo esse diário? Para o futuro, decerto, para os que ainda não tinham nascido. Sua imaginação se deteve por um momento na data duvidosa e, em seguida, na palavra “Duplipensamento”. Pela primeira vez, a grandeza do que fazia surgiu claramente. Como se comunicaria com o futuro? Era impossível, compreendeu. Ou o futuro seria parecido com o presente, e então ninguém ligaria para seus escritos, ou seria diferente, e seus problemas não fariam sentido.

Por instantes olhou como um idiota para o papel. Na macrotela, vibrante hino militar ressoava. O curioso não era só ter perdido a capacidade de se expressar, mas também esquecer o que pensava dizer. Passara semanas se preparando para o momento, e não lhe ocorrera que precisaria de algo mais do que coragem. Escrever era fácil. Tudo o que tinha de fazer era transportar para o papel o perturbador monólogo que durante anos lhe rondara a cabeça. No entanto, naquele momento havia esquecido o monólogo. Além disso, a úlcera da perna começou a latejar insuportavelmente. Não se atreveu a coçar. A ferida sempre inflamava. Sentado diante do papel, só tinha consciência da folha que precisava preencher, enquanto ouvia o hino militar e sentia leve embriaguez pela cachaça ruim que havia engolido.

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CONTINUA O TEXTO QUE NINGUÉM LERÁ

De repente, como se tomado de pânico, recomeçou a escrever:

“… e o gorducho afundou como se os buracos de bala tivessem deixado entrar a água, a plateia morria de rir ao ver ele afundando, logo apareceu um bote salva-vidas cheio de meninos com um helicóptero voando em cima, tinha uma mulher meio velha sentada com um garotinho de uns três anos nos braços, o garotinho chorava de medo e escondia a cabeça entre os peitos da mulher, a mulher abraçava e consolava ele, mas ela também estava aterrorizada e procurava cobrir o garotinho com os braços, como se seus braços pudessem deter as balas, mas logo o helicóptero soltou uma bomba de uns vinte quilos com um clarão terrível e o bote pegou fogo como se fosse de gravetos, depois apareceu uma imagem muito boa do braço do garotinho voando no ar, acho que foi filmado de dentro do helicóptero, e houve muitos aplausos nas cadeiras do partido, mas uma mulher na parte dos proles começou um escândalo e começou a gritar que não deveriam mostrar essas coisas diante dos meninos, que não ficava bem mostrar isso diante dos meninos, e continuou gritando até que chegou a polícia e levou a mulher embora. Não acho que tenha acontecido nada de ruim com ela, porque ninguém se importa com o que os proles falam, é uma típica reação dos proles e nunca…”

Wilson parou novamente de escrever, desta vez porque teve cãibras. Não compreendia por que escreveu tanta bobagem. E logo se lembrou de um acontecimento estranho daquela manhã. Foi isso o que o levou a começar o diário. Era profundamente perturbador.

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