O leitor de si mesmo, por Izaías Almada

“SUCURSAL DO INFERNO é uma sátira surrealista do Brasil contemporâneo. É o Brasil um país real? Ou uma ficção?”

O leitor de si mesmo

por Izaías Almada

Já tive a oportunidade de citar em uma de minhas crônicas aqui no GGN a famosa coleção das históricas entrevistas com alguns dos grandes nomes da literatura mundial publicadas pela Paris Review e lançadas no Brasil pelas editoras ‘Paz e Terra’ e ‘Companhia das Letras’.

Uma leitura saborosa em que os autores entrevistados têm a oportunidade de mostrar aos leitores o seu método de trabalho, a maneira pela qual conseguem vencer as horas, os dias e mesmo os anos, na construção de obras que se tornaram referências da boa literatura do século XX.

Quando se trabalha com ideias, conceitos, palavras, muitas vezes é extremamente difícil chegar ao “final” de um livro. Para quem escreve haverá sempre uma maneira melhor de escrever uma frase, de exprimir um sentimento ou descrever uma ação.

Hemingway, na sua entrevista à Paris Review, respondendo ao entrevistador sobre quantas vezes ele reescrevia o seu texto, dá como exemplo o final de “Adeus às Armas”, onde reescreveu a última página trinta vezes.

Para mim, o escritor é antes de tudo, um leitor de si mesmo. Faz parte do ofício.

No meu livro “Sucursal do Inferno” (*), escrito entre os anos de 2010 e 2012, lembro-me de ter praticado a reescrita de partes do romance inúmeras vezes, sempre preocupado com a forma da narrativa e, sobretudo, com a necessidade de encontrar as palavras que melhor expressassem aquilo que eu queria dizer.

Resolvi, então, escrever a contracapa do livro, quase que sentindo uma necessidade da dar ao leitor pistas para aquela, digamos, radiografia do Brasil naqueles anos tumultuados da nossa vida política.

Leia também:  Como funciona o controle social absoluto na Terra Unificada, por Sebastião Nunes

Passados alguns anos, após o impeachment da presidente Dilma Rousseff e os rumos tomados pelo país até as eleições presidenciais de 2018, num determinado dia, assim do nada, resolvi ler a contracapa escrita cinco anos antes… E que aqui reproduzo:

“SUCURSAL DO INFERNO é uma sátira surrealista do Brasil contemporâneo. É o Brasil um país real? Ou uma ficção?”

“A jornalista Manina Berruel está perto de fazer a grande reportagem da sua vida profissional. Assim como Dante e Rimbaud, ela também desce aos infernos. E seu caminho não é nada poético”…

“Pautada pelo jornal em que trabalha, mergulha fundo na investigação de operações financeiras ilegais de determinada seita religiosa. Nessa caminhada conhece de perto o ritual do exorcismo e mais de perto ainda o exorcista”.

“Deus é brasileiro? O aforismo, tantas vezes invocado com seriedade ou ironia, é dissecado e confrontado com o Brasil do século XXI, onde o autor – como nos seus romances anteriores – reúne ficção e realidade, deixando ao leitor a instigante impressão de não saber onde começa uma e termina a outra”.

“Um jogo divertido e deliciosamente cruel. Ao contrário da pregação cristã, a prática do culto ao demônio e muitos dos seus rituais de maldade e perversão sexual deixam a descoberto as novas relações de poder que se vão alicerçando em alguns países emergentes entre seitas religiosas e uma nova classe de empresários, de políticos, de policiais e juízes corruptos… prontos a explodirem em violência contra aqueles que ameaçam seus interesses”.

Leia também:  Singularidade, por Wilton Cardoso

Então, caro leitor, esse último parágrafo lembra alguma coisa a você nos dias em que vivemos?

Deixo aqui, pois, uma sugestão de leitura para esses dias de isolamento social, pandemia e instabilidade política: SUCURSAL DO INFERNO.

 

(*) – Editora Prumo

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome