O mundo anterior ao século XXI e a nova ordem social em 2084, por Sebastião Nunes

A um quilômetro de distância, em destaque absoluto, erguia-se a gigantesca estrutura do Ministério da Verdade, ou Miniver, onde Wilson trabalhava.

O mundo anterior ao século XXI e a nova ordem social em 2084

por Sebastião Nunes

Sempre houve proles, isto ninguém discutia. Desde a Antiguidade, como Wilson leu nos velhos livros que eliminou criteriosamente, na tarefa infindável de atualizar a História, os proles formavam a parte de baixo da pirâmide social. Isso pressupunha uma regra imutável, por mais sangue, lágrimas e ranger de dentes que resultasse. E sempre houve revoltas. Algumas chegaram a tomar o poder durante breves períodos, embora jamais o tivessem conservado durante o tempo necessário para desequilibrar a pirâmide social, invertendo as posições. Em todos os casos, cedo ou tarde, os proles vencedores foram vencidos pelos antigos detentores, quase sempre com (muita) violência.

Durante anos, Wilson tentou – e até certo ponto conseguiu – memorizar parte das revoltas e conflitos antigos e recentes, inclusive os ocorridos entre o século XVIII e o século XX: Revolução Francesa, Revolução Russa, Revolução Espanhola, Revolução Chinesa, Revolução Cubana. Além dessas, as inúmeras guerras de libertação na África e na Ásia, que liquidaram com os impérios coloniais ingleses, franceses, portugueses e tantos outros, e propiciaram o surgimento de dezenas de novos países.

O QUADRILÁTERO MINISTERIAL

A um quilômetro de distância, em destaque absoluto, erguia-se a gigantesca estrutura do Ministério da Verdade, ou Miniver, onde Wilson trabalhava. Com 666 metros de altura, formava um quadrilátero perfeito com os demais ministérios que administravam a Terra Unificada. Dizia-se que tinha 33.333 salas no subsolo e 33.333 acima do solo. Ali era realizada a tarefa de reescrever a totalidade da História humana, atualizando-a dia após dia, e destruindo as informações que pudessem contradizer os novos comunicados emitidos pela macrotela.

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Além do Miniver, compunham o quadrilátero o Ministério da Paz (Minipaz), responsável pela guerra, o Ministério do Amor (Minimor), encarregado de manter a lei e a ordem, e o Ministério da Abundância (Minidância), encarregado de todas as questões econômicas, incluindo produção, armazenamento, distribuição e consumo.

De todos, o Ministério do Amor era o mais impressionante e amedrontador. Não tinha uma única janela. Wilson nunca entrara lá, nem sequer chegara a meio quilômetro de distância. De qualquer forma, não sendo por motivo oficial, era impossível entrar no prédio. Mesmo de posse de um salvo-conduto, era preciso ultrapassar um labirinto de arame farpado, cercas eletrificadas, portas de aço e ninhos de metralhadoras, grotesca e assustadora imitação dos aparatos de segurança da primeira metade do século XX.

O toque de modernidade era totalmente oculto, mas amplamente divulgado. Nas paredes, no teto e no piso, havia poderosas microcâmeras capazes não só de gravar os sons e os movimentos dos visitantes, como também de medir o calor corporal, a temperatura de roupas e objetos (mesmo os engolidos, em tentativas frustradas de burlar a vigilância), mapear DNA e, ainda, a mais recente e espantosa novidade introduzida para controlar com absoluta segurança a entrada no Minimor: ler pensamentos.

Embora fosse perfeitamente possível introduzir e ocultar microcâmeras em todos os apartamentos do mundo, o custo de produção e instalação revelava-se proibitivo em 2084, de modo que a macrotela continuava sendo o padrão de vigilância.

ANTES DE COMETER O CRIME

Circulavam boatos diários sobre figurões do Partido Interno, inclusive dos mais altos escalões, apanhados durante a entrada no Minimor cometendo Crimepensar, o mais grave de todos os crimes, o ato criminoso que não se podia ocultar para sempre e para o qual não havia perdão. Claro que podia ser ocultado por algum tempo, até mesmo durante alguns anos, porém mais cedo ou mais tarde era inevitavelmente descoberto. E a pena para crime tão abominável era quase sempre a morte por vaporização ou com um tiro na nuca, a forma mais degradante entre todas.

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Wilson se virou com rapidez, mantendo a expressão de relaxado otimismo que convinha exibir diante da macrotela. Cruzou a sala em direção à minúscula cozinha. Saindo do trabalho tão cedo, havia sacrificado o almoço na cantina do Miniver. Sabia que na cozinha nada havia além de um pedaço de pão velho, que deveria guardar para o desjejum da manhã seguinte. Tirou do armário uma garrafa de um líquido incolor com uma etiqueta simples: Cachaça Paulistana. Desprendia o cheiro repugnante de cachaça ruim. Wilson se serviu de uma xícara quase cheia, prendeu a respiração e engoliu a bebida como quem toma um remédio intragável.

Instantaneamente seu rosto ficou vermelho e os olhos se encheram de lágrimas. A bebida tinha gosto de ácido nítrico e, ao tragá-la, tinha-se a impressão de ser golpeado com um cassetete. Contudo, lembrou-se de que, nos registros antigos, cachaça era uma bebida muito elogiada, chegando a ser exportada para os antigos países da Europa.

Era sempre à noite que as detenções ocorriam: uma pancada que arrancava do sono, a mão áspera que sacudia o ombro, as luzes que atordoavam, o círculo de rostos implacáveis em volta da cama. Na maioria dos casos, não havia julgamento ou notícias sobre a prisão. A pessoa desaparecia para sempre. O nome era eliminado dos arquivos. Apagavam todas as referências a respeito dela, tudo o que o indivíduo tinha vivido evaporava, sua antiga existência era completamente negada e então se caía em total esquecimento. A pessoa era abolida, aniquilada ou, como se dizia, vaporizada.

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Era a esse tremendo risco que, por simples pirraça, Wilson agora se expunha.

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