O país dos canalhas – Capítulo 4 – Em busca de Amnércio Naves, por Sebastião Nunes

O país dos canalhas – Capítulo 4 – Em busca de Amnércio Naves

por Sebastião Nunes

Saí do STF dando um tempo para que o ministro golpista Gilmárcio Mendelson e o presidiário golpista Ednardo Cunha se entendessem por telefone.

– O que devo fazer enquanto espero? – perguntei a meus botões.

Os botões eram mudos (ou surdos) e não responderam.

Resolvi passear no Leblon, bairro da classe média alta do Rio de Janeiro, onde vive numa boa o senador golpista Amnércio Naves entre outros superdotados de grana.

Entrei no heliporto do STF, procurei um helicóptero bacana e comandei:

– Meu nome é Philip Marlowe, detetive particular, a serviço dos cardeais do congresso. Bora pro Leblon.

– Direto não posso – disse o piloto. – Só com escala.

– Escala adonde?

– Numa fazenda em Minas. Dizem que propriedade de um senador.

– Fazer o quê?

– Entrega de pó.

– Pó? – estranhei. – Que tipo de pó?

– Pó branquíssimo – disse o piloto. – Quinhentos quilos.

– E você fica dizendo isso pra qualquer um? Não tem medo de ser preso?

– Fica frio, cara. Me diz com quem tu anda e revelarei quem tu é.

– Não entendi.

– Quem trabalha pra senador nunca encara cana nem entra em gelada.

– Ah, entendi.

 

ENTREGANDO O PÓ E O PÓS-PÓ

Não, não se assuste, caro leitor, não vou repetir uma história tão manjada. Você já conhece o script; só a polícia, o governo e o STF fingem que não.

Daí que partimos de heliporto, voamos para a tal fazenda, descarregamos o pó num vapt-vupt, o piloto recebeu o dele, eu ganhei uma lembrancinha, levantamos voo e depois de algum tempo pousamos no heliporto da câmara dos deputados carioca. Por que logo ali não me perguntem que não sei. Mistérios da política e do Brasil.

Desci do helicóptero, agradeci a cortesia e fui até à recepção da câmara onde um cidadão bem vestido e uma garota dengosa cheiravam algumas carreirinhas.

– Está servido? – perguntou ele, levantando olhos e nariz do pó.

– Obrigado, não tenho tempo – respondi. – Só queria saber onde encontro o senador Amnércio Naves.

– Siga a trilha do pó – disse a garota dengosa com um sorriso idem. E abaixou a cabeça e voltou a seus afazeres cheirosos.

Agradeci e me mandei.

 

SEGUINDO A TRILHA DO PÓ

Logo na esquina um traficante apregoava sua mercadoria.

– Pó da Bolívia, importação direta! Mais barato só aqui!

– Ô, meu! – indaguei. – Por caso viu o Amnércio por aí?

– Vi não – respondeu o inquirido. – Melhor ligar pro meu parça do Leblon. – E me deu o celular do parça dele.

Disquei.

– Alô! Você que é parça do parça do pó da assembleia?

– Eu mesmo. Pó falar.

– Tô precisando encontrar o Amnércio. Tu sabe dele?

– Só vi de manhã. Passou por aqui, levou um quilinho caprichado, disse que tinha uma festa de noite no apê. Deve ter ido descolar umas gatas.

– Mas ele não tá casado?

– Casado, tá. Mas a madame parece que se mandou de férias pros istates.

– Obrigado, cara – agradeci. – Depois passo aí prum negocim porreta.

Tinha um táxi parado logo pertinho. Enquanto esperava passageiro o motorista cheirava uma fileirinha arrumada no capô no carro.

– Tempo pra uma corridinha, parceiro?

– Craro – disse ele, com aquele sotaque típico da Baixada Fluminense. – Que é que tu manda?

– Toca pro Lebron – disse eu imitando o sotaque dele. – Preciso encontrar o Amnércio Naves.

– Iche, cara! – respondeu ele me encarando troncho. – Tu vai perder a viagem. Acabo de levar ele pro Galeão.

 

Ó DÚVIDA ATROZ!

– Como pro Galeão? – duvidei. – O parça do Lebron acaba de me dizer que ele vai dar uma festa esta noite. Até adquiriu um quilinho caprichado.

– Delação fajuta, cara – respondeu ele. – Esse quilinho ele levou pros parças dele em Brasília. Um agradinho, sacumé?

– Mas e a festa? – insisti.

– Que qui tem a festa?

– A festa que ele vai dar, cara! De noite na casa dele!

– Pobrema nenhum – disse o motorista caprichando no sotaque. – Vai num pé e vorta no outro. Ou tu acha que senador anda a pé?

– Beleza – disse eu, compreendendo afinal como funcionava a coisa. – Então toca pro Lebron. Espero ele na porta do prédio.

– Mas tu vai assim, de mão abanando?

– Como de mão abanando?

– Assim liso, cara – respondeu ele me olhando espantado. – Ou tu acha que sem um agrado o porteiro te deixa chegar perto?

Arregalei os olhos.

– Faz o seguinte – aconselhou o motorista. – Chega no parça ali atrás, descola um meio quilinho caprichado pra agradar o porteiro e aí a gente vai. Sacou?

(Continua na próxima semana)

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