O país dos canalhas – Capítulo 5 – Reunião ministerial, por Sebastião Nunes

Sai do apê de Amnércio Naves às cinco da matina, atochado de tudo quanto é droga. Logo eu, Philip Marlowe, criação imortal de Raymond Chandler, que jamais havia me rebaixado tanto, nem quando levava porrada no submundo de Los Angeles.

Saí de braço dado com Amnércio, que berrava a plenos pulmões (como escrevem os gaiatos que pensam que sabem escrever). Berrava assim:

– Cidade maravilhosa/ cheia de encantos mil/ cidade maravilhosa/ coração do meu Brasil!… E tal e coisa. Um saco!

– Adonde vamos, parça? – perguntei.

– Simbora pra Brasília – respondeu o Naves. – Cadê o Pó?

– Pó a essa hora, Amnércio?

– Não é pó pó, cara – respondeu. – É o piloto do helicóptero. O Toninho Pó.

– Ah, entendi – respondi, entendendo que naquelas quebradas todo mundo tinha alguma coisa a ver com pó. – Tá ali na esquina, chapando.

 

COMEÇA A REUNIÃO

Demorou pra caramba. Não a reunião, mas chegar lá, no Palácio dos Jaburus-Carecas. Antes tivemos de descer em 33 fazendas, deixando ou carregando 500 quilos de pó em cada uma, todas na rota Rio-Minas-São Paulo-Brasília, se a esse périplo irregular se pode chamar rota. Talvez fosse melhor derrota.

Chegamos à capital federal nacional (sic) 28 horas depois, bem na hora da reunião ministerial das 10, que começaria mais ou menos às 11,30, depois que todos estivessem bem servidos de pó, haxixe, crack, flores de papoula ao curry, folhas de coca imersas em azeite extravirgem, cogumelos fritos em banha de porco, uísque, vodka, kwass, guaraná diet e suco de alho negro para os mais depauperados ou subnutridos.

Entreguei minha credencial ao parça da portaria, um cartãozinho com a imagem holográfica de uma flor de papoula vermelhusca. Ele cheirou e mandou entrar.

Amnércio foi logo entrando sem pedir licença. Da casa, ele. Dos mais íntimos. De cama e mesa, acho.

O salão de reuniões, para quem não sabe, é enorme, mais comprido que largo, com guardas fantasiados de jaburu careca (chapéu de jaburu, fraque à moda jaburu, peitilhos de penas de jaburu etc.) e armados de submetralhadoras, postados de dois em dois metros. Na lapela, um botãozinho com a flor de papoula holográfica.

 

CONTINUA A REUNIÃO

O anfitrião entrou capengando e carregando uma bolsinha florida, decerto oferta da madama anfitriã. Da bolsinha saía um tubo que entrava pela calça dele, anfitrião. Pelos esgares, olhares e carrancas, percebi que as coisas andavam mal para o lado do anfitrião. E que todos torciam para que o anfitrião piorasse.

O anfitrião sentou de banda.

O anfitrião tirou um lenço do bolso e passo na testa molhada de suor.

O anfitrião não andava bem.

Todos torciam para que o anfitrião andasse pior.

O anfitrião era um usurpador.

O anfitrião lera “O príncipe”, de Maquiavel, e conhecia as regras do jogo.

O anfitrião usava as regras do jogo a ser favor.

O país se fodia? O anfitrião não se fodia.

O anfitrião só fodia os inimigos e os amigos dos inimigos e os parentes dos inimigos e os conhecidos dos inimigos – ou seja, 95% da população.

O anfitrião era foda.

O anfitrião continuaria sendo foda enquanto vivesse.

 

TERMINA A REUNIÃO

O mordomo deu dois tiros na cabeça de um guarda para chamar a atenção.

Todos olharam para ele, que perguntou:

– Posso servir o prato principal?

O anfitrião disse que podia.

Os garçons entraram em fila, cada um trazendo uma criança nordestina assada numa bandeja de prata.

Todos aplaudiram.

Os garçons trincharam as crianças assadas e serviram a ministros e convidados.

Todos provaram e disseram que estava uma delícia.

Amnércio Naves perguntou se os nordestinos não iam ficar com raiva.

O anfitrião disse que não, tinha nordestino demais.

O ministro da fazenda disse que ajudava a diminuir o déficit orçamentário.

O anfitrião mandou servir a sobremesa:

– Que entrem os marines!!!

Os marines entraram transportando nas costas a sobremesa.

A sobremesa era pudim de folhas de coca com cocada baiana enfeitado com flores de papoula, importadas diretamente do Afeganistão.

Continuar a reunião depois da sobremesa?

Nem pensar: depois da sobremesa era a hora sagrada da sesta.

Então todos se retiraram para os quartos de hóspedes.

Em cada quarto havia: um jaburu careca empalhado, um narguilé atochado de pó ou haxixe (à escolha) e seis belas garotas seminuas (uma negra, uma mulata, uma índia, uma nissei, uma morena e uma loura) para que cada convidado escolhesse sua preferida.

Democracia racial é isso.

É assim que se constrói um país verdadeiramente democrático.

Como não estou acostumado com tanta fartura, escolhi as seis.

 

(Continua na próxima semana)

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