O país dos canalhas – Capítulo 6 – Poemetos envenenados, por Sebastião Nunes

O país dos canalhas – Capítulo 6 – Poemetos envenenados

por Sebastião Nunes

Saí do quarto de hóspedes no Palácio-do-Jaburu-Careca deixando minhas seis belas acompanhantes completamente apagadas. Não era para menos. Desde que chegara ao Brasil, um mês atrás, nunca tive tempo para namorar.

Tranquei a porta, como me pediram. A ideia é que as moças fossem retiradas pelos fundos, para não dar na vista. Não dar muito na vista, claro, pois todos sabiam o que rolava ali em matéria de droga, orgia, trambique, grana e sexo. Grandes bacanais erótico-financeiras, mas o povo é surdo, mudo e cego, não é mesmo?

 

UM POEMA A PROPÓSITO

Logo que cheguei, recebi de amigos alguns livros que retratam em poesia e prosa a situação do Brasil. Reproduzo um dos poemas erótico-satírico-anarquistas de que gostei, composto por um gaiato chamado Sebastunes Nião, poeta marginal:

 

            AS RAMPAS DO PALÁCIO

            Deitado de costas o presidente ronca./ Deitada de bruços a senadora sua.// Ajoelhado no tapete o ministro chupa./ De pernas abertas a deputada goza.// O líder do governo propõe uma suruba./ Em regime de urgência o plenário aprova.// Pelo buraco da fechadura o secretário./ Enrolado nas cortinas o mordomo.// A afilhada do prefeito sobe a rampa.

 

            É a cara do poder no Brasil, não é mesmo? Se incluísse droga, trambique, traição, chute no saco e muita sacanagem seria cuspido e escarrado este vosso país.

            Povo? Você quer saber de povo? Mas quem foi que disse que nesta terra o tal de povo tem alguma importância? Mas se quer mesmo, lá vai outro, de um casca-grossa de nome Senião Bastunes, este meio que pornô, mas não dá para falar de poder no Brasil sem meter pornografia no meio, não é mesmo?

 

            NOVA TROPICÁLIA

            Onças, antas, tamanduás./ Saguis, capivaras, tatus./ Preás, ariranhas e caititus./ Todos tomando nos cus.// Bagres, traíras, piraíbas./ Lambaris, piaus, pirarucus./ Piranhas, corvinas e pacus./ Todos tomando nos cus.// Sapos, jacarés e calangos./ Corais, jararacas, urutus./ Todos tomando nos cus.// Sabiás, curiós e sofrês./ Sacis, caaporas, jecas-tatus./ Todos tomando nos cus.

 

            Belo soneto, não é mesmo? E tudo por conta de uma palavrinha mixuruca que dizem os bem-pensantes não se deve usar em poesia. Ah, meus chapas, tenham dó!

            Mas já que falei de poesia, lá vai outro, agora de certo Sabião Bestunes, primo dos anteriores, menos metafórico e mais realista:

 

            SERENATA BRASILIENSE

 

            Do Oiapique ao Chuó/ a ladainha é uma só:/ senhora, de nós tem dó.// Mas Nossa Senhora do Ó/ envolta no seu filó/ é surda como ela só.// (Com mil dedos no fiofó/o povo retorna ao pó.)

 

            Para não encher muito o saco do leitor, encerro com um poema sobre assistência médica. Veja se não é a cara dos pobres na porta dos hospitais públicos, este do poeta marginal Ião Nu, parente dos poetas marginais anteriores:

 

            SANTA CASA

            A mulher amarela geme na ambulância./ O menino de olho furado come uma banana./ O homem barrigudo vomita no pé da árvore./ O casal de namorados desdentado ri./ A velha esquelética caga na roupa./ O vendedor de laranjas come uma laranja./ O guarda olhas as pernas da enfermeira./ O garoto paralítico tropeça na escada./ O médico entrou no carro e caiu fora.

 

Dizem que a situação do Brasil atual é por aí, e de mal a pior. Não sei, não passo de um fantasma chamado Philipe Marlowe, detetive particular de Los Angeles, imortal personagem do imortal Joseph Chandler.

Para quem não lembra (a memória das pessoas fica cada dia mais curta nestes tempos de Whatsapp, Facebook e Twitter), repito minha apresentação, copiada do capítulo 2 desta série:

 

“Cheguei ao Brasil no princípio de 2017 como os pioneiros do Velho Oeste, os garimpeiros do Alaska, os desesperados de Serra Pelada, os construtores de Brasília e os políticos do PMDB: disposto a tudo para ficar rico no menor tempo possível.           Autorizado por Raymond Chandler, chutei a ética para escanteio, pois os tempos eram outros e no país funcionava a lei do cada um por si, tipo urubu em carniça.

Eu sabia que havia filões inesgotáveis em todas as esferas do poder. Bastava cavucar um pouco e jorrava grana viva como petróleo em quintal da Califórnia. Instalei meu escritório em Brasília, botei na porta a plaquinha ‘Philip Marlowe – Detetive Particular – Investigações Sigilosas’ e sentei para esperar.”

 

Pois é. Agora estou aqui no Palácio-do-Jaburu-Careca, participando de reunião ministerial, com direito a cheirada, fungada e, digamos, atividades afins. Minha ideia era visitar hoje os porões deste palácio, que dizem ser digno do Marquês de Sade, aquele taradão do século XVIII, mas fiquei divagando, divagando e não deu tempo.

(Continua na próxima semana)

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