O pintor Malevich e a difícil resistência às ditaduras, por Sebastião Nunes

O pintor Malevich e a difícil resistência às ditaduras, por Sebastião Nunes

Meu pai, Levi Araújo Nunes, era anarquista, pintor e passava fome em Paris quando, em abril de 1935, aos 25 anos, recebeu convite dos mutualistas franceses para integrar um grupo de jovens artistas que visitaria a Rússia. Aceitou de imediato.

Seu objetivo, além de conhecer o estágio em que se encontrava a pintura russa sob o Realismo Socialista, era encontrar-se com Malevich, por quem sempre cultivara fervorosa admiração.

São Petersburgo estava gelada. Centenas de gorros andavam para lá e para cá, pois, acima de tudo, o que mais se vê na Rússia, no inverno e no início da primavera, são gorros austeros. O de meu pai era negro como as asas da graúna.

Natalia Gontcharova, sua guia-intérprete, perguntou:

– Por que tanta vontade de se encontrar com Kazimir Severinovich? Hoje em dia quase ninguém se lembra dele.

– A maioria dos pintores novos o admira – respondeu meu pai. – Nós o admiramos pelo que o Suprematismo representa em criatividade e coragem para romper limites. Acredito que aqui também ele deve conservar amigos e seguidores.

– Amigos, sim, seguidores, duvido – disse Natalia.

 

RUAS E RUAS E RUAS

Meu pai gostava de caminhar. Em Paris, para se aquecer antes de voltar ao sótão em que morava, fazia longas caminhadas. O pesado estojo de pintura não o incomodava, mesmo quando precisava andar quilômetros até um museu ou uma galeria.

As ruas se tornavam mais estreitas, as casas, menores e mais simples.

Natalia não reclamava. Estava acostumada a guiar gente estranha de vários países, pois falava bem espanhol e francês.

– Você gosta da pintura russa atual? – perguntou meu pai.

– Gosto – respondeu Natalia. – Não sei como era antes, mas dizem que se faziam quadros horríveis, sem figuras humanas, alguns continham apenas linhas e cores.

– E gosta por quê? – insistiu meu pai.

– Como aprendi desde cedo, a finalidade da arte é educar o povo. Por isso, nossos pintores, escritores e músicos trabalham com esse objetivo. É uma função nobre, que o camarada Stalin aprecia e incentiva.

As ruas continuavam se estreitando. As casas se tornavam mais pobres. Começou a nevar e meu pai apertou o gorro na cabeça.

– Ainda falta muito para a casa de Malevich?

– Casa de quem?

– Ah, desculpe – disse meu pai. – Para a casa de Kazimir Severinovich.

– Bastante – respondeu ela, sem explicar o que seria esse bastante.

A neve caía. Os dois caminhavam quase em silêncio.

 

MAIS RUAS E MAIS RUAS

– Vi uma exposição no Kremlin – disse meu pai. – Vi e não gostei. Operários saudáveis demais. Mulheres heroicas demais. Soldados parecendo deuses.

– Não gostou por que o povo russo é assim?

Meu pai pensou no que responder. E foi diplomático.

– As pinturas me pareceram forçadas. Como se tudo estivesse às mil maravilhas. Como se a Rússia fosse o paraíso na Terra.

– Nós não acreditamos no paraíso fora da Terra – respondeu Natalia. – Para nós o paraíso é aqui. Se não for aqui, então o paraíso não existe. Nós o estamos construindo devagar. Um pouco a cada dia. Um passo de cada vez.

“Ela está certa e está errada”, pensou meu pai. “É preciso trabalhar pensando em todos, mas também é preciso liberdade para pensar e criar livremente”.

 

BATENDO NA PORTA CERTA

Na frente de uma casa simples um homem fumava.

– Kazimir Severinovich? – indagou meu pai.

– Sim – respondeu Malevich. – Sou eu mesmo.

– Sou brasileiro – acrescentou meu pai, traduzido por Natalia. – Meu nome é Levi e estudo pintura em Paris. Vim à Rússia apenas para conhecê-lo e dizer-lhe o quanto nós o admiramos.

– Nós, quem? – perguntou Malevich, os olhos apertados.

– Todos os estudantes de pintura que conheço. Sabemos de sua importância para a arte contemporânea.

Durante alguns instantes Malevich ficou em silêncio, fumando seu cachimbo e olhando para meu pai. Finalmente disse:

– É muito bom ouvir isso. Aqui estou abandonado. Ninguém quer saber de meus quadros. Nem ensinar posso mais: fui proibido pelo camarada Stalin.

– Compreendo – admitiu meu pai. – Compreendo que aqui seja assim, mas na Europa o senhor é considerado um mestre inovador, se me permite o paradoxo.

– Obrigado, camarada – disse Malevich. – Quer tomar chá?

Meu pai entrou com Natalia e, guiados por Kazimir Severinovich, foram parar numa cozinha tão simples quanto a fachada da casa.

Sentaram-se. Meu pai e Natalia se entreolharam. Malevich botou água para ferver num velho samovar e retirou, de um armário, xícaras, açúcar e creme.

“Todos os ditadores são iguais”, pensou meu pai. “Hitler, Mussolini, Salazar e até nosso Getúlio. Todos são adeptos do pensamento único, o deles, e obrigam as pessoas a pensar como eles. Coitado de quem se opuser ao pensamento único!”.

Bebendo chá e vodka, Levi e Malevich conversaram sobre cultura e liberdade, a liberdade de criar, produzir, compartilhar, existir: liberdade sempre difícil, liberdade que é preciso conquistar passo a passo.

Até que amanheceu e, exaustos, se despediram para nunca mais.

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