O pomar da sabedoria-não-sabedoria e as árvores da confusão, por Sebastião Nunes

Segue um novo capítulo da distopia, agora introduzindo uma série de textos críticos do grande Raymond Chandler que, embora escritos há mais de meio século, servem perfeitamente pra retratar nosso tempo e nosso país em tempos de genocídio.

O pomar da sabedoria-não-sabedoria e as árvores da confusão

por Sebastião Nunes

O não-lugar em que nossos amigos caíram depois de despencarem no abismo era tão extenso quanto 20 florestas amazônicas, mas é claro que só souberam disso porque Gabriel Arcanjo contou:

– Vamos ver se entendem – disse ele, buscando explicar. – Imaginem 20 florestas amazônicas inteirinhas, contando todos os países que ela abrange. Grande pra caralho! – concluiu, com uma piscadela de cumplicidade.

            Daí, olhou para todos e para cada um, dando-se conta de que não compreendiam a enormidade daquele não-lugar, que era constituído por um pomar gigantesco.

            – E bota gigantesco nisso – acrescentou, perturbando a narrativa. – por falar nisso, é bom aproveitar para conhecer o pomar.

            Lá estava ele: árvores sem conta, com frutas penduradas nos galhos generosos.

            – Essas frutas estão parecendo livros – aventurou-se Sérgio Sant’Anna, temendo passar por ignorante, diante dos amigos imortais-mortais-imortais.

            Nem por isso. Todos estavam boquiabertos e de olhos arregalados diante do que viam nas redondezas.

            São Pedro nada dizia. Apenas sorria vagamente ouvindo a arenga de Gabriel. Fez mais: colheu um livro-fruta de uma árvore, arregaçou o camisolão e sentou-se numa não-pedra que flutuava ali pertinho.

            VAMOS LER, CAMBADA?

            Quem propôs foi Otávio Ramos, que arrancou um livro-fruta da árvore mais próxima. Leu o título:

            VIDA E OBRA DE JAIR MESSIAS GENOCIDA BOLSONARO

            Torceu o nariz. Mesmo assim, a curiosidade… Ah, a eterna curiosidade!

            Abriu o livro. O frontispício estava em branco. A página de rosto repetia o título. A página seguinte estava em branco. Depois e depois, em branco. E assim por diante até a última página que também estava em branco. Quem sabe encontraria explicação na contracapa? Em branco. Enfurecido – o que era raríssimo nele –, jogou longe o livro. Não funcionou: voando lentamente, o livro voltou para seu lugar na árvore, à disposição do próximo desprevenido leitor.

            Todos riram. Para consolar o furioso Otávio, aproximou-se Sancho Pança, que abriu o recheado embornal para que se servisse. O maior e mais grosso dos baseados foi a escolha. Consolado, Otávio sentou-se numa não-pedra ao lado de São Pedro, chupando seu brinquedo novo.

            Adão Ventura teve mais (ou menos) sorte. Metido a leitor sério, pegou um livro-fruta bem grosso: GRANDE SERTÃO: VEREDAS. Suspirou fundo: tinha chegado o dia de purgar um de seus pecados mortais. Aconteceu por volta de 1973. Em vias de viajar para os Estados Unidos, onde daria aulas de literatura brasileira na Universidade do Novo México, passou um mês inteirinho andando com um exemplar do GRANDE SERTÃO debaixo do braço. Se abriu, ninguém sabe, ninguém viu. Seus amigos espalharam que Adão tinha inventado a leitura por osmose.

            CONTINUANDO A LEITURA

            Os demais imortais-mortais-imortais foram espertos. Escolheram um único livro-fruta e resolveram ler em conjunto, quer dizer: um deles leria em voz alta para os demais. E foi o que fizeram. O livro escolhido?

            NUNCA VI MEUS MELHORES AMIGOS, seleção de cartas e ensaios do escritor estadunidense Raymond Chandler, criador do inesquecível (e impossível, por ser honesto demais) detetive particular Philip Marlowe.

            Sentaram-se, então, Luís Gonzaga Vieira, Manoel Lobato, Otávio Ramos (que aderiu), Sérgio Sant’Anna e os gringos Janis Joplin, Jimi Hendrix e Sancho Pança, provedor-mor. Adão, apartado deles, mamava o GRANDE SERTÃO.

            Vieira, o primeiro leitor, escolheu o seguinte excerto de uma carta de Chandler a Carl Brandt, seu agente em New York, datada de 22 de julho de 1949:

            “Penso há muito tempo que na prosa atual o público é atraído cada vez mais pelo tema, a ideia, a linha de pensamento, a posição sociológica ou política, e cada vez menos pela qualidade da escrita. Por exemplo, se você considerar 1984 de Orwell uma simples obra de ficção, não poderá dar-lhe uma boa classificação. Não tem magia, as cenas têm pouca personalidade… No entanto, quando escreve como crítico e intérprete de ideias, não sobre gente ou emoções, é maravilhoso.”

            A escolha de Vieira foi óbvia: 1984 é a base de nossa distopia e todos os amigos estão vivendo nela. Além disso, vários foram em vida escritores, e a reflexão de Chandler pareceu pertinente. Aplaudiram com entusiasmo.

            O próximo a ler foi Sérgio, que escolheu trechos de um artigo para jornal sobre a entrega do Oscar de 1946, relacionando entretenimento de massa, tragédias gregas e o teatro elisabetano, quando Shakespeare dava um giro por lá.

            Depois, ah, depois é só sacanagem. Você não perde nada por esperar.

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