O primeiro encontro entre Jânio Quadros e a escritora Adelaide Carraro, por Sebastião Nunes

E depois o mundo político foi abalado pela publicação de um livro mais ou menos escandaloso: “Eu e o governador”, de certa Adelaide Carraro

O primeiro encontro entre Jânio Quadros e a escritora Adelaide Carraro

por Sebastião Nunes

– Para de beber, Pimpin, você já está de porre – implorou dona Eloá.

– Não me chama de Pimpin – respondeu o marido irritado. – Já te pedi mais de mil vezes. Quer me fazer passar vergonha?

– Então para de beber, ou vai mesmo passar vergonha – reclamou Eloá. – Ou esqueceu que Pimpin quer dizer barril de pinga, e o apelido te acompanha há anos?

O governador Jânio Quadros, que não era homem de receber ordens da mulher, virou o cálice de uma golada e procurou com os olhos o garçon, que estava logo atrás, equilibrando uma bandeja. Uma bela morena acabava de deixar um cálice vazio e pegar outro tão cheio que entornou no vestido. Jânio se animou. Eloá fechou a cara.

Pimpin, quero dizer, Jânio Quadros, reabastecido, provou a bebida, estalou a língua e virou-se para a morena, que o encarava sem pestanejar.

– Já nos conhecemos de algum lugar? – perguntou o governador. – Não estou me lembrando de você. Não é uma das funcionárias do palácio, presumo.

– Não, não sou – respondeu a morena, com uma voz que arrepiou a espinha do já um tanto alto Jânio Quadros. – Vim como convidada da prima de um amigo que é irmão de um filósofo que trabalha no gabinete do secretário da cultura.

– Em resumo, veio como penetra – Jânio não tinha papas na língua. – Mesmo se foi assim não importa. Considere-se minha convidada.

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– Obrigada, governador – disse a penetra. – Sou escritora novata e meu interesse era exatamente conhecer o senhor, que admiro há muito tempo.

– Eu é que agradeço – derreteu-se Jânio Quadros trocando as pernas. – Não é todo dia que desperto interesse numa escritora, ainda mais, bonita como você.

 

RESUMINDO O LERO-LERO

Furiosa, Eloá deixou o marido com sua convidada e foi se instalar numa roda de amigas. Sua vontade era estrangular Pimpin, o homem mais feio que já conhecera (foi o que ela mesma disse certo dia) e com o qual acabou se casando, sem ter muito ideia do que fazia: era muito nova naquele tempo e caiu no papo arrevesado dele.

Mesmo de longe, no entanto, acompanhara a conversa do marido com a morena e transbordava de ciúme. Quem pensava que era a sirigaita para entrar assim na casa dos outros e, quase sem disfarces, atrair o governador para um canto do salão?

De fato, num canto afastado, Jânio Quadros e Adelaide – ela acabou por dizer o nome diante da insistência dele – estavam no mundo da lua.

– Bem feito pra mim – resmungou Eloá consigo mesma. – Quem mandou ser tão idiota como fui? Ainda bem que tenho minhas ações sociais no governo e não dependo de Pimpin pra nada. Quando muito pra assinar cheques.

 

NO MUNDO DA LUA

Aos poucos, o governador ficou sabendo que Adelaide, com exceção de obscuro pecadilho de adolescência, publicado aos 13 anos, era praticamente inédita.

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– Ainda estou buscando meu caminho – disse ela. – Tenho certeza que um dia chego lá e sei que farei coisa boa. Enquanto isso, e para aprender, frequento o mais que posso ambientes contagiantes como este, que muito me ensinam sobre a vida.

– De fato – concordou Jânio. – Ouvindo um e outro, participando das conversas, aos poucos você conhece os labirintos do poder, as falcatruas, as safadezas, as rasteiras. Conhece quem manda e quem obedece. Conhece os que têm poder e os que são apenas paus-mandados. Conhece o avesso e o direito. Principalmente o avesso.

–  Obrigada por ser sincero. Sei que aprenderei muito.

– Não posso me demorar mais com você. Eloá está furiosa. Meus convidados começam a notar que lhe dou mais atenção do que a eles. Me telefone um dia desses. Vamos marcar um encontro e conversar melhor.

– Será uma honra, senhor governador. Uma grande honra.

 

DE VOLTA À TERRA

Com um suspiro, Jânio Quadros voltou para o lado da mulher e se esforçou para se envolver nos assuntos. Mas, que diabo de morena bonita! E sensual como ela só. Bem que ele andava precisado de uma amante nova. Claro que não era nenhum Dom Juan, mas santo também não era. Eloá que tivesse paciência para compreender que ele não era só um governador, não era só um político, era de carne e osso como toda a gente, tinha sua vida, suas vontades, e sempre precisava se divertir um pouco.

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– E então, Pimpin? – indagou ela. – Amarrou seu burro numa sombra nova? Vai levar a moça pra fazer piquenique com você?

– Não seja ciumenta, Eloá. Foi só uma troca de amenidades inconsequente.

– Te conheço, Pimpin. Tomara que eu esteja errada.

(Dois anos depois o mundo político foi abalado pela publicação de um livro mais ou menos escandaloso: “Eu e o governador”, de certa Adelaide Carraro, que até então havia publicado dois livros de títulos instigantes e agressivos, mas que não obtiveram o sucesso que a autora julgava merecer. Agora sim. Contando detalhes reais e fictícios de suas relações com Jânio – e por mais que ele desmentisse e jurasse ser tudo mentira – conseguira seu objetivo: tornar-se famosa no país inteiro.)

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